quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Crônicas da Grávida - O Corpo.

Eu estou grávida. Aceito os parabéns e os votos positivos de todos :). Mas sem adulações.

Talvez eu não desejasse esse filho.  Talvez eu não tivesse planejado. No meu caso, eu planejei. Mas eu não sou a primeira e nem a última mulher a engravidar, minha gravidez é minha e é especial para mim. Não é especial para a humanidade.

E detesto adulações.

Como grávida de primeiro trimestre e primeira viagem, evidentemente tenho experimentado sensações e situações que não conhecia antes. A mais assustadora delas até agora é a satisfação doentia de algumas pessoas: "você vai ficar gorda, olha seu rostinho de grávida, vc já tá gorda".

Explico: sempre tive um corpo dentro dos "padrões de beleza brasileiros". Bundão, cintura fina, seios de tamanho médio. Sempre chamei a atenção por isso. E nunca gostei muito dessa atenção, para falar a verdade. Claro que gosto da atenção do meu parceiro, mas odeio chamar a atenção não-solicitada.

Infelizmente, agora tenho percebido a satisfação doentia estampada na cara de algumas pessoas. Que se deliciam em dizer que vou engordar X quilos (elas são bem precisas, dizem o número). Que se deliciam ao ver que minha cinturinha vai desaparecer. Que ficam felizes ao verem que meu rosto vai ficar redondo (já está um pouco redondo rs).

Eu fico tão triste e tão abalada com isso. E vou explicar as razões. A primeira delas é que algumas das pessoas que agiram assim comigo possuem questões relacionadas com sua imagem (sentem-se gordas, fazem ou fizeram regimes, cirurgias plásticas, etc). Eu esperava mais empatia, mas parece que eu estava enganada. A segunda razão é simples: eu realmente tenho medo e engordar. Não tenho vergonha de dizer isso.

Eu não deveria ter esse medo. Claro que não é O MEU MAIOR MEDO NA VIDA, mas é um medinho. Prefiro ter o corpo de antes da gravidez. Sei que isso pode não ser possível, sei que o corpo muda, mas sei mas não quero ser gorda.  Não vou explicar porque não quero ser gorda, mas acredito que além de razões pessoais, fui influenciada pela sociedade que é sim gordofóbica. Estou inserida nessa sociedade, então meu pensamento é moldado dessa forma.

Se eu ficar gorda vou ser infeliz? Não sei, mas acho que não. Eu me sinto muito feliz em diversos aspectos de minha vida. Mas definitivamente, não vou ficar satisfeita.

O terceiro ponto é que considero que as pessoas estão pecando nas prioridades. Poxa, eu estou grávida. Tô feliz, eu queria isso. Não sou idiota, sei dos prós e contras. Então dane-se se vou engordar ou não. Isso não é prioridade!

Quando as pessoas falam que eu vou ficar gorda - e falam com um prazer assustador -, essas razões aparecem na minha frente. E eu me sinto acuada, triste. Infelizmente, tenho percebido ao longo dos dois últimos anos que nem com todo mundo vale a pena manter uma amizade. E se você quer manter a amizade com algumas pessoas, tem que passar por cima de muita coisa, tem que engolir muito sapo. Acontece que não quero mais engolir tantos sapos. Se for uma ou outra rãzinha, até vai. Mas não quero sapos enormes.