segunda-feira, 12 de maio de 2014

Status quo

Na natureza, o sistema sempre oferece resistência a qualquer coisa que sai fora do lugar. O sistema não quer mudar. Mudança requer que o sistema se reorganize. Mudança requer energia. Então o sistema resiste a mudanças o máximo possível. 

Na sociedade não é diferente. Tente fazer algo para melhorar qualquer coisa ao seu redor e você vai sentir as forças do status quo. "Pra quê fazer isso? Tá bom do jeito que tá". "Tá perdendo seu tempo, porque você não faz algo mais produtivo?". "xiii... isso não vai dar certo". "Tem coisa mais importante para ser resolvida, isso pode esperar". Pior, tente se tornar algo que está fora das expectativas daqueles ao seu redor... 

Resolvi falar sobre as forças do status quo porque essa semana a quetão das cotas voltou a causar polêmica. O governo aprovou um projeto de lei para reservar 20% das vagas de concursos públicos federais para negros [negros e pardos conforme o quesito de cor ou raça usado pelo IBGE]. Se aprovado, esse sistema de cotas ficará ativo por 10 anos. De acordo com o censo de 2010, negros [negros e pardos] repressentam 50.7% da população brasileira, mas apenas uma pequena parcela da população negra exerce funções federais de maior remuneração, como procurador da fazenda nacional (14,2%), auditores da receita (12,3%) e diplomatas (5,9%).

Mas quando se fala de cotas, escutamos sempre os mesmos argumentos. Por exemplo: "O problema não é o racismo, o problema é a pobreza, é social. Como a maioria dos pobres são negros e pardos, melhorando-se as condições sociais, resolve-se a questão". Ou este aqui: "E o branco pobre? Vai ficar em mais desvantagem ainda!". E este aqui: "A vaga tem que ir para a pessoa mais qualificada, independente de gênero, raça, crença, etc..." Apesar de serem pontos importantes a serem considerados [e são]. Apesar desses pontos serem exaustivamente rebatidos com evidências estatísticas [coloca aí no google]. Apesar de muitos destes pontos serem explicitamente considerados no projeto de lei [leia aí o projeto], eles ainda continuam a se manifestar. Por que? Porque eles são a manifestação das forças do sistema. É assim que a sociedade resiste a mudanças para manter o status quo.

Mas eu entendo o sentimento. Por muito tempo eu também regurgitei estas sentenças sem me dar ao trabalho de antes estudar o texto do projeto de lei ou de escutar os argumentos. Eu não era racista. Eu considerava todo mundo igual. Eu sempre estudei em escola pública. Eu não entendia porque tinham que colocar raça no meio da história. E pensando assim, eu por muito tempo fui um instrumento do status quo. Um instrumento de controle do sistema.

Mas basta ter um pouco de boa vontade para refletir sobre o problema e olhar para as evidências. A idéia de cotas em concursos públicos surgiu dos bons resultados obtidos pelas cotas nas universidades. Em 110 anos de meritocracia, a quantidade de negros e pardos em universidades foi de zero para aproximadamente 2% (2,2% para pardos e 1.8% para negros). De acordo com o MEC, em dez anos de cotas, este número subiu de 2.2% para 11% para pardos (de 1.8% para 8.8% para negros). Um aumento tímido ainda, mas significativo.

Charge do http://blogueillustrado.blogspot.com/

É engraçado como todo mundo quer o que é justo. Ou seja, a pessoa que se esforçar mais e tiver o melhor desempenho deveria receber a vaga. Mas se mérito é tudo o que importa, porque ainda não temos a mesma proporção de pessoas exercendo as mesmas funções na sociedade? Afinal, a escravidão acabou há mais de um século. Não estaria na hora de que 50.7% das pessoas ocupando qualquer posição em nossa sociedade fossem negros ou pardos? Qual a proporção de negros e pardos ao seu redor? Na sua faculdade? No seu trabalho? No seu condomínio? Ou mesmo apresentando os programas de TV que você assiste?

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