quinta-feira, 17 de julho de 2014

"Você se acha melhor que os outros"

Eu tive o desprazer de participar de uma conversa nojenta e racista. Uma pessoa que conheço começou a dizer que os jogadores da Alemanha eram admiráveis. Depois de toda aquela muito comum adulação de gringos (muito comum na nossa cultura), o conhecido então diz algo mais ou menos assim:

- Sem contar que eles (os jogadores da Alemanha) são mais apresentáveis, não tem aqueles cabelos (..) aquele aspecto sujo (...), aqueles braços cheios de tatuagem (...).

Ah, eu fiquei muito revoltada quando ouvi isso. Primeiro que pra mim há um claro racismo nessa fala e isso em si já é abominável. Depois ela fala da questão da aparência: o cabelo certo, não ter tatuagens, etc.

Eu fiquei tão indignada que na hora retruquei. Disse que os jogadores alemães podem ser admiráveis por diversas questões relacionadas a qualidade técnica  do futebol e ao espírito esportivo que apresentaram em nossos gramados. Mas que as observações com relação a aparência eram preconceito. 

É incrível como as pessoas ficam extremamente ofendidas quando são chamadas de preconceituosas. Ninguém nunca tem preconceito, é incrível. No entanto, as pessoas sofrem preconceito o tempo todo, narram histórias horríveis a todo momento. Quem então é o sujeito da ação?

Em um questionário aplicado no processo se avaliações de funcionários de uma grande Universidade, uma das questões era algo como "como você lida com a diversidade"? As respostas eram quantitativas: 1 para intolerante e 5 para super tolerante. Como tratava-se de uma auto-avaliação, fiquei surpresa ao saber que muitos colocaram 5. A maioria se auto-avaliou como "super-tolerante" ou "celebrador da diversidade", quando no dia a dia você nota que muitos mostram exatamente o oposto.

Ser chamado de preconceituoso no Brasil me parece uma maior ofensa do que sofrer o preconceito. Poucos conseguem admitir que sim, são preconceituosos. E se mais gente admitisse esse lixo em nossas vidas (e que fez parte de nossa criação, estamos imersos nisso tudo), seria mais fácil livrar-se desse lixo. É como aqueles acumuladores, dos programas de TV. Demora até eles reconhecerem que tem um problema psicológico e que precisam resolvê-lo. Eles demoram para perceber que estão acumulando lixo e precisam se livrar dele.

Quando disse a pessoa da história que ela era preconceituosa, o clima fechou. E como todo preconceituoso, ela procurou elementos banais para explicar que não era preconceituoso. Por exemplo, a pessoa em questão disse que também pinta o cabelo. Também disse que algumas tatuagens são legais (acho que nessa hora a pessoa lembrou que eu tenho tatuagens). Foi quando fiquei ainda mais indignada e disse:

- Quer dizer que só do seu jeito, apenas pintando o cabelo do seu jeito e apenas fazendo do seu jeito está certo?

Então a pessoa mudou de assunto e não quis mais continuar a discussão. Estou cansada desse tipo de argumento. Quando como confrontados diante do próprio racismo, muitos afirmam que tem amigos negros. Agora substitua racismo por homofobia e amigos negros por amigos gays. Alguns clamam inclusive por um suposto parentesco negro (ah, minha família tem o pé na cozinha, a tal emenda pior que o soneto) ou por um parentesco gay (meu primo de terceiro grau é gay, mas ele é discreto). 

A gente não pode se omitir diante do preconceito. Eu sei que não é para sair por aí fazendo barraco (quando puder, saia sim). Sei que em muitos ambientes é difícil de argumentar, no ambiente de trabalho, por exemplo. Mas você pode dizer: "Olha, acho isso preconceito". E fecha a cara e diz tchau. 

Ou então diga: Eu não entendi o que você quis dizer.

Acho que foi o Louis C.K. que deu esse último conselho. Eu pesquisei, mas não encontrei a citação em que isso é dito. Não tenho certeza se foi ele mesmo que disse isso (eu li em algum lugar, não consigo lembrar onde). De qualquer maneira, é bem genial. Quando aquele seu conhecido racista falar:

- Ah, quando não suja na entrada, suja na saída.

Você então diz:

- Cara, não entendi o que você quis dizer.

Então ele vai tentar explicar, vai se enrolar, vai expor ainda mais o preconceito, etc. É bacana para quando tem mais gente por perto, as pessoas merecem saber quem é babaca.

E porque o título desse texto é "Você se acha melhor do que os outros"? Porque uma pessoa que acha que o mundo precisa ser como ela, com o cabelo dela, com o jeito dela e com as roupas dela, se acha melhor do que os outros. Eu cresci em um ambiente evangélico/protestante e essa ideia de se achar melhor do que os outros é bem disseminada, já que "somos o povo eleito", afinal de contas. No primário, estudei em uma escola da periferia. Lembro que alguns coleguinhas diziam que "eu me achava melhor que os outros". Posso atribuir tudo isso a recalque? Não. Há uma parcela minha aí também. Havia em mim os mesmos traços da pessoa preconceituosa que mencionei anteriormente.

E muitas vezes me pego em flagrante, falando com uma propriedade e um conhecimento de causa que são incompatíveis comigo. Muitas vezes eu fico achando que o mundo deve ser como eu ou que minhas experiências pessoais refletem algum tipo de sucesso universal.

R-I-D-Í-C-U-L-A.

Como se de fato eu me achasse melhor do que os outros.


Um comentário:

  1. Excelente!
    As pessoas de fato não aceitam serem chamadas de preconceituosas, mesmo após terem feito comentários ou tomado atitudes preconceituosas. Concordo plenamente que se perceber preconceituoso é o melhor caminho para deixar de sê-lo. Funcionou comigo. Funcionou com muitos conhecidos.
    Mas o que achei genial mesmo foi essa maneira de se lidar com preconceituosos. Sem o "Isso foi preconceituoso!" (embora eu reconheça que há casos em que essa frase é mais que necessária). Ao invés de atacarmos damos a proverbial corda para ele se enforcar.

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