quinta-feira, 8 de maio de 2014

O abismo social: muito além do dinheiro

Essa semana aconteceu algo que realmente me deixou chateada, mas me ensinou uma lição importante. Em meu trabalho, temos um sistema de arquivos deslizantes. É um sistema muito engenhoso, que minimiza o espaço no arquivamento de documentos.

Tenho muito carinho por esse arquivo. São documentos de mais de 100 anos. Fui uma das principais responsáveis na supervisão do processo de montagem, limpeza e arquivamento. Então ele é uma representação de um orgulho profissional. Tenho orgulho em ter participado disso e tenho orgulho em zelar por sua manutenção.

Na terça-feira, alguns funcionários da empresa terceirizada que faz a limpeza foram cuidar de algumas janelas. Alguns vitrôs ficam na sala onde o arquivo está instalado. Enquanto os funcionários faziam a limpeza nessa sala, nem eu ou qualquer colega da minha seção nos preocupamos em supervisionar o trabalho, já que confiamos nos funcionários dessa empresa.

Longe da supervisão, algo aconteceu: uma das peças do volante desse arquivo foi quebrada. Eu fiquei muito chateada, não exatamente por ela ter quebrado. Mas sim por não perguntarem sobre o arquivo pra mim ou outro responsável. Ninguém nos perguntou como o arquivo deve ser manuseado. Ninguém nos chamou para explicar seu funcionamento. Os funcionários da empresa, que não conhecem o arquivo, simplesmente mexeram do jeito que achavam possível.

Uma das moças dessa empresa, viu que eu estava furiosa. Ela veio me dizer que ninguém mexeu no arquivo e que quando os rapazes chegaram, ele já estava quebrado. Bom, a história não é bem assim, já que o arquivo tinha sido usado minutos antes de eles entrarem na sala e estava em perfeitas condições.

Sempre lembro do ensinamento de meu pai: se não sabe, pergunte. Mas fiquei pensando que não deve ser tão simples assim. O abismo social vai muito além do dinheiro. O abismo social também separa as pessoas. O que faz com que eu me lembre de outra história, protagonizada por meu marido (Sr. Emerson) e a faxineira de uma padaria.

Maridão estava tranquilo, tomando um lanche em uma padaria chic, localizada em um bairro de classe média alta. A mochila dele estava no chão. Quando ele viu a faxineira se aproximar, com um rodo, ele tirou a mochila do chão. A mulher ficou desesperada. Disse para ele não mexer na mochila, porque o patrão poderia mandá-la embora. Depois ela explicou para o Emerson que o patrão não queria que ela atrapalhasse os clientes. 

Que mundo é esse em que tirar uma mochila do chão significa atrapalhar clientes?
Que mundo é esse em que as pessoas não fazem uma pergunta importante, com medo de serem tratadas de maneira grosseira ou algo assim?
Que mundo é esse em que um funcionário não admite seus próprios erros, provavelmente com medo de levar uma advertência ou até de perder o emprego?

Melhorou um pouco, mas ainda tem muito que melhorar! Fonte: IPEA - Pnad/IBGE

Pra mim, tudo isso é reflexo do abismo social. O abismo que separa as pessoas financeiramente: pobres frequentam alguns lugares e ricos outros. O abismo que impede que pessoas de classes sociais diferentes conversem, troquem ideias entre si e confraternizem-se. O abismo que faz parecer normal e aceitável que um patrão humilhe seu empregado. 

O abismo social segrega, divide mundos, divide grupos e divide as pessoas. Eu fiquei aborrecida com o arquivo quebrado, mas no fundo fiquei mais aborrecida ainda porque pensei em todas essas coisas. Eu queria viver em um mundo em que todas as pessoas fossem iguais de verdade. 




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