quinta-feira, 24 de abril de 2014

Brinquedos de menino x brinquedos de menina


Vi aqui.

Eu ainda não tinha um tema para escrever essa semana (eu estava pensando em falar sobre um livro que estou lendo, mas vou deixar isso para quando eu acabar de lê-lo). Mas eu li o excelente post do Rodrigo, que trata-se na verdade de uma tradução de uma resposta excelente do Neil DeGrasse Tyson. Esse post me inspirou a falar sobre um assunto que tem total relação com a presença de mulheres na ciência: brinquedos.

Muitas coisas que falo são baseadas nas minhas observações empíricas e em coisas que leio por aí. Daí formulo hipóteses em minha pequena mente confusa. E a separação entre brinquedos "de menino" e brinquedos "de menina" determinam e muito os papéis que cada um dos gêneros vão fatalmente assumir na idade adulta.

Quando eu era criança, sempre achei os brinquedos de meninos "mais legais". Carrinhos  são considerados brinquedos de meninos. Como exemplo, meu irmão tinha um carrinho que ficava todo amassado quando batia e depois retornava a sua condição original, aquilo era mágico, melhor brinquedo do mundo. Apesar de nossa diferença de idade ser de apenas 3 anos, eu não tive esse brinquedo. Meu irmão tinha carrinhos de controle remoto. Ferramentas de brinquedo, espadas, armas de laser, robôs, kits de construção e montagem, etc são todos brinquedos "de menino".  Esses brinquedos estimulam o raciocínio lógico e motor. E são considerados brinquedos "de menino".  Observe da próxima vez que você for a uma festa infantil de uma garota. A quantidade "coisas cor de rosa" é impressionante. Veja que o tema da festa certamente terá relação com alguma princesa da Disney. Elas que em sua maioria se sacrificam, esperam pacientemente por um "príncipe salvador". Elas que usam aquelas roupas que dificultam a mobilidade. O tema da festa poderá ser um desses.

E observe os presentes que essa menina ganhou. Bonecas, kits de panelinhas, roupinhas de boneca, bonecas extremamente magras (que já começam a nos doutrinar para o "padrão de beleza '''''perfeito''''"), maquiagem infantil, roupas cor-de-rosa, sapatilhas e sandálias desconfortáveis. Dificilmente ela terá ganhado um brinquedo de montar, um carrinho de controle remoto ou qualquer outro brinquedo que ajude a estimular o raciocínio lógico.

Será que esse sexismo nos brinquedos não é um dos responsáveis por termos poucas mulheres trabalhando em certas áreas (como engenharia, química ou física)? Será que o fato de muitas mulheres não serem consideradas "boas motoristas" ou o fato de termos poucas mulheres atuando como pilotos de avião ou de carros de corrida não tem relação com essa separação sem fundamento entre brinquedos femininos e masculinos? Eu tenho certeza que essas coisas estão relacionadas. Assim como Neil DeGrasse Tyson falou que teve que lutar contra forças reais da sociedade (que esperavam que por ser negro, ele fosse um atleta), para seguir os seus sonhos e hoje ser provavelmente um dos cientistas mais populares do mundo, nós mulheres também temos que vencer uma força intensa, desde muito pequenas, para seguirmos nossas aptidões.  O sexismo nos brinquedos é a primeira barreira que enfrentamos. Talvez se nossos pais nos dessem um carrinho de controle remoto do Batman com naturalidade, outras aptidões seriam desenvolvidas. O sexismo nos brinquedos é danoso também para os meninos. Talvez se os meninos brincassem com mais naturalidade com bonecas e panelinhas, teríamos mais chefs e mais maridos que auxiliam nas tarefas domésticas. Talvez um homem, se assim o casal definisse, poderia se dedicar exclusivamente às tarefas domésticas enquanto a mulher trabalha fora, sem nenhum tipo de trauma ou cobrança.

Claro que estou falando de maneira muito superficial sobre as implicações do sexismo nos brinquedos, mas observo que é impossível falar disso sem falar da homofobia. Quantos pais consideram que o fato de um garotinho gostar de brincar de boneca vai 'transformá-lo' em homossexual. E claro, consideram que um filho homossexual é uma coisa horrível, uma vergonha para muitas pessoas. O mesmo é dito para uma menina que gosta de pipa, de futebol ou de carrinho. Dirão que ela é "maria homem" ou "moleca" ou qualquer coisa que para muitos conservadores não é desejável. Dessa forma, já nos atribuem papéis de gênero desde criança. Ontem fiquei muito surpresa quando conversava sobre uma conhecida minha que tem um garoto de 5 aninhos. O garoto é muito amável e carinhoso. O novo namorado dessa conhecida critica a maneira do garoto falar e fica exigindo que ele "fale como homem", ou seja, ele já está atribuindo a este garoto um papel de gênero que ele considera ser o certo, o aceitável. É absurdo colocar um peso desses nas costas de uma criança tão jovem.

Muitos pais ainda acham que devem criar princesas e cavaleiros. Muita gente ainda é homofóbica. Muita gente ainda quer determinar o que a criança "vai ser quando crescer" a partir de brinquedos, numa tentativa de controlar o destino e as escolhas dos filhos. Isso é impossível. No entanto, tenho certeza que ampliar os interesses das crianças, fornecendo brinquedos diversos, terá implicações positivas no desenvolvimento intelectual e motor da criança. A Bárbara, uma amiga minha que é professora de matemática e mãe de um casal me dá um espaço em seu blog, o Uma Mãe das Arábias, para falar sobre temas diversos. Já abordei essa questão do sexismo nos brinquedos aqui, falando de minhas experiências pessoais. E também já escrevi um post sobre brinquedos educativos, em que falo da importância de brinquedos que estimulem o desenvolvimento intelectual das crianças. 

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