terça-feira, 30 de setembro de 2014

Sou boazinha, sou perfeita e meus métodos contraceptivos não falham

Outro dia travei uma discussão (não do jeito passional que as pessoas estão acostumadas a ver) no Twitter. A moça, dizia que aborto era assassinato de bebês, que jamais abortaria, que as pessoas tinham que se cuidar para não ficarem grávidas, porque os métodos contraceptivos dela sempre funcionavam, etc.

A teoria da moça perfeita. A pessoa acima do bem e do mal. É amigos, nesse mundo cão, isso não existe. A vida está longe de ser perfeita e longe de tudo dar certo.

Não vou dar detalhes, mas é fato que:

- Aborto não é assassinato: é por essa razão que se estabelece um período limite de gestação para abortar, na maioria dos países em que o aborto é regulamentado. Se um feto de 3-4 meses for um bebê viável, então somos coelhos.

- Aborto não é método contraceptivo: aborto é a última instância. A mulher que faz um aborto está desesperada. O método contraceptivo dela falhou ou ela simplesmente não usou. Isso mesmo, acontece, nem todo mundo é perfeito como a moça que discutiu comigo.

- A mulher que pensa em aborto precisa ser acolhida: precisa de apoio psicológico, carinho e atendimento médico. Se porventura ela não quiser abortar, também precisa de apoio para cuidar desse bebê ou destiná-lo para adoção.  

- As feministas e os progressistas pró-aborto não querem obrigar as pessoas a abortarem: quem pensa assim são alguns reacionários, que não querem que mulheres pobres tenham filhos. As militantes lutam para que o aborto seja uma opção presente na rede pública. Dessa forma, evita-se que mulheres morram em clínicas clandestinas de aborto.

- Guarde suas convicções pessoais para você mesma. Isso mesmo! Para a mulher desesperada, que vai fazer o aborto de qualquer jeito (amparada pela lei ou não), não importa se você é cristã e a favor da vida. Ou se você tem uma família maravilhosa que vai te ajudar. Muitas pessoas não são como você, lide com isso. Um país justo é aquele que oferece condições para as mulheres que escolherem o aborto, abortem. E claro, sejam amparadas.

Após feitas essas considerações básicas, fico pensando na incoerência da moça boazinha fofinha que jamais mataria bebês. É dessa forma que uma mulher que sofreu aborto merece ser julgada por outra mulher? Ou seja, não faz o aborto, mas não se preocupa com os sentimentos dos outros. Não 'mata bebês', mas tudo bem que 'mulheres morram' enquanto realizam o procedimento de forma clandestina.

Essa ideia de que "meu jeito é o certo" e "eu sou portadora do bastião do bem" precisa acabar. As mulheres já são diariamente massacradas e julgadas por essa sociedade patriarcal. Na política brasileira, temos pouca representatividade. Não precisamos de julgamento de mulher para mulher. Precisamos de sororidade, precisamos nos ouvir e nos respeitar. 




quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Apelo aos evangélicos

Escrevi em meu perfil do Facebook o apelo abaixo, direcionado a muitos evangélicos que conheço e comportam-se dessa maneira. Depois que escrevi, notei que tinha tudo a ver com a proposta do Discurso Retórico.

Como o blog estava com algumas teias de aranha, resolvi que era hora de voltar a escrever para deixar esse texto registrado de forma mais organizada. No Facebook, ele vai se perder em meio a outras atualizações. Espero que gostem :)



Diante de tantos acontecimentos e coisas que tenho presenciado, comecei a refletir. Acompanhem-me. Há algum tempo atrás ouvi uma entrevista do Caio Fabio. Nem sei porque estava ouvindo a entrevista, mas lá pelas tantas ele disse que "o povo evangélico era burro". Palavras duras e generalizadoras, mas tenho percebido certa verdade e acho que compreendo o que ele quis dizer.

"Burro" é um termo pesado, raivoso, eu substituiria por ignorante (que também tem uma carga ruim). Talvez por incautos. E a ignorância não aflora a todo momento e em todas as situações. Mas independentemente da palavra utilizada e sem a intenção de ofender, pretendo expor o que penso.

Mas que palavra usar para se referir a pessoas que curtem tudo o que o irmão/pastor/presbítero/etc dizem ou postam, por mais incoerente, não cristão ou desumano que seja? Que palavra usar para descrever pessoas que facilmente endeusam a pessoa que está no banco do lado, simplesmente porque compartilham um mesmo edifício?

Vocês podem e devem discordar dos irmãos. Podem e devem buscar outras fontes de conhecimento, inclusive concordar com pessoas que não compartilham a mesma fé (ou que nem fé tenham), porém estão sendo coerentes.

E vocês devem deixar de ENDEUSAR as pessoas. Isso está errado. Ninguém é 100% bom ou 100% mal. Citei Caio Fabio no começo do texto, não porque eu concorde com tudo o que ele diz, mas sim porque UMA COISA que ele disse me fez refletir. Parem de viver nesse mundo binário, em que tudo é SIM/NÃO ou BOM/MAU. Os seres humanos são bem mais complicadas do que isso, mas acredito que todos podem buscar o BEM juntos.

Abaixo, uma foto de Jim Jones. Se não sabem quem é, pesquisem e liguem os pontinhos. O cara conseguiu convencer mais de 800 pessoas a deixarem o conforto de suas casas e juntarem-se em uma seita no meio da Floresta Amazônica. Ele conseguiu convencer todos a fazerem exatamente o que ele queria. Provavelmente essas pessoas (muitas delas), concordavam com ele e com seus auxiliares em 100% do tempo. Provavelmente porque estavam desesperadas.