quinta-feira, 29 de maio de 2014

O consumismo e minha utopia.

Eu acredito em utopias. Elas norteiam minha vida, pois me fazem acreditar que talvez valha a pena agir positivamente. Talvez o que seja uma  utopia para mim, será perfeitamente possível no tempo dos meus filhos ou dos meus netos.

Recentemente, escrevi um texto para o Atitude Terra. No texto, falo sobre 10 dicas que podemos tentar aplicar em nossas vidas para minimizar ou até elimininar o consumismo. Fiquei surpresa com o sucesso do texto e fiquei muito feliz em ver que tem tanta gente que já fez essa reflexão. Agora é hora de todos nós tentarmos eliminar o consumismo de nossas vidas!



Manifestar-se contra um modelo vigente de comportamento é muito difícil. Outro dia eu estava navegando pelo Youtube e notei uma enorme quantidade de vídeos de meninas que fazem "tours" pelos seus quartos. Muitos desses tours envolvem passeios por closets entulhados de roupas ou por penteadeiras recheadas de maquiagens. As telespectadoras, principalmente adolescentes, ficam encantadas com esse modelo de acumulação e querem reproduzi-lo em casa. É difícil falar em mudança de comportamento quando muita gente está agindo dessa maneira. Como diz o velho clichê, é como remar contra a maré.

Acontece que eu não vou desistir facilmente. Vou continuar abordando esse tema em todas as plataformas onde escrevo textos. O consumismo pressiona a indústria a produzir mais. E dessa maneira pressiona a exploração de recursos naturais. E gera mais resídulos durante a produção e no descarte feito pelo consumidor final. 

Nem preciso concluir que esse modelo enriquece poucos e empobrece muitos. E as vítimas do consumismo quase sempre são as mulheres. As grandes coorporações ganham dinheiro nos fazendo sentir-se inadequadas, feias e fora dos padrões de beleza vigentes (ou seja, padrão eurocêntrico). 

O Rodrigo e eu falamos muito sobre mudanças climáticas no contexto científico, o que é muitíssimo importante, para alertar a todos os leitores contra o discurso pseudocientífico. No entanto, eu também quero falar sobre as formas de ajudar o planeta. E quase como uma epifania, a cada dia mais percebo que minhas lutas estão relacionadas umas com as outras =).

Para alguns, esse discurso parece datado ou sem importância. Para outros, soa exagerado e apocalípitico. Eu percebo que o consumismo atingiu proporções tão grandes em nossa sociedade que as pessoas procuram desculpas para justificar esse comportamento ou para dizer que ele não causa nenhum impacto ao ambiente. Mentira! Observe o seu lixo reciclável e veja a quantidade de embalagens descartadas. De quantos daqueles produtos você realmente precisava? Vá até o seu guarda-roupa e observe: não tem um monte de coisas encostadas?

Como disse no Atitude Terra, estou me esforçando muito para cortar o consumismo de minha vida. É um esforço difícil e que certamente será ridicularizado por muita gente. Outros inclusive apontarão para mim assim que eu comprar alguma coisa que julgarem inútil. Só que eu acredito no que estou fazendo, acredito muito no meu esforço. Eu tenho certeza que um comportamento ambientalmente e financeiramente mais responsável será a norma no futuro. Eu tenho muito o que aprender sobre isso e fico imensamente feliz em poder compartilhar um pouco de minhas experiências, pois dessa forma eu aprendo cada vez mais.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Sobre a terrível tragédia na UCSB (Misoginia mata)

Na noite da última sexta-feira (23 de maio) houve uma tragédia na comunidade de Isla Vista, onde moram muitos dos alunos de graduação que frequentam a Universidade da Califórnia, Santa Barbara (UCSB). Faculdade onde estudei durante meu doutorado. Um aluno da universidade, um rapaz de 22 anos saiu pela comunidade atirando, matando seis pessoas e ferindo outras sete. O rapaz [nao vou dizer o nome porque não quero dar fama para perpetrador] trocou tiros com a polícia e tentou fugir, mas bateu o carro em um carro que estava parado e foi encontrado morto com um tiro na cabeça. Tudo indica que ele se matou.

Antes de sair atirando, o rapaz postou um vídeo na internet de quase sete minutos onde afirma ser um virgem de 22 anos. Aqui está um pedaço do depoimento:
"A faculdade é o momento em que todos experimentam as coisas como sexo, diversão e prazer. Mas naqueles anos eu tive que apodrecer na solidão. Não é justo. Você meninas nunca se sentiram atraídas por mim. Eu não sei por que as meninas não sentem atração por mim. Mas eu vou punir vocês todas por isso. Eu vou entrar na casa da irmandade mais popular da UCSB e eu vou matar todas as loiras mimadas, metidas, putas que eu vir lá dentro. Todas aquelas meninas que eu tenho desejado tanto, que teriam todas me rejeitado e me menosprezado como um homem inferior se eu tentasse dar em cima delas." Ele tambem deu um recado para os homens com quem estas meninas se relacionavam: "Vou sentir um grande prazer em massacrar todos vocês. Vocês vão finalmente ver que eu sou, na verdade, o superior. O verdadeiro macho alfa ..."

Logo após o incidente, começou a mesma discussão que sempre acontece quando uma tragédia como esta acontece nos Estados Unidos. Começaram os boatos sobre o rapaz ter uma doença mental. Sabemos que ele realmente tinha certa instabilidade mental, mas há tamb'em um outro fator. Ele foi influenciado por uma cultura onde homens se sentem no direito de possuir os corpos das mulheres.

Uma colega da UCSB, Maryam Griffin, postou em seu facebook: "Após a terrível tragédia na UCSB, eu já estou vendo muito interesse em tratamento psiquiátrico do agressor e seu possível diagnóstico como tendo tido asperger. Estas análises vão tentar dar uma explicação individualizada para este ataque terrível. Algo que vemos o tempo todo após homens brancos saírem atirando em algum lugar. Embora a motivação é fornecer algum conforto, para restaurar alguma sensação de segurança, explicando o ocorrido como um incidente isolado, eu acho que nós temos muito mais motivos para permanecer aterrorizados. Este é apenas uma expressão de uma cultura difusa do direito. O autor se sentiu tanto no direito a possuir os corpos de mulheres, e ao controle sobre os outros seres humanos, que ele não conseguia aceitar sua suposta rejeição como nada menos do que uma "injustiça", em suas palavras. O que aconteceu em Isla Vista foram tiros sobre a proa - uma declaração clara de guerra, mas não se esqueça que todo mundo que conta uma piada de estupro, todo mundo que classifica os corpos das mulheres, mesmo aqueles que param as mulheres na rua para lhes dizer para "sorrir" - . todos estes são soldados no lado errado. "

Sobre a regulamentação de armas nos Estados Unidos, sabe-se que 90% dos americanos querem leis mais rígidas em relação à posse de armas. O país teve 170 casos como este desde 2006, onde em cada caso teve pelo menos quatro pessoas mortas. Mesmo assim o assunto nunca vai para frente no congresso. O documentarista Michael Moore declarou:

"Com o devido respeito àqueles que estão me pedindo para comentar sobre tiroteio em massa trágico de ontem à noite na UCSB em Isla Vista, CA - Eu não tenho mais nada a dizer sobre o que agora faz parte da vida cotidiana americana. Tudo o que tenho a dizer sobre isso, eu disse que há 12 anos: Somos um povo facilmente manipulados pelo medo que nos leva a armar-nos com um quarto de bilhão de armas em nossas casas que muitas vezes são facilmente acessíveis aos jovens, aos assaltantes, aos mentalmente doentes e qualquer um que se encaixe momentaneamente. Somos uma nação fundada na violência, crescemos nossas fronteiras por meio da violência e permitimos aos homens no poder a usar da violência em todo o mundo para promover nossos chamados "interesses" (corporativos) Americanos. A arma, não a águia, é o nosso verdadeiro símbolo nacional. Enquanto outros países têm um passado mais violento (Alemanha, Japão), mais armas per capita em suas casas (Canadá [principalmente armas de caça] ), e as crianças na maioria dos outros países assistem aos mesmos filmes violentos e jogam os mesmos jogos de vídeo violentos que os nossos crianças jogam, ninguém chega perto de matar o maior número de seus próprios cidadãos em uma base diária, como fazemos - e ainda assim não parecemos querer nos fazer esta pergunta simples: " por que nós? O que é acontece nos EUA? "Quase todos os nossos fuzilamentos em massa são de homens brancos com raiva ou perturbados. Nenhum deles são cometidos por mulheres. Hmmm, por que isso? Mesmo quando 90% do público americano pede leis de armas mais rígidas, o Congresso se recusa - e, então, nós o povo nos recusamos a removê-los do cargo. Assim, a responsabilidade recai sobre nós, todos nós. Não vamos aprovar as leis necessárias, mas o mais importante, nós não vamos considerar por que isso acontece aqui o tempo todo. Quando a ARN (Associação Nacional dos Rifles) diz: " As armas não matam pessoas - pessoas matam pessoas", eles têm uma meia-verdade. Só que eu iria alterá-lo para o seguinte: " As armas não matam pessoas - americanos matam pessoas. " Aproveite o resto do seu dia, e tenha a certeza tudo isso vai acontecer de novo muito em breve."

quinta-feira, 22 de maio de 2014

São apenas roupas

Recentemente, uma grande rede norte-americana de lojas de roupas abriu duas unidades no Brasil: em São Paulo e no Rio de Janeiro. Nos dois casos, a inauguração foi mais do que esperada: consumidores faziam filas nas portas das lojas, esperando a abertura. 


Eram distribuídas senhas nessas filas. Até comércio de senhas rolou. Essas pessoas estavam em transe, impressionadas com a promessa de preços mais baixos do que os das outras grandes redes nacionais. Além disso, a marca norte-americana já chegou com uma propaganda pesada: blogueiras e celebridades que viajam para fora do Brasil já compravam coisas lá, deixando itens da marca cobiçados antes mesmo da loja inaugurar.

É inegável que "coisas do exterior" tem um apelo comercial muito forte no Brasil. Os Estados Unidos são nossa metrópole cultural, com mais força até que a Europa. Como já dizia Renato Russo, somos a Geração Coca-Cola. A Europa e os EUA residem no imaginário do brasileiro comum como lugares perfeitos, onde o sistema realmente funciona. Como se fosse a própria Passárgada. 

Nas notícias (como essa do Jornal Extra), foi possível saber que teve gente que gastou R$160,00 em cinco peças ou pessoas que compraram camisetas de malha por menos de R$10,00. Preços realmente abaixo dos praticados por outras lojas.

Todo esse burburinho em torno dessas inaugurações me fez pensar em muitas coisas. Por exemplo: será que essas pessoas realmente precisavam dessas roupas? Será que essas roupas são fabricadas de maneira justa, respeitando o trabalhador e o meio ambiente? Será que essas roupas são duráveis?

Ah, a durabilidade. Não convém muito mais comprar duas camisetas boas, clássicas e básicas e que vão durar várias lavagens do que 5 camisetas que se estragam lá pela quinta lavagem? O modo de vida Rei do Camarote é tão difundido que as pessoas preferem ter muita roupa, no lugar de pouca quantidade e mais qualidade. Exibir uma grife, uma etiqueta que diz que você tem dinheiro, virou necessidade por parte de muitas pessoas.

Nos esquecemos de como reformar uma roupa. De como é gostoso ver uma roupa envelhecer com você (e envelhecer bem). E de como é bom doar ou trocar roupas de qualidade, já muito usadas e em bom estado.

E são apenas roupas. O frisson em torno da abertura dessa loja só é mais um sintoma do quanto nossa sociedade está doente. Estamos consumindo demais, pressionando o planeta Terra, dando dinheiro para grandes empresas. Para mudar o mundo, para mitigar os efeitos das mudanças climáticas e para evitar mais impactos ao meio ambiente, precisamos aprender a consumir com inteligência. E eu não quero ter 21 anos pra sempre.   

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Deixem os bancos irem à falência

Tem tanta coisa legal em inglês que eu gostaria de poder tornar acessível para as pessoaas no Brasil, que eu vou simplesmente fazer uma tradução livre. Hoje eu gostaria de traduzir o discurso do precidente da Islândia (Ólafur Ragnar Grímsson) sobre a crise econômica mundial de 2008, causada por instituições de crédito dos Estados Unidos e cujos efeitos ainda estamos sentindo.

A Islândia foi um dos primeiros países que sentiram os efeitos da crise econômica. O que levou seus bancos à falência, quebrando completamente seu sistema econômico. Um ano depois, o vulcão Eyjafjallajökull entrou em erupção, cobrindo o país em cinzas. Mesmo com tudo isso, a Islândia já vem se recuperando da crise. Mas o curioso é que o país conseguiu isso com medidas que vão de encontro aos procedimentos padrão de recuperação adotados por outros países. Abaixo está o discurso do Presidente Grímsson publicado pelo blog Upworthy

"Existem, obviamente, muitas razões pelas quais a Islândia tem se recuperado mais rápido e com mais eficiência do que qualquer outra nação européia que sofreram os efeitos da crise econômica. Mas existem duas dimensões fundamentais na forma como nós agimos diferentemente em relação aos outros.

A primeira dimensão é o fato de que nós não seguimos as ortodorxias predominantes do mundo financeiro ocidental dos últimos 30 anos, chamado de Consenso de Washington. Por exemplo, nós deixamos os bancos privados irem à falência. E eu nunca entendi o porquê que os bancos são tratados como as igrejas sagradas da economia moderna e não são permitidos falir. Em segundo lugar, nós não introduzimos as mesmas medidas de austeridade que têm sido praticamente obrigatórias em vários outros países. Nós tentamos proteger o sistema de saúde, o sistema de educação e o bem-estar das pessoas com as menores rendas em nosso país. Nós introduzimos controles capitais e nós deixamos a moeda perder valor. E nós tomamos várias outras medidas que não são consideradas ortodoxas em comparação com as recomendações prevalecentes dos últimos 30 anos.

Mas a segunda dimensão se dá ao fato de que por algum motivo nós tivemos a sorte de perceber que isso não foi apenas uma crise financeira. Isso foi também, pela primeira vez na memória modena, uma intensa crise poítica, democrática, social e até mesmo uma crise de responsabilidade. E ao menos que você introduza reformas em todos estes níveis e também nas políticas econômicas certas, você nunca seria capaz de galvanizar a nação e seguir adiante. E várias pessoas tendem a esquecer que uma economia não é apenas um conjunto de associações entre instituições financeiras e empresas e assim por diante. Uma economia é fundamentalmente uma comunidade de pessoas. E ao menos que as pessoas se sintam confiantes e tenham uma visão e o desejo de seguir adiante, não importa qual o tipo de políticas você tente implementar, você nunca seria capaz de ser bem sucedido.

Na minha opinião, estas duas dimensões são a razão pela qual, apesar das dificuldades obviamente, a Islândia está hoje numa condição muito melhor que qualquer um esperaria há cinco anos atrás, incluindo nós mesmos."

quinta-feira, 15 de maio de 2014

O rebuliço causado pelas declarações de Ney Matogrosso

Ney Matogrosso, aclamado cantor brasileiro, deu uma recente entrevista para a RTP, emissora portuguesa. Suas declarações logo se transformaram numa espécie de viral pelo Facebook. O pessoal da direita, interpretou suas declarações de uma maneira. Já o pessoal da esquerda, interpretou de outra maneira.  Veja o vídeo no link abaixo.


Eu li críticas positivas e negativas dos dois lados (esquerda e direita). Eu pessoalmente formei minha opinião, que no cenário atual brasileiro pode deixar os dois lados de cabelo em pé.

Em primeiro lugar, fiquei surpresa ao ver uma celebridade aclamada falando mal do Brasil. E ele não reclamou, simplesmente. Ele foi crítico, contundente. Ney Matogrosso surpreendeu o entrevistador, que talvez esperasse um artista com uma visão totalmente positiva do Brasil. Em alguns momentos da reclação, Ney demonstrou um pouco de desconhecimento (com relação ao programa Bolsa Família, por exemplo). Mas ele não repetiu o discurso inflamado de alguns integrantes da classe média burra, que diz que as bolsas "sustentam vagabundos". Alguns integrantes burros e sem empatia (e sem noção de seu privilégio) da classe média acham que "sustentam o Brasil" e mal consideram os beneficiários do Bolsa Família como seres humanos. Para essa gente, ser humano só quem é "igual a ele".

Ney disse que as bolsas deixaram as pessoas menos miseráveis, é verdade. Mas até quando? Onde está o prometido desenvolvimento? As pessoas querem estudar, querem trabalhar e querem ter as mesmas oportunidades que temos nas grandes cidades, principalmente da Região Sul e da Região Sudeste.

Não, não estou defendendo a meritocracia. Apenas observo que um pobre do sertão tem bem menos oportunidades que um pobre de São Paulo. Tanto que o pobre do sertão vem para São Paulo tentar a vida. Muitos, infelizmente, ficam pulando de subemprego em subemprego, sem nenhuma expectativa de melhoria de vida. Além disso, sofrem preconceito quando chegam a capital paulista. Menciono especificamente São Paulo porque cresci aqui. E sou filha de nordestina. Meu tio-avô veio para São Paulo na década de 70. Aqui conseguiu fazer a vida: montou uma lanchonete nas proximidades do Terminal da Luz. Conseguiu construir uma boa casa e dar uma boa qualidade de vida para seus filhos. Meu avô veio em seguida, trazendo esposa, 8 filhos e 1 neta. Ele montou um pequeno comércio também, com menos sucesso que seu irmão. A vida nunca foi fácil, mas eu sei que meu avô e seu irmão são minoria. A maioria das pessoas que vem pra cá são realmente muito pobres e viviam em situação de miséria em suas cidades de origem.

Cadê o desenvolvimento? Onde estão as indústrias nas regiões Norte e Nordeste? Onde está a infra-estrutura? As bolsas tem cumprido um excelente papel na vida das pessoas em situações de vulnerabilidade socioeconômica. Mas apenas as bolsas? Onde está todo o resto que foi prometido? As pessoas não aguentam mais esperar.

Eu percebo que na internet há algumas pessoas de esquerda que são muito românticas com relação ao PT. O PT é um partido cheio de problemas, envolvido em diversos escândalos horríveis de corrupção. O ex-presidente Lula e a presidenta Dilma fizeram boas coisas pelo país, claro. A redução na miséria foi uma delas. Mas até que ponto essa redução não é sintética? Onde está a produção? Onde está o investimento?

Fico apavorada quando vejo petistas fervorosos que não suportam nenhuma crítica com relação ao partido. Mas também fico apavorada quando vejo comentaristas de direita, atribuindo qualquer mazela ao que eles chamam de "petralhas", "criminosos do PT", etc. Eu sinto falta de uma discussão saudável sobre política. Uma discussão em que prós e contras são levantados. Uma discussão em que pessoas com um bom lastro intelectual e sem grandes paixões participem. Por que o que vejo, são propagações de burrice por parte de "defensores do PT" e por parte de "comentaristas de direita". A questão toda chegou em um nível tão absurdo que quando digo que sou de esquerda, as pessoas logo pensam "olha, ela ama o PT". Poxa, não é por aí não.

Acho que tem muita gente aí que não sabe direito o que é esquerda ou direita. E fica compartilhando bobagens. Eu tenho uns parentes que se dizem de direita. Não são ricos. E não consigo entender pobre brasileiro de direita. O cara mora na periferia da periferia e se diz de direita. Dia desses, um primo compartilhou uma imagem que comparava o Nazismo ao Stalinismo. Dizia que o Stalinismo matou muito mais e que logo, o comunismo era ruim e que logo, o PT era ruim. E desde quando PT é comunismo? E desde quando o comunismo realmente funcionou em algum lugar do planeta? Faltam muitas aulas de história. Falta leitura. 

O Ney Matogrosso mostrou uma postura até certo ponto equilibrada. E ele ganhou toda minha simpatia quando falou da violência policial e mencionou o caso Amarildo. Ganhou todos os pontos quando disse que a polícia é autoritária. Esse é um problema muito sério, uma necessidade urgente de mudança na estrutura da polícia militar. Uma necessidade de desmilitarização. Infelizmente, muita gente não vê dessa forma. Acha que a polícia tem que "matar vagabundo". E alguém no twitter mencionou essa semana que "fracassamos como sociedade, uma vez que criticaram a ação da PM num recente sequestro de um ônibus". Ah sim, para que não está a par: a PM negociou com o sequestrador e libertou os 3 reféns. Todos ficaram bem, ninguém se feriu. E eu só ouvi pessoas falando que o sequestrador tinha que morrer. Inclusive apresentadores de TV não paravam de falar em atirador de elite. 

É, estamos fracassando muito. Algo precisa ser feito.

Já que estamos falando em Ney Matogrosso, deixo uma linda performance dele:


Rompi tratados, traí os ritos.

Na minha opinião, o melhor performer do Brasil.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Status quo

Na natureza, o sistema sempre oferece resistência a qualquer coisa que sai fora do lugar. O sistema não quer mudar. Mudança requer que o sistema se reorganize. Mudança requer energia. Então o sistema resiste a mudanças o máximo possível. 

Na sociedade não é diferente. Tente fazer algo para melhorar qualquer coisa ao seu redor e você vai sentir as forças do status quo. "Pra quê fazer isso? Tá bom do jeito que tá". "Tá perdendo seu tempo, porque você não faz algo mais produtivo?". "xiii... isso não vai dar certo". "Tem coisa mais importante para ser resolvida, isso pode esperar". Pior, tente se tornar algo que está fora das expectativas daqueles ao seu redor... 

Resolvi falar sobre as forças do status quo porque essa semana a quetão das cotas voltou a causar polêmica. O governo aprovou um projeto de lei para reservar 20% das vagas de concursos públicos federais para negros [negros e pardos conforme o quesito de cor ou raça usado pelo IBGE]. Se aprovado, esse sistema de cotas ficará ativo por 10 anos. De acordo com o censo de 2010, negros [negros e pardos] repressentam 50.7% da população brasileira, mas apenas uma pequena parcela da população negra exerce funções federais de maior remuneração, como procurador da fazenda nacional (14,2%), auditores da receita (12,3%) e diplomatas (5,9%).

Mas quando se fala de cotas, escutamos sempre os mesmos argumentos. Por exemplo: "O problema não é o racismo, o problema é a pobreza, é social. Como a maioria dos pobres são negros e pardos, melhorando-se as condições sociais, resolve-se a questão". Ou este aqui: "E o branco pobre? Vai ficar em mais desvantagem ainda!". E este aqui: "A vaga tem que ir para a pessoa mais qualificada, independente de gênero, raça, crença, etc..." Apesar de serem pontos importantes a serem considerados [e são]. Apesar desses pontos serem exaustivamente rebatidos com evidências estatísticas [coloca aí no google]. Apesar de muitos destes pontos serem explicitamente considerados no projeto de lei [leia aí o projeto], eles ainda continuam a se manifestar. Por que? Porque eles são a manifestação das forças do sistema. É assim que a sociedade resiste a mudanças para manter o status quo.

Mas eu entendo o sentimento. Por muito tempo eu também regurgitei estas sentenças sem me dar ao trabalho de antes estudar o texto do projeto de lei ou de escutar os argumentos. Eu não era racista. Eu considerava todo mundo igual. Eu sempre estudei em escola pública. Eu não entendia porque tinham que colocar raça no meio da história. E pensando assim, eu por muito tempo fui um instrumento do status quo. Um instrumento de controle do sistema.

Mas basta ter um pouco de boa vontade para refletir sobre o problema e olhar para as evidências. A idéia de cotas em concursos públicos surgiu dos bons resultados obtidos pelas cotas nas universidades. Em 110 anos de meritocracia, a quantidade de negros e pardos em universidades foi de zero para aproximadamente 2% (2,2% para pardos e 1.8% para negros). De acordo com o MEC, em dez anos de cotas, este número subiu de 2.2% para 11% para pardos (de 1.8% para 8.8% para negros). Um aumento tímido ainda, mas significativo.

Charge do http://blogueillustrado.blogspot.com/

É engraçado como todo mundo quer o que é justo. Ou seja, a pessoa que se esforçar mais e tiver o melhor desempenho deveria receber a vaga. Mas se mérito é tudo o que importa, porque ainda não temos a mesma proporção de pessoas exercendo as mesmas funções na sociedade? Afinal, a escravidão acabou há mais de um século. Não estaria na hora de que 50.7% das pessoas ocupando qualquer posição em nossa sociedade fossem negros ou pardos? Qual a proporção de negros e pardos ao seu redor? Na sua faculdade? No seu trabalho? No seu condomínio? Ou mesmo apresentando os programas de TV que você assiste?

quinta-feira, 8 de maio de 2014

O abismo social: muito além do dinheiro

Essa semana aconteceu algo que realmente me deixou chateada, mas me ensinou uma lição importante. Em meu trabalho, temos um sistema de arquivos deslizantes. É um sistema muito engenhoso, que minimiza o espaço no arquivamento de documentos.

Tenho muito carinho por esse arquivo. São documentos de mais de 100 anos. Fui uma das principais responsáveis na supervisão do processo de montagem, limpeza e arquivamento. Então ele é uma representação de um orgulho profissional. Tenho orgulho em ter participado disso e tenho orgulho em zelar por sua manutenção.

Na terça-feira, alguns funcionários da empresa terceirizada que faz a limpeza foram cuidar de algumas janelas. Alguns vitrôs ficam na sala onde o arquivo está instalado. Enquanto os funcionários faziam a limpeza nessa sala, nem eu ou qualquer colega da minha seção nos preocupamos em supervisionar o trabalho, já que confiamos nos funcionários dessa empresa.

Longe da supervisão, algo aconteceu: uma das peças do volante desse arquivo foi quebrada. Eu fiquei muito chateada, não exatamente por ela ter quebrado. Mas sim por não perguntarem sobre o arquivo pra mim ou outro responsável. Ninguém nos perguntou como o arquivo deve ser manuseado. Ninguém nos chamou para explicar seu funcionamento. Os funcionários da empresa, que não conhecem o arquivo, simplesmente mexeram do jeito que achavam possível.

Uma das moças dessa empresa, viu que eu estava furiosa. Ela veio me dizer que ninguém mexeu no arquivo e que quando os rapazes chegaram, ele já estava quebrado. Bom, a história não é bem assim, já que o arquivo tinha sido usado minutos antes de eles entrarem na sala e estava em perfeitas condições.

Sempre lembro do ensinamento de meu pai: se não sabe, pergunte. Mas fiquei pensando que não deve ser tão simples assim. O abismo social vai muito além do dinheiro. O abismo social também separa as pessoas. O que faz com que eu me lembre de outra história, protagonizada por meu marido (Sr. Emerson) e a faxineira de uma padaria.

Maridão estava tranquilo, tomando um lanche em uma padaria chic, localizada em um bairro de classe média alta. A mochila dele estava no chão. Quando ele viu a faxineira se aproximar, com um rodo, ele tirou a mochila do chão. A mulher ficou desesperada. Disse para ele não mexer na mochila, porque o patrão poderia mandá-la embora. Depois ela explicou para o Emerson que o patrão não queria que ela atrapalhasse os clientes. 

Que mundo é esse em que tirar uma mochila do chão significa atrapalhar clientes?
Que mundo é esse em que as pessoas não fazem uma pergunta importante, com medo de serem tratadas de maneira grosseira ou algo assim?
Que mundo é esse em que um funcionário não admite seus próprios erros, provavelmente com medo de levar uma advertência ou até de perder o emprego?

Melhorou um pouco, mas ainda tem muito que melhorar! Fonte: IPEA - Pnad/IBGE

Pra mim, tudo isso é reflexo do abismo social. O abismo que separa as pessoas financeiramente: pobres frequentam alguns lugares e ricos outros. O abismo que impede que pessoas de classes sociais diferentes conversem, troquem ideias entre si e confraternizem-se. O abismo que faz parecer normal e aceitável que um patrão humilhe seu empregado. 

O abismo social segrega, divide mundos, divide grupos e divide as pessoas. Eu fiquei aborrecida com o arquivo quebrado, mas no fundo fiquei mais aborrecida ainda porque pensei em todas essas coisas. Eu queria viver em um mundo em que todas as pessoas fossem iguais de verdade.