quinta-feira, 10 de julho de 2014

Panem et circenses

É incrivelmente visível como a Copa é usada para mascarar os problemas e tragédias que vemos diariamente. Muitos dos meus contatos que até pouco tempo demonstravam-se preocupados com a situação política e econômica do Brasil (mesmo que com um viés reacionário), agora torcem pela seleção brasileira.

O futebol é um esporte que contagia. É gostoso assistir um jogo, reunir-se com amigos e familiares e torcer pela seleção. Mas assuntos urgentes e discussões políticas importantes, que estavam mais presentes no dia a dia desde as manifestações de junho e julho do ano passado, parece terem tirado férias. 

Esse poder inebriador do futebol me assusta. Na última sexta-feira eu saí do trabalho mais cedo, em decorrência do jogo da seleção. Entrei no metrô e no ônibus e notei que o clima estava diferente: pessoas muito eufóricas e muito ansiosas. A preocupação era: chegar mais cedo em casa para fazer os preparativos para os jogo. Nunca vi tanta gente lendo tando: estatísticas do futebol, textos sobre momentos engraçados, bastidores nas partidas, etc. 

Infelizmente não tenho visto o mesmo engajamento e preocupação com as eleições,  com os recentes escândalos de envolvimento de construtoras em doações para partidos políticos, com o descaso para com a saúde e educação, com a violência policial, com as desocupações forçadas, com o problema da falta d'água, etc.

Ah sim, e com relação ao problema da falta d'água: aqui em São Paulo, o problema no Sistema Cantareira está muito sério. Numa recente análise, concluiu-se que nem mesmo a próxima estação chuvosa pode recuperar totalmente o Sistema. No entanto, todas as preocupações e discussões sobre o assunto parecem ter virado 'volume morto'. Tenho visto muita gente desperdiçando água impunemente, poucas matérias e informações para conscientizar a população e tenho visto pouco engajamento. A Copa eclipsou qualquer discussão séria sobre os problemas sociais. 

Neymar se machucou no último jogo. Se eu disser isso, vou criar um mal estar em qualquer grupo de pessoas que estão acompanhando a copa. Vão dizer que na verdade machucaram Neymar. Queria que essas pessoas dissessem a mesma coisa sobre os jovens pobres que são agredidos pela polícia. Queria a mesma comoção, a mesma revolta e a mesma indignação com a violência policial em geral, que remove pessoas pobres a força de suas comunidades e que invadem as residências dos moradores das favelas. Neymar vai ficar bem. Tem uma boa equipe médica e tem dinheiro. Em poucas semanas ele volta a jogar. Por isso não entendo toda euforia em torno da copa. Não entendo toda comoção em torno da fratura que Neymar sofreu. Não entendo esse problema de foco, que embaça tudo aquilo que está perto e consegue enxergar aparentemente bem aquilo que está longe.

P.S.: Escrevi esse post antes da derrota do Brasil. Não que isso faça alguma diferença. 



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