quinta-feira, 3 de abril de 2014

Na escuridão

Carl Sagan disse em "O mundo assombrado por demônios"  que a ciência é como uma vela na escuridão. Ele não só menciona essa comparação no livro: na verdade, ela é subtítulo da obra.

Podemos fazer todo tipo de comparativo com a escuridão. Estar em um lugar completamente escuro por muito tempo é assustador. Quando falo completamente escuro, falo tão escuro que você não consegue enxergar o seu nariz.

Eu já tive vários sonhos em que estava na escuridão. Para chegar até escola que estudei até a oitava série ( falávamos série, antigamente rs), eu precisava descer uma ladeira muito íngreme e depois subir outra ladeira igualmente íngreme. O bairro de Itaquera é cheio de sobes e desces.

Por algum tempo, eu tive problemas na escola. Bullying, sensação de inadequação, etc. E eu tinha pesadelos. Um de meus pesadelos recorrentes era ter que descer e subir aquela ladeira num assustador breu.

Na bíblia, usam muito o termo escuridão para representar o mal. No livro de Gênesis, o primeiro da bíblia e logo no primeiro capítulo, é narrado o seguinte:



No novo testamento,  um dos títulos atribuídos à Jesus Cristo é "a Luz do Mundo". E a presença de trevas x luz é algo muito simbólico para mim. A lição mais famosa de Jesus é sobre "amar ao próximo como a si mesmo". Jesus também queria acabar com as leis antigas dos fariseus, com proibições absurdas como não realizar nenhuma atividade aos sábados. Jesus fez o bem, almentou pobres, curou doentes e hoje é um modelo para muitas pessoas. Eu tenho a impressão que até hoje ele não é compreendido, já que atos de ódio ao próximo continuam sendo  cometidos em nome dele.

Quando penso que "Jesus é a Luz do Mundo", é porque acredito que Jesus apresentou às pessoas uma nova forma de pensar. Uma forma amorosa, paciente e sem egoísmos. 

E quando penso em Luz, penso em mudança. Penso em busca por conhecimento.

Na escuridão, se alguém te oferece uma vela, você consegue enxergar alguns centímetros de distância. Se a chama for boa e se a parede for branca, você consegue enxergar mais. E logo vai querer ver mais, e mais e mais. Interpreto a vela na escuridão de Carl Sagan assim: começo a estudar um pouquinho e aprendo algumas coisinhas. Essas coisinhas vão me deixar curiosa e eu vou querer aprender mais. E depois mais, mais e mais e ...

Como disse Bruce Springsteen: can't start the fire without a spark.

Observo que algumas pessoas preferem continuar nessa escuridão. Vejo colegas, parentes e desconhecidos difundirem palavras de machismo, homofobia e até de racismo. No dia 31 de Março, completamos 50 anos de Golpe Militar. Vi gente compartilhar textos que defendem o golpe. São os mesmos que acreditam que o Brasil está virando uma ditadura comunista. E repetem fielmente as palavras de "grandes pensadores" daquele famoso semanário brasileiro. Os criminosos e covardes chegam a ameaçar políticos como Jean Wyllys ou Jandira Feghali. Dizem que eles agem a favor da "ditadura gayzista/comunista".  E eu nem sei o que dizer sobre pessoas que compartilham textos do Bolsonaro e de sua família. 

Essas pessoas agem com uma paixão tão esquisita. Eu tenho um nome para isso: desespero. O desespero revoltado de quem está na escuridão. Dá socos no ar, tenta alcançar as paredes. O curioso é que muitas dessas pessoas já se acostumaram com a escuridão. Eu sei que há uns peixes que vivem no fundo do mar, onde a luz não alcança. Também tem uns peixes que vivem em rios e lagos nas cavernas. Eles mal tem olhos, eles não se desenvolveram, porque não são necessários nesses ambientes.

Apesar do abundante conhecimento na internet, na facilidade de comprar um livro ou assinar uma revista (estou falando especificamente de gente com possibilidade de estudar, de classe média e não do tiozinho do boteco), essas pessoas preferem ficar na escuridão. Sentem-se confortáveis com as ideias pre-concebidas, com os pacotes fornecidos por um pastor, pelos seus próprios pais, professores, líderes religiosos, etc. Carregar esse pacote de ideias tortas, para essas pessoas, é mais confortável do que reciclá-las e aos poucos ir montando uma nova caixinha de ideias, uma caixa linda e decorada, só que aberta, com informações entrando e saindo a todo momento. 


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