quinta-feira, 10 de abril de 2014

O curioso caso da ex-criacionista






Eu acreditava em tudo isso aí de cima. Meu pensamento sobre isso hoje:


Antes de escrever sobre o tema que escolhi essa semana, quero fazer uma parada metalinguística e escrever sobre o quanto é difícil escolher um assunto para escrever.


Várias coisas passam pela minha mente ao longo da semana. E até quinta-feira, preciso definir um assunto. Se eu não fizer isso, o texto fica absurdamente genérico.

Essa semana tive essa dificuldade. Mas então uma conversa no twitter me fez definir o tema. Vou falar sobre mudar de opinião. Todos tem direito de mudar de opinião. E vou usar meu exemplo pessoal.

Quando eu era adolescente, eu era bem idiotinha. Acho que adolescente deve significar idiota em alguma língua morta. Enfim, eu tinha pensamentos reacionários, preconceituosos, classistas ou simplesmente idiotas em sua forma mais crua e superficial.

Por exemplo, eu achava que apenas rock era "música boa". Inclusive naquele tempo havia uma rivalidade entre 'pagodeiros' e 'roqueiros' (é, nos rotulávamos facilmente). Houve até briga física na escola onde eu estudei o ensino médio, motivada por essa rivalidade imbecil.

O interessante era que na minha antiga escola, onde estudei o ensino fundamental (e era localizada em um bairro mais periférico), eu até ouvia pagode. Eu gostava de Katinguelê e até cheguei a sambar com as meninas rs. Só que chegou o meio da adolescência, a mudança de escola e a necessidade de se auto-afirmar. Como os coleguinhas dessa nova escola em sua maioria preferiam o rock, acho que acabei virando uma radical para agradar. E quando eu estava no fundamental, eu era bem mais legal. Eu ouvia diversos tipos de música no walkman que ganhei aos 10 anos, lia mais (lia Monteiro Lobato, livros da coleção Vagalume, quadrinhos, revistas, livros de fábulas e lendas, livros infantis em inglês etc). No ensino médio, conheci o RPG e comecei a gostar mais de ficção científica, o que é muito legal, claro, mas eu passei a ler menos (porque tinha menos tempo) e passei a ser mais revoltadinha. Acho que isso tudo é coisa da adolescência.

Conclusão: crianças >>>>>> adolescentes.

Também nessa época descobri a religião. Quando eu era criança, frequentava escolas bíblicas, coisa de protestante. Mas, eu não era religiosa. Na adolescência, descobri a religiosidade. E isso fez com que eu vivesse num conflito interno e muito idiota dentro de mim. Eu não queria jogar RPG porque achava que era "do demônio". Por outro lado, achava que RPG era legal. Então eu jogava e pedia desculpas em oração. Eu não queria ficar com nenhum garoto, porque mulheres devem se preservar (a religião, sempre se preocupando com a vida amorosa e sexual dos outros). Mas, ficar com os meninos era muito bom. Então eu fui por alguns anos uma pessoa extremamente hipócrita. 

Conheci um namorado  "firme", com quem fiquei por muito tempo.  Ele não era da igreja e isso me incomodava muito. Tentei levá-lo a igreja, mas ele não gostava, não tinha interesse e tinha muito preconceito nessa questão. O namoro durou algum tempo, até que terminamos. Quando terminamos, voltei firme à vida eclesiástica. E foi nesse período que minha vida não foi muito boa. Nesse período, eu tinha pensamentos homofóbicos. E conforme confessei a um amigo português ontem (eu já tinha confessado para outras pessoas, mas agora a confissão ficou internacional rs), eu era criacionista. Ou melhor, creacionista, como disse meu amigo Pedro, rs.

Eu cheguei a participar de fóruns criacionistas no orkut, bem no início dessa rede social. Cheguei a traduzir textos do inglês para o português (quanto desperdício de tempo, poderia ter traduzido qualquer outra coisa rs). Por diversas razões, acabei deletando meu perfil no Orkut e meus pensamentos idiotas não ficaram registrados. Por isso quando leio idiotices racistas, preconceituosas ou babacas em sua forma mais rudimentar escritas por adolescentes, entendo que eles ainda podem ter salvação. Só que, coitados, essas porcarias ficam registradas. A vida digital hoje é tão ampla (há várias redes sociais) que apagar todas as merdas escritas é quase impossível.

Bom, continuando minha saga: para deixar tudo ainda pior, eu já estava na faculdade quando era criacionista. Ou seja, é extremamente vergonhoso. Mas por que me tornei criacionista? Achei que isso tinha a ver com manter a coerência dentro da Igreja. Achei que eu precisava enxergar a Bíblia com literalidade. Achei que se eu fosse Criacionista, iria para o tal paraíso prometido (resumindo todo).  Eu comecei a ficar religiosa em um momento de desespero. Eu tinha medo de ir para o inferno, medo que toma conta da mente de muitos religiosos. E essa onda de religiosidade foi aumentada após o fim do relacionamento que mencionei anteriormente, ou seja, um momento vulnerável de minha vida. E são nesses momentos de vunerabilidade que a religiosidade aparece na vida de muitas pessoas.

O "lado bom" de ter sido criacionista é que eu comecei a ler muito mais. Fiquei extremamente sedenta por conhecimento. Li inclusive a Bíblia, livro que li praticamente na íntegra. Comecei a ver que era impossível seguir a Bíblia literalmente, uma vez que ela é um livro extremamente contraditório e sangrento. Comecei a ler sobre a Biblia e entender como os livros foram organizados. Observei falhas, problemas, incoerências e escolhas motivadas por interesses de grupos de pessoas. Li livros de divulgação científica, assisti episódios da série Cosmos e comecei a ler diversos bons sites de popularização científica. Eu tive um bom Ensino Médio, minha professora de biologia era excelente. Então compreender material sobre biologia não é muito difícil para mim. E isso me ajudou a aprender mais sobre Teoria da Evolução e Genética. E me fez perceber que muitos argumentos utilizados por criacionistas são absurdos. Também comecei a me interessar por pesquisa científica (e acabei até fazendo Mestrado anos depois). E comecei a me interessar sobre como a pesquisa científica se desenvolvia, como escrever um artigo, como organizar uma pesquisa, etc. Foi quando observei que não existem pesquisas criacionistas. Não, as conjecturas reunidas por pensadores em "sociedades criacionistas" não podem ser consideradas como pesquisas. Não há uma hipótese, não há metodologia, não há conclusão, etc.  

Depois de 10 anos, essa sede por conhecimento me fez ser uma pequena popularizadora científica. Estou muito longe de ser Neil deGrasse Tyson, mas fico feliz que meu trabalho tenha um pequeno alcance local. Alguns leitores devem saber que escrevo no Meteorópole, um blog sobre meteorologia e outras áreas do conhecimento. Também falo sobre meus hobbies e dou minha opinião sobre alguns temas.

Hoje posso dizer que ter sido criacionista me prejudicou um pouco e me fez desdperdiçar tempo (mano, traduzir TEXTOS CRIACIONISTAS? QUE MERDA!!!), mas também foi responsável por um novo despertar em minha vida, já que hoje aprendi a pesquisar, ler muito e até a escrever. Eu não tenho vergonha de dizer que agi assim. Ok, um tiquinho de vergonha eu até tenho. Mas não é muita. Fico feliz que fui uma metamorfose ambulante. E ainda sou essa metamorfose ambulante. Hoje deixo minha mente aberta, como uma caixa que sempre recebe mais informações. E no interior dessa caixa, as informações são processadas e filtradas. Mudo de opinião sobre alguns assuntos, desenvolvo uma opinião sobre outros que eu não conhecia, adquiro conhecimento etc. E eu tenho certeza que hoje sou uma pessoa muito melhor do que eu era há 10 anos atrás. E vou continuar melhorando com o tempo, porque é assim que deve ser na vida de todos nós.


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