quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Nossos códigos

Cada um tem um código de conduta, chamarei assim. Esse código pode e deve ser editado ao longo da vida. É influenciado pela religião, educação formal, educação básica (aquela transmitida de pais para filhos), contexto cultural, época em que a pessoa vive, contexto político, etc.

É um código aberto. Pode ser até influenciado por outras pessoas, em maior ou menor grau.

Outro dia eu conversava com uma pessoa sobre traição. A pessoa me contava o caso de uma moça que saia com um rapaz casado e era amiga da família do rapaz. Vamos chamar a moça de Fulana (que criativa rs). Fulana conhecia a esposa do rapaz, a irmã, os sobrinhos, etc. Ela participava ativamente de festas da família, quando os olhares se cruzaram e surgiu um interesse físico.

Odeio traição de todos os tipos. Já vi de perto como pode destruir famílias e amizades. Se prometeu ficar junto e não há nenhum acordo mútuo de casamento aberto, então é traição. E traição machuca, fere, prejudica.

Também não acho que casamento precisa ser "pra sempre". As pessoas mudam, as situações mudam e uma das partes pode perder o interesse por inúmeras razões. Mas pra mim, quando as coisas são feitas com dignidade, há uma conversa madura e o relacionamento acaba. Simples assim. Ok, talvez não tão simples assim. Pode haver choro, dor, burocracias legais, etc. Mas o importante é haver respeito mútuo.

A pessoa com quem eu conversava (e que narrava a história de Fulana) disse que não admitia traição. Eu concordei com o ponto de vista dela, ainda ressaltei que Fulana não deveria ser a única vilã da história, como normalmente ocorre nessas histórias de traição. O marido traidor também estava errado, mais errado do que Fulana, porque fora ele quem rompera o acordo do casamento. Meu interlocutor concordou comigo, achou um absurdo que a culpa sempre recaia na "amante".

Por alguma razão que desconheço, a história descambou para homossexualidade. Meu interlocutor disse que preferia ter uma filha lésbica do que uma filha que fosse "amante de alguém". Nesse momento, perdi total interesse na conversa. Mas continuei ouvindo. Meu interlocutor dizia que ninguém merecia ter uma filha lésbica, que "essa  raça" é influenciada pela TV, que é pura rebeldia, que na verdade quer "atrair a atenção dos homens" etc. Todo aquele tipo de absurdo que as lésbicas ouvem todos os dias de suas vidas.

Tentei explicar que a homossexualidade é uma orientação sexual, que da mesma forma que existem pessoas heterossexuais, existem homossexuais, etc, aquela coisa toda que a gente explica para orientar as pessoas. Aquela coisa toda que DEVE ser explicada nas escolas, mas que infelizmente ainda é um tabu, graças às intervenções da bancada evangélica e de nossa querida presidenta que para manter alianças, que acata o que a bancada religiosa diz. 

Bom, eu tentei. Fiz a minha parte. Eu estava de bom humor no dia, então procurei agir de maneira professoral e amigável. Meu interlocutor até que concordou, mas ele disse que "isso só vale para alguns casos" porque "muita molecada é influenciada pelas novelas". Estamos falando de orientação sexual e não de escolha de smartphone.

Acabei mudando de assunto, mas antes disso perguntei o que meu interlocutor pensaria de uma suposta filha "amante" e homossexual. Então ele gelou, e invocou a Deus para "livrá-lo do mal".

Minha pergunta é: será que um dia, ser gay não será um problema? Será que um dia os códigos de conduta das pessoas encarará a homossexualidade e outras orientações sexuais que não a heterossexual com naturalidade? Será que um dia ser gay não vai ser sinônimo de falha de caráter? Avançamos muito nos direitos LGBT, mas ainda há muita intolerância e ignorância. Como otimista irremediável, acredito que um dia vai dar tudo certo.

Também aproveito para dissecar um pouco sobre o meu código de conduta: no meu código, traição é algo indigno e desonroso. Para algumas pessoas, que tem uma noção mais fluida sobre relacionamentos, sou conservadora. E podem me chamar como quiserem, mas eu odiaria ser traída. E se eu traísse, ficaria com um horrível peso na consciência. Para mim, é errado, simplesmente porque machuca o outro. 

Esse ponto em meu código de conduta pode ser conservador. Mas eu apoio na integralidade os direitos LGBT. Apoio a regulamentação do uso de algumas drogas (com muito foco na educação e redução de riscos), a descriminalização do aborto e outros temas considerados polêmicos. No entanto, traidores não passarão. Será que meu código de conduta será alterado nesse ponto algum dia? Acho pouquíssimo provável. 




segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Eu sonho com um mundo onde as pessoas não pensem linearmente

Eu sonho com um mundo onde as pessoas entendessem que as relações humans não são lineares. Um mundo em que as pessoas tivessem naturalmente a noção de que uma ação não provoca sempre a mesma reação. Assim essas pessoa seriam capazes de rejeitar a desonestidade intelectual que assola o mundo contemporâneo. Neste post vou falar de assuntos um pouco polêmicos. Não concorda comigo? Não precisa acreditar na minha palavra. Apenas peço que você pare de aceitar de mão beijada a palavra de comunidades nas redes sociais. Faça sua própria pesquisa. Alguns comentários deste post foram inspirados nas análises feitas por Malcolm Gladwell em seu livro “David e Golias”.

Muitas coisas na vida se comportam como uma curva na forma de “U” ou “U invertido”. Ou seja, uma mesma ação em condições diferentes pode gerar reações diferentes.

Por exemplo, imagine que você esta sentada(o) em uma mesa em seu restaurante favorito e você esteja morrendo de fome. É uma situação desconfortável (fome). Quando o garçon traz o seu prato predileto de comida e você começa a comer aquela sensação desconfortável passa a diminuir. Até o ponto em que você se sente satizfeita(o). Deveríamos parar ali, mas muitas vezes continuamos a comer e até passamos do limite. De forma que uma nova sensação de desconforto comeca a surgir. A mesma ação, comer, gera resultados diferentes dependendo se você está de barriga vazia ou de barriga cheia. O mundo não é linear.

Existe uma idéia de que no Brasil há muita impunidade e que essa falta de punição seja a causa de tanta violência que presenciamos e que algumas vezes, infelizmente, somos vítimas. Essa idéia de que a impunidade causa violência é uma idéia senso comum. E é uma idéia correta e incorreta ao mesmo tempo. Existem estudos que mostram que os seres humanos estão sempre ponderando os prós e contras de suas ações. Estamos sempre num estado de aposta. Se não há punição, a probabilidade de benefício é alta e a criminalidade aumenta. A medida que a punição aumenta, as pessoas passam a ponderar melhor as consequências de seus atos e a criminalidade diminui. Mas a criminalidade somente diminui até certo ponto. Se a punição passa a ser muito severa, a punição passa a ser percebida como injusta e a criminalidade passa a aumentar novamente. Então temos a curva “U”. Pouca punição gera o mesmo resultado de punição em demasia. O mundo não é linear.

Na minha opinião no Brasil existe impunidade e muita punição ao mesmo tempo. Um dos motivos pelo qual a polícia por vezes nem prende o batedor de carteira é porque nem tem mais lugar pra ladraozinho na cadeia. As cadeias estão super lotadas com gente que praticou crimes muito piores. Mesmo assim, todos os dias vemos notícias de policiares invadindo casas, prendendo e matando pessoas em comunidades pobres. Ao mesmo tempo, 450kg de cocaína são apreendidos em um helicópetero de um senador pouca gente parece se lembrar disso. Você sabe o que deu o processo? Você sabe se alguém foi preso? O meu ponto aqui é que esse sistema de punição só funciona para quem não é tão pobre ao ponto de perder as esperânças e nem é tão rico a ponto de ter um padrinho senador. O mundo não é linear.

Outra idéia senso comum é a idéia de que não se deve dar o peixe, mas sim ensinar a pescar. Novamente é uma ideia correta e incorreta ao mesmo tempo. Nao é a toa que grande parte das empresas que são herdadas vão a falência. Todos conhecemos os mimados que sempre tiveram tudo de mão beijada e quando precisam andar com as próprias pernas simplesmente não são capazes. Não me refiro apenas a bens materiais. Pensem também nos colagas de sala de aula ou nos colegas de trabalho que não querem se esforçar para aprender nada. Por outro lado, o programa Bolsa Família no Brasil tem mostrado resultados positivos. Não estou fazendo propaganda politica aqui. Mas o programa tem rendido bons frutos, ficou famoso internacionalmente, tem o apoio dos especialistas e provou melhorar não só a vida das famílias beneficiadas como também a vida de todos na comunidade. Ou seja, é ruim dar dinheiro para quem já tem o equipamento de pescaria (independência financeira), mas dar dinheiro para quem não tem quase nada torna as pessoas mais livres e todos se beneficiam. As pessoas precisam de um mínimo para poderem conquistar sua independência financeira. O mundo não é linear.

Quando a gente escuta ou lê que algo é diferente daquilo que a gente acreditava ser verdadeiro, é uma sensação desagradável. Mas a verdade é muitas vezes assim, inconveniente. Não é agradável admitir que estamos errados. Mas se agarrar a ideias falsas para evitar o desconforto de admitir o equívoco não traz nada de bom a você ou àqueles ao seu redor. Então antes de julgar uma informação utilizando seus próprios instintos, que provavelmente serão senso comum, tente ler bastante e se informar a respeito do assunto. Não compartilhe idéias lineares, porque o universo não é linear e você é parte dele.




quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Nivelando por baixo.

Hoje comentei que não gostaria de ser operada por esses médicos e então uma moça no twitter disse que "eu não deveria generalizar, porque em toda profissão tem gente boa e ruim...." bocejos.

Sério mesmo? Será que eu sou tão estrupícia que não sei de uma obviedade dessas? Será que sou tão idiota que não sei que em uma determinada profissão qualquer (seja ela qual for)  existem pessoas boas e pessoas ruins? Para começar, será mesmo que eu estava generalizando no que disse? E se estava, será que a generalização foi proposital, intencional ou foi apenas uma hipérbole?

O fato é que qualquer pessoa um pouco mais esclarecida (e nem precisa de muito) SABE que em um grupo qualquer de pessoas tem gente que trabalha bem e gente que não honra o que faz. É MUITO MUITO MUITO GRITANTEMENTE ÓBVIO. Então porque a moça veio chamar a minha atenção? Por que ela se sentiu ofendida? Por que ela acha que eu sou idiota? Não sei, sinceramente. Mas acho que nivelar as pessoas por baixo faz parte da nossa cultura.

Por isso que a previsão do tempo apresentada na TV é tão superficial. A previsão do tempo apresentada nos telejornais da Globo (emissora com maior audiência) é comandada por uma mulher bonita e magra (e que claro, que de preferência siga os padrões de beleza eurocêntricos, salvo uma rara exceção que me lembro) que fala por menos de 2min e muito rapidamente e sem nenhuma substância e que mal explica os fenômenos meteorológicos. A plástica perfeita e o tal "padrão globo de qualidade" que visa sobretudo a aparência são mais importantes que o conteúdo. O brasileiro, em geral, é visual. E provavelmente, dentro das redações, há discussões sobre "como vamos explicar isso para as pessoas, é muito complicado". 

 E não só a previsão do tempo. Qualquer informação científica é tratada com o mesmo descaso pelos jornalistas. A propósito, não entendo porque tem que ser um jornalista. Eu posso escrever sobre ciência no meu portal. Um astrônomo, um físico, um biólogo ou qualquer outro profissional também poderia. Basta apenas ter afinidade com a escrita e quanto mais se escreve, melhor ela fica. Mas os portais, sites de notícia e redações preferem contratar jornalistas, como se eles fossem uma espécie de profissional polivalente que pode falar sobre tudo. Acontece que nem todo jornalista tem afinidade com ciência ou economia, por exemplo. Entrevistam pessoas e muitas vezes mal sabem o que devem perguntar para elas. Simplesmente porque não tem afinidade com o assunto. Tudo é feito nivelando por baixo. 

Agora vou entrar em um terreno polêmico: doações de caridade. Vista a carapuça apenas se servir, mas já ouvi pessoas que dizem que vão montar uma cesta básica para uma família carente, mas não tem problema, compram do arroz mais baratinho mesmo, porque pobre não tem paladar exigente ou coisa do tipo. Lamentável, isso para mim não é caridade. Caridade é amor, é você comprar coisas que você consumiria em sua casa. É repartir e não dar migalhas. Sei que o assunto é polêmico e cada um deve ajudar os outros da melhor maneira possível (e cada um tem seu melhor, sua disponibilidade, sua opinião e suas condições financeiras particulares).  No entanto, não posso achar normal essa coisas de nivelar por baixo.