quinta-feira, 24 de julho de 2014

A arte de dar nome pras coisas: Feminismo Intersecional

Eu estou escrevendo isso possivelmente porque sou da área de exatas. Não tive uma formação em sociologia ou filosofia, não sei classificar as coisas e acontecimentos com os nomes que aparecem nos livros de história. Vou apenas observando, lendo algumas coisas e dando minha opinião.

É por isso que meus textos aqui são diferentes dos de outros blogs que abordam direitos humanos. Escrevo mais de acordo com o que observo, como se estivesse falando com meu leitor em um bar.

Hoje no Twitter me deparei com o termo "feminismo intersecional". Pensei: "O que é isso, meu Deus?". Foi quando cliquei no texto para ler. Um texto muito bom. E chama a atenção para algo importante: o feminismo tem que ser para todas. Minha luta como mulher moradora de uma enorme cidade, branca e de classe média é totalmente diferente da luta de outras mulheres. Fala-se tanto que o homem deve reconhecer seus privilégios, ora, não deveriam TOD@S reconhecerem seus privilégios?

Minha luta diária é mais parecida com a de mulheres com o mesmo perfil que o meu. E olhe lá, cada um tem suas lutas. MAs eu não sei qual a luta diária de uma mulher negra de classe média baixa. Posso apenas saber algumas coisas que me contam, conversando com amigas e colegas, mas eu não vivo o que elas vivem. Minha luta também é totalmente diferente da mulher que trabalha no campo. Não sei do que precisa a mulher muçulmana. Enfim, é preciso entender o básico do básico do básico: entender que as pessoas são diferentes e tem necessidades diferentes. Por isso, é importante dar a voz para as pessoas, empoderar as mulheres, dar a oportunidade de que elas falem e participem das decisões.

Como exemplo bem basicão: aqui na cidade, posso ser encoxada por um maníaco cretino em um vagão de metrô e estou sujeita a todos os outros tipos de violência urbana. No campo, esses problema não faz sentido. Talvez as trabalhadoras do campo precisem de uma cooperativa, de uma escola para deixar os seus filhos, de programas de saúde que cheguem até comunidades mais afastadas, etc. Eu nem sei elencar as necessidades dessas mulheres, justamente porque estou distante da realidade delas. Mas, repetindo, posso conhecer essas necessidades ouvindo essas mulheres e conversando com elas sem achar que sou superior.

Ah, esse ar de superioridade. É bem fácil de encontrar em muitos moradores de minha cidade, que é São Paulo. O velho jargão: a cidade que é a locomotiva do país. Muitos acham que é a cidade mais importante, com um povo mais antenado ou mais moderno. É incrível como essa ideia ainda persiste no discurso das pessoas. Mas também, um morador de classe média de São Paulo tem mais probabilidade de conhecer Nova York do que conhecer Abaíra, cidade do sertão baiano. Para muitos, é como se o restante do Brasil não tivesse importância.

Estou sendo cruel? Talvez sim. Mas é a verdade. Toda vez que vejo uma piadinha desrespeitosa contra nordestinos sei que estou correta em minha linha de pensamento. Tem muita gente tosca na minha cidade.

O tal feminismo intersecional visa pensar nessa pluralidade de necessidades, de cores de pele, de origens, de etnias, etc. Estou cansada do feminismo não-faço-as-coisas-em-casa-porque-isso-é-opressão ou marido-meu-tem-que-ajudar-no-trabalho-doméstico. Essas são questões secundárias, que não são regras.

Por exemplo, se você se gaba por 'não saber cozinhar nada', bom deve ter alguém que cozinha pra você: a empregada (que possivelmente é negra) ou a funcionária da padaria. Sinto muito, mas achar-se A FEMINISTONA porque não sabe fazer nada dentro de casa, faz de você uma imbecil. Você desconhece uma habilidade básica de sobrevivência, que é cozinhar.

E o argumento marido-meu-tem-que-ajudar-no-trabalho-doméstico talvez valha para uma mulher como eu, que trabalha fora e precisa de ajuda nas tarefas domésticas. Mas há várias mulheres que trabalham em casa e é normal que a maior parte do serviço doméstico fique por conta delas. E talvez a mulher trabalhe fora e GOSTE de fazer as coisas em casa. Qual o problema com isso? Isso faz dela mais ou menos feminista? Porque o SEU feminismo não combina com a VIDA DELA então ela não pode ser feminista?
 
Estamos aprendendo várias coisas, mas não conseguimos nos livrar do egoísmo. Sabe, vamos respeitar o estilo de vida dos outros. E temos que aprender a TROCAR mais: ouvir, ser ouvido, respeitar e oferecer/receber ajuda.




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