quinta-feira, 22 de maio de 2014

São apenas roupas

Recentemente, uma grande rede norte-americana de lojas de roupas abriu duas unidades no Brasil: em São Paulo e no Rio de Janeiro. Nos dois casos, a inauguração foi mais do que esperada: consumidores faziam filas nas portas das lojas, esperando a abertura. 


Eram distribuídas senhas nessas filas. Até comércio de senhas rolou. Essas pessoas estavam em transe, impressionadas com a promessa de preços mais baixos do que os das outras grandes redes nacionais. Além disso, a marca norte-americana já chegou com uma propaganda pesada: blogueiras e celebridades que viajam para fora do Brasil já compravam coisas lá, deixando itens da marca cobiçados antes mesmo da loja inaugurar.

É inegável que "coisas do exterior" tem um apelo comercial muito forte no Brasil. Os Estados Unidos são nossa metrópole cultural, com mais força até que a Europa. Como já dizia Renato Russo, somos a Geração Coca-Cola. A Europa e os EUA residem no imaginário do brasileiro comum como lugares perfeitos, onde o sistema realmente funciona. Como se fosse a própria Passárgada. 

Nas notícias (como essa do Jornal Extra), foi possível saber que teve gente que gastou R$160,00 em cinco peças ou pessoas que compraram camisetas de malha por menos de R$10,00. Preços realmente abaixo dos praticados por outras lojas.

Todo esse burburinho em torno dessas inaugurações me fez pensar em muitas coisas. Por exemplo: será que essas pessoas realmente precisavam dessas roupas? Será que essas roupas são fabricadas de maneira justa, respeitando o trabalhador e o meio ambiente? Será que essas roupas são duráveis?

Ah, a durabilidade. Não convém muito mais comprar duas camisetas boas, clássicas e básicas e que vão durar várias lavagens do que 5 camisetas que se estragam lá pela quinta lavagem? O modo de vida Rei do Camarote é tão difundido que as pessoas preferem ter muita roupa, no lugar de pouca quantidade e mais qualidade. Exibir uma grife, uma etiqueta que diz que você tem dinheiro, virou necessidade por parte de muitas pessoas.

Nos esquecemos de como reformar uma roupa. De como é gostoso ver uma roupa envelhecer com você (e envelhecer bem). E de como é bom doar ou trocar roupas de qualidade, já muito usadas e em bom estado.

E são apenas roupas. O frisson em torno da abertura dessa loja só é mais um sintoma do quanto nossa sociedade está doente. Estamos consumindo demais, pressionando o planeta Terra, dando dinheiro para grandes empresas. Para mudar o mundo, para mitigar os efeitos das mudanças climáticas e para evitar mais impactos ao meio ambiente, precisamos aprender a consumir com inteligência. E eu não quero ter 21 anos pra sempre.   

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