quinta-feira, 3 de julho de 2014

Se ela disse não, então é não.

Não sempre significa não.

Outro dia eu estava no metrô (incrível como meus posts sempre começam por algo que ouvi rs) e um rapaz comentava com seu amigo que uma moça (que não estava presente no local) sempre usava roupas provocantes. Não consegui prestar atenção na maior parte da conversa, mas parece que aconteceu alguma coisa em uma balada. Parece que alguém 'passou a mão' na moça, que ficou muito ofendida (óbvio). E a conclusão dos rapazes foi:

Também, ela provoca.

Não conheço a autoria da imagem acima, mas vi aqui.

O ser humano sempre provoca. Com ideias, com atitudes e até com roupas. A ideia de punição vexatória está muito presente na nossa cultura. Se uma criança faz escândalo na rua, se um adolescente é pego roubando ou mentindo,  parece 'natural' que os pais devam aplicar um castigo físico. 

Tenho a impressão que a mesma lógica é aplicada para moças que resolvem usar uma roupa curta, com decote ou com transparência. No último fim de semana, encontrei algumas amigas. Uma delas estava com um vestido com transparências. A outra amiga disse que aquele vestido era sexy e ela deveria estar preparada para o ônus.

O que é esse ônus? Pessoas olhando com educação, encantados pela beleza dela? Ou abutres nojentos, fazendo comentários desagradáveis? Um eventual estuprador? O primeiro ônus eu entendo e pode ser interessante. Mas nenhuma mulher quer passar pelo segundo e pelo terceiro. Isso é bastante óbvio. Quem acha que uma moça de minissaia está "querendo ser estuprada", não tem o mínimo de empatia.

E esse assunto me fez pensar em outra coisa. A maioria das mulheres já passou por situações em que foi coagida a ter relações sexuais. Não falo apenas de casos de estranhos em um beco escuro. Falo de ficantes, peguetes, namorados, maridos, etc.

Nós não temos obrigação de fazer sexo com ninguém. Há dias em que você só quer ficar quietinha no seu canto. Quer conversar, ver um filme, ler um livro, etc. Não é porque você está em um relacionamento com alguém, beijando e acariciando, que você necessariamente deve fazer sexo. Falando assim parece simples, mas tenho certeza que muitas mulheres tem histórias de parceiros que forçaram a barra. Algumas histórias envolvem violência física ou verbal por parte dos parceiros, diante de uma recusa. 

Não são incomuns os casos de: "Ah, você está me beijando desse jeito e não quer dar? Até parece?", "Você disse não mas eu sei que você quer", "Agora tô de pau duro, olha o que você fez" etc. Se a moça disse não, é não. Não existe isso de charminho. Se a moça está indecisa, é porque ela está indecisa. Todo mundo fica indeciso. E homens que respeitam, compreendem isso.

Quando os pais vão falar sobre sexo com seus filhos, falam sobre camisinha. Parece que a conversa sobre sexo com os meninos resume-se a isso. Não colocam na mesa assuntos como respeito e consentimento. A mulher precisa consentir e precisa ter condições para isso. Não pode estar psicologicamente alterada, alcoolizada ou drogada. 

Óbvio que o oposto deve ocorrer: as mulheres não podem forçar a barra com nenhum homem para fazer sexo. Mas apesar do que você pode estar pensando ("Ah, o primo da cunhada do meu vizinho foi coagido a fazer sexo pela sua colega de trabalho, acreditam?"), não quero essas aberrações estatísticas, pois o que ocorre normalmente é o oposto. Nós mulheres somos ensinadas a "se guardar", porque os homens não "conseguem se controlar". Parece que uma ereção torna-se uma necessidade de fazer sexo. Mas deixa eu contar uma novidade: não somos movidos apenas por instintos. Podemos raciocinar, tomar decisões e mudar de ideia.

Sim, mudar de ideia. Se uma pessoa disse que iria fazer sexo e chegando no motel resolve mudar de ideia, o(a) parceiro(a) deve compreender. Simples assim. 

Se não quer lidar com pessoas, não quer entender suas necessidades, seus problemas e todas as nuances, se você quiser continuar sendo um(a) indivíduo(a) mimado(a) que quer tudo agora e aqui, então recomendo que procure brinquedos sexuais que te satisfaçam. A Cherry 2000 ainda não existe.  


Se você gosta de ficção científica ruim-bizarra, assista. 

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