quinta-feira, 17 de abril de 2014

Eu posso filosofar

Semana passada (e na internet, semana passada é como ano passado rs) a internet ficou em polvorosa com uma prova de filosofia aplicada por um professor de ensino médio em uma escola de Brasília. Uma das questões da prova envolvia um trecho de uma música da Valesca Popozuda.

O professor, Antonio Kubitschek disse em uma entrevista:

"De acordo com os filósofos contemporâneos franceses, todo aquele que consegue construir conceitos é um filósofo, é um pensador. Se a Valesca constrói conceitos com a sua música, não tem porque ela não ser uma pensadora.

Antes de continuar a postagem, preciso confessar que não estudei filosofia no colégio (antigamente chamávamos ensino médio de colégio). Estudei em escola técnica e a grade horária que é dedicada a Sociologia e Filosofia era substituída pelas matérias profissionalizantes. Bom, mas eu entendo, em minha formação de buteco (risos) que filosofar é pensar sobre a vida. Aqui no Discurso Retórico o Rodrigo e eu filosofamos: colocamos a vida em perspectivas, pensamos e discutimos temas. Sendo assim, estamos de algum modo contribuindo para o pensamento e talvez até para a formação da opinião de alguém.

E qualquer pessoa pode fazer isso. Claro que um indivíduo que fez Bacharelado em Filosofia provavelmente sabe desenvolver melhor o seu pensamento. Mas eu também posso refletir sobre minha vida. O Seu Arlindo, um parente meu (acho que é meu primo de quarto grau, mas não tenho certeza) que vive lá no sertão da Bahia e estudou apenas os primeiros anos do ensino fundamental, também pode filosofar sobre a vida dele. E ele faz isso muito bem, demonstrando toda sua sabedoria e conhecimento empírico. 

Pensar não é privilégio. E toda essa história envolvendo a prova com uma questão que continha um trecho de uma música da Valesca Popozuda me fez observar que algumas pessoas acreditam que pensar e formar opinião são privilégios. Essa história toda me fez perceber um preconceito de classes enorme por parte de algumas pessoas. Percebi que muita gente acha que o filósofo é o homem branco de meia idade que usa óculos, viajado, com bom poder aquisitivo e que fala atrás de uma mesa e na frente de uma estante cheia de livros (ah não, esse é o Olavo de Carvalho).

A música da Valesca atinge milhões de pessoas. Uma postagem do Discurso Retórico, apenas para usar como exemplo, atinge no máximo umas 100 pessoas (infelizmente!). O que a Valesca canta, diz em entrevistas ou a maneira que ela age afeta muito mais pessoas do que um texto que escrevo por aqui. Sendo assim, seu pensamento provoca um impacto muito maior do que muitas pessoas gostariam de reconhecer. E em suas declarações, Valesca tem se saído muito bem, com declarações muito inteligentes.

Dentre as feministas, percebo uma clara dicotomia. Algumas a veem como uma mulher de destaque, pois fala abertamente sobre sexualidade e dá declarações de claro cunho feminista. Outras feministas não admiram Valesca, porque de acordo com esse segundo grupo, as letras das músicas da cantora estimulariam a competição entre as mulheres. Eu fico dividida nesse caso. Não gosto de elevar pessoas ao status de ícones e a competição entre mulheres é parte da cultura machista e algumas de suas músicas realmente deixam essa característica bem clara (como a própria "Beijinho no Ombro"). Por outro lado, Valesca frequentemente manda muito bem em suas declarações, mostrando ser uma mulher que sabe da importância do feminismo. E como ela tem fama e influência, acredito que ela leva isso para um público que não conhece o assunto e nunca leu a respeito.

Apesar dessa dicotomia (que na minha opinião é bem saudável), eu acredito que o preconceito de classes e o preconceito contra o funk carioca ficou bem claro em muitas críticas que li. É como se ela não tivesse o direito de pensar, o direito de ser uma pensadora. Acontece que pensar não é privilégio: todo mundo tem direito a refletir sobre a própria existência. Infelizmente poucos tem acesso a educação de qualidade, que ajudaria a fornecer ingredientes para articular melhor um pensamento. 

Aos críticos classistas (muitos presentes na academia): 

O que causa mais impacto na sociedade: sua tese recheada de academicismos e que ficará empoeirada em um canto abandonado da biblioteca de sua alma mater ou uma música popular?

A resposta é bem fácil.

2 comentários:

  1. A definição mais abrangente de filosofia é: "amor ao conhecimento" entāo eu me considero um filosofo ;)

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