quarta-feira, 30 de abril de 2014

"Pra mim, mulher tem que cuidar dos filhos em casa"

Aprendi com o tempo que falamos muito mais do que deveríamos. Quando ficamos quietos, temos oportunidades. A oportunidade de analisar, de pensarmos em nosso próprio discurso, de avaliarmos nossas próprias fragilidades e de reformular aquilo que diríamos.


Um antigo ditado popular diz que temos dois ouvidos e apenas uma boca. Que é para falar menos e ouvir mais. Bom, conheço um cara que fala pelos cotovelos, como diz outro ditado popular.  E ele fala tanto, que começa a inventar histórias. Ele se contradiz, mente muito e sinto vontade de confrontá-lo. Como não vou ganhar nada com um confronto, apenas continuo ouvindo seus delírios.

Esse sujeito já está na meia idade. Com 3 filhas, todas casadas, atualmente mora apenas com a esposa. A mulher nunca trabalhou fora e ele se orgulha em poder a mulher tudo o que ela sempre quer.  Outro dia, ele falava que orgulhava-se do fato da mulher ter ficado em casa para criar bem as meninas. Ele usou essa palavra: orgulho. E usou o termo'criar bem'. E disse que a mulher dele fez o que toda mulher deveria fazer, ficar em casa para cuidar das crianças. E disse que mulher que faz o oposto é irresponsável.

Meu sangue subiu na hora, mas não deixei ferver. Fiquei apenas ouvindo. A moça que faz a faxina estava por perto e talvez ele nem tenha percebido, já que quem fala demais não observa o mundo ao redor. Ela tem por volta de 35 anos e tem 6 filhos. Uma menina de 17 anos já casada e grávida. Um garoto de uns 16 que mora com a avó paterna. Duas adolescentes de 14 e 15 anos, uma delas também grávida. Um garoto de 9 e outro de 5 anos. 

Ela sai de casa todas as manhãs, muito cedo, para limpar nossos banheiros. O marido dela, pai do menino mais novo, limpa fossas e ganha um pouco mais. Somando os rendimentos dos dois, temos em torno de R$1.900,00, que calculo que deva ser 1/3 do salário do homem que fala mais que o homem da cobra. E pelo que entendi, o Senhor Matraca acredita que a faxineira é irresponsável porque deixa os filhos na escola ou na creche. Porque, claro,  ficar em casa de deixá-los com fome (quiçá morando na rua) seria certamente a melhor opção.






segunda-feira, 28 de abril de 2014

Tenha consciência dos seus privilégios

"Esta é uma história real. A pedido dos sobrevientes, os nomes foram modificados. Em respeito aos mortos, o resto foi contado exatamente como ocorrido."

Nos Estados Unidos até mesmo as universidades públicas funcionam como empresas. O que significa que professor é contratado como qualquer outro empregado de uma empresa. Não tem concurso não, é um processo longo com uma série de compromissos e entrevistas. Uma destas entrevistas é feita pelos alunos de pós-graduação. Pois bem, era uma vez um candidato a professor que foi almoçar com os alunos. Apenas duas alunas apareceram ao almoço. E qual o assunto que o candidato decide discutir? O fato de que ele teve que assistir a uma palestra desconfortável sobre assédio sexual.

Agora pensem comigo. Você é homem. Você está almoçando com duas mulheres. Esse é o assunto que você escolhe para a conversa? Você que é homem... decide reclamar para mulheres... a respeito de ter que ser orientado sobre assédio sexual? Vamos lá mais uma vez. Você é homem e, portanto, você faz parte do grupo social dos principais perpetradores do assédio sexual. Daí você vai almoçar com mulheres, que são as principais vítimas dessa agressão. E por fim, para o tópico da conversa, você decide reclamar que teve que assistir a uma palestra sobre a prevenção dessa agressão?

Fonte: The Huffpost
Vamos olhar por outra perspectiva. Você está sendo entrevistado para uma vaga de professor e você vai almoçar com duas alunas. Se contratado, você vai assumir uma posição de poder em relação àquelas duas alunas. De novo, você tem poder e, portanto, você faz parte do grupo social dos principais perpetradores do assédio sexual. Daí você vai almoçar com alunas, que estão em posição de menor poder em relação a você e, portanto, possíveis vítimas dessa agressão. E por fim, para o tópico da conversa, você decide reclamar que teve que assistir a uma palestra sobre a prevenção dessa agressão?

Falta sensibilidade aí do alto do seu privilégio, hein meu filho? Não preciso nem dizer que num mundo super competitivo outra pessoa assumiu aquela vaga. Talvez o candidato perdeu uma oportunidade pelo simples fato de não ter consciência do seu próprio privilégio. E você? Tem consciência dos privilégios que você tem?

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Brinquedos de menino x brinquedos de menina


Vi aqui.

Eu ainda não tinha um tema para escrever essa semana (eu estava pensando em falar sobre um livro que estou lendo, mas vou deixar isso para quando eu acabar de lê-lo). Mas eu li o excelente post do Rodrigo, que trata-se na verdade de uma tradução de uma resposta excelente do Neil DeGrasse Tyson. Esse post me inspirou a falar sobre um assunto que tem total relação com a presença de mulheres na ciência: brinquedos.

Muitas coisas que falo são baseadas nas minhas observações empíricas e em coisas que leio por aí. Daí formulo hipóteses em minha pequena mente confusa. E a separação entre brinquedos "de menino" e brinquedos "de menina" determinam e muito os papéis que cada um dos gêneros vão fatalmente assumir na idade adulta.

Quando eu era criança, sempre achei os brinquedos de meninos "mais legais". Carrinhos  são considerados brinquedos de meninos. Como exemplo, meu irmão tinha um carrinho que ficava todo amassado quando batia e depois retornava a sua condição original, aquilo era mágico, melhor brinquedo do mundo. Apesar de nossa diferença de idade ser de apenas 3 anos, eu não tive esse brinquedo. Meu irmão tinha carrinhos de controle remoto. Ferramentas de brinquedo, espadas, armas de laser, robôs, kits de construção e montagem, etc são todos brinquedos "de menino".  Esses brinquedos estimulam o raciocínio lógico e motor. E são considerados brinquedos "de menino".  Observe da próxima vez que você for a uma festa infantil de uma garota. A quantidade "coisas cor de rosa" é impressionante. Veja que o tema da festa certamente terá relação com alguma princesa da Disney. Elas que em sua maioria se sacrificam, esperam pacientemente por um "príncipe salvador". Elas que usam aquelas roupas que dificultam a mobilidade. O tema da festa poderá ser um desses.

E observe os presentes que essa menina ganhou. Bonecas, kits de panelinhas, roupinhas de boneca, bonecas extremamente magras (que já começam a nos doutrinar para o "padrão de beleza '''''perfeito''''"), maquiagem infantil, roupas cor-de-rosa, sapatilhas e sandálias desconfortáveis. Dificilmente ela terá ganhado um brinquedo de montar, um carrinho de controle remoto ou qualquer outro brinquedo que ajude a estimular o raciocínio lógico.

Será que esse sexismo nos brinquedos não é um dos responsáveis por termos poucas mulheres trabalhando em certas áreas (como engenharia, química ou física)? Será que o fato de muitas mulheres não serem consideradas "boas motoristas" ou o fato de termos poucas mulheres atuando como pilotos de avião ou de carros de corrida não tem relação com essa separação sem fundamento entre brinquedos femininos e masculinos? Eu tenho certeza que essas coisas estão relacionadas. Assim como Neil DeGrasse Tyson falou que teve que lutar contra forças reais da sociedade (que esperavam que por ser negro, ele fosse um atleta), para seguir os seus sonhos e hoje ser provavelmente um dos cientistas mais populares do mundo, nós mulheres também temos que vencer uma força intensa, desde muito pequenas, para seguirmos nossas aptidões.  O sexismo nos brinquedos é a primeira barreira que enfrentamos. Talvez se nossos pais nos dessem um carrinho de controle remoto do Batman com naturalidade, outras aptidões seriam desenvolvidas. O sexismo nos brinquedos é danoso também para os meninos. Talvez se os meninos brincassem com mais naturalidade com bonecas e panelinhas, teríamos mais chefs e mais maridos que auxiliam nas tarefas domésticas. Talvez um homem, se assim o casal definisse, poderia se dedicar exclusivamente às tarefas domésticas enquanto a mulher trabalha fora, sem nenhum tipo de trauma ou cobrança.

Claro que estou falando de maneira muito superficial sobre as implicações do sexismo nos brinquedos, mas observo que é impossível falar disso sem falar da homofobia. Quantos pais consideram que o fato de um garotinho gostar de brincar de boneca vai 'transformá-lo' em homossexual. E claro, consideram que um filho homossexual é uma coisa horrível, uma vergonha para muitas pessoas. O mesmo é dito para uma menina que gosta de pipa, de futebol ou de carrinho. Dirão que ela é "maria homem" ou "moleca" ou qualquer coisa que para muitos conservadores não é desejável. Dessa forma, já nos atribuem papéis de gênero desde criança. Ontem fiquei muito surpresa quando conversava sobre uma conhecida minha que tem um garoto de 5 aninhos. O garoto é muito amável e carinhoso. O novo namorado dessa conhecida critica a maneira do garoto falar e fica exigindo que ele "fale como homem", ou seja, ele já está atribuindo a este garoto um papel de gênero que ele considera ser o certo, o aceitável. É absurdo colocar um peso desses nas costas de uma criança tão jovem.

Muitos pais ainda acham que devem criar princesas e cavaleiros. Muita gente ainda é homofóbica. Muita gente ainda quer determinar o que a criança "vai ser quando crescer" a partir de brinquedos, numa tentativa de controlar o destino e as escolhas dos filhos. Isso é impossível. No entanto, tenho certeza que ampliar os interesses das crianças, fornecendo brinquedos diversos, terá implicações positivas no desenvolvimento intelectual e motor da criança. A Bárbara, uma amiga minha que é professora de matemática e mãe de um casal me dá um espaço em seu blog, o Uma Mãe das Arábias, para falar sobre temas diversos. Já abordei essa questão do sexismo nos brinquedos aqui, falando de minhas experiências pessoais. E também já escrevi um post sobre brinquedos educativos, em que falo da importância de brinquedos que estimulem o desenvolvimento intelectual das crianças. 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Uma resposta de outro mundo

Hoje vou fazer algo diferente, vou simplesmente traduzir um video em ingles que contém uma resposta fantástica a uma pergunta mal feita. De acordo com o blog Upworthy, o secretário do tesouro da universidade Harvard, Lawrence Summers, uma vez sugeriu que diferenças genéticas poderiam explicar o fato de que há menos mulheres cientistas do que homens cientistas. Seguindo essa comentário, um homem pergunta: "what's up with chicks in science?" (Qual é a das meninas na ciência?). Essa foi a resposta de Neil DeGrasse Tyson:

"Eu nunca fui uma mulher (risos), mas eu tenho sido negro a minha vida toda (mais risos) ... estão me permita talvez lançar alguma luz a partir do meu ponto de vista (...) Porque há vários problemas sociais semelhantes relacionados ao acesso a oportunidades iguais que nós observamos na comunidade negra, assim como na comunidade feminina, em uma sociedade dominada por homens brancos. E eu vou ser breve porque eu quero dar oportunidade para mais perguntas.

Eu soube que eu queria estudar astrofísica desde que eu tinha 9 anos de idade. Desde a minha primeira visita ao planetário (...) Então eu pude vivenciar como o mundo ao meu redor reagia às minhas aspirações. E tudo o que eu posso dizer é que o fato de que eu queria ser um físico e um astrofísico foi sem sombras de dúvidas o caminho de maior resistência às forças da sociedade.

Toda vez que eu expressava esse interesse os professores da escola diziam: "você não prefere ser um atleta?". Eu queria me tornar algo que estava fora do paradigma da expectativa das pessoas que estavam no poder. Felizmente, o meu interesse no universo era tão profundo, tão abundante e tão rico que a cada bola curva atirada na minha direção [alusão ao baseball], a cada cerca construída na minha frente, a cada colina que eu tive que escalar, eu simplesmente pegava mais impulso e continuava em frente.

Agora aqui estou. Eu acredito que eu sou um dos cientistas mais populares do país. E eu quero olhar para trás e ver onde estão os outros que poderiam ter se tornado o que eu sou hoje. E eles não estão lá. E eu me pergunto qual é o perigo no caminho que por acaso eu sobrevivi mas que outros não conseguiram? Simplesmente devido às forças da sociedade que os impediram a cada curva do caminho. A cada curva do caminho.

At every turn! At every turn!

Ao ponto de que eu tive seguranças de lojas que me seguiam enquato eu andava pelas lojas, presumindo que eu era um ladrão. Eu saí de uma loja uma vez e o alarme disparou. Os seguranças então vieram correndo na minha direção. Eu passei pela porta ao mesmo tempo que um homem branco passou. E aquele cara foi embora com as coisas roubadas, sabendo que os seguranças iriam parar a mim e não a ele. Um golpe bem planejado, uma forma interessante de explorar essa situação. As pessoas deveriam fazer isso mais frequentemente (risos).

Portanto, a minha experiência pessoal me diz que quando você não encontra negros na ciência e quando você não encontra mulheres na ciência é porque estas forças da sociedade são reais! E eu tive que sobrevivê-las para poder chegar onde eu cheguei. Então antes que comecemos a falar sobre diferenças genéticas, nós precisamos pensar em um sistema onde existam oportunidades iguais. Quando esse sistema existir, aí sim podemos conversar sobre diferenças genéticas."

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Eu posso filosofar

Semana passada (e na internet, semana passada é como ano passado rs) a internet ficou em polvorosa com uma prova de filosofia aplicada por um professor de ensino médio em uma escola de Brasília. Uma das questões da prova envolvia um trecho de uma música da Valesca Popozuda.

O professor, Antonio Kubitschek disse em uma entrevista:

"De acordo com os filósofos contemporâneos franceses, todo aquele que consegue construir conceitos é um filósofo, é um pensador. Se a Valesca constrói conceitos com a sua música, não tem porque ela não ser uma pensadora.

Antes de continuar a postagem, preciso confessar que não estudei filosofia no colégio (antigamente chamávamos ensino médio de colégio). Estudei em escola técnica e a grade horária que é dedicada a Sociologia e Filosofia era substituída pelas matérias profissionalizantes. Bom, mas eu entendo, em minha formação de buteco (risos) que filosofar é pensar sobre a vida. Aqui no Discurso Retórico o Rodrigo e eu filosofamos: colocamos a vida em perspectivas, pensamos e discutimos temas. Sendo assim, estamos de algum modo contribuindo para o pensamento e talvez até para a formação da opinião de alguém.

E qualquer pessoa pode fazer isso. Claro que um indivíduo que fez Bacharelado em Filosofia provavelmente sabe desenvolver melhor o seu pensamento. Mas eu também posso refletir sobre minha vida. O Seu Arlindo, um parente meu (acho que é meu primo de quarto grau, mas não tenho certeza) que vive lá no sertão da Bahia e estudou apenas os primeiros anos do ensino fundamental, também pode filosofar sobre a vida dele. E ele faz isso muito bem, demonstrando toda sua sabedoria e conhecimento empírico. 

Pensar não é privilégio. E toda essa história envolvendo a prova com uma questão que continha um trecho de uma música da Valesca Popozuda me fez observar que algumas pessoas acreditam que pensar e formar opinião são privilégios. Essa história toda me fez perceber um preconceito de classes enorme por parte de algumas pessoas. Percebi que muita gente acha que o filósofo é o homem branco de meia idade que usa óculos, viajado, com bom poder aquisitivo e que fala atrás de uma mesa e na frente de uma estante cheia de livros (ah não, esse é o Olavo de Carvalho).

A música da Valesca atinge milhões de pessoas. Uma postagem do Discurso Retórico, apenas para usar como exemplo, atinge no máximo umas 100 pessoas (infelizmente!). O que a Valesca canta, diz em entrevistas ou a maneira que ela age afeta muito mais pessoas do que um texto que escrevo por aqui. Sendo assim, seu pensamento provoca um impacto muito maior do que muitas pessoas gostariam de reconhecer. E em suas declarações, Valesca tem se saído muito bem, com declarações muito inteligentes.

Dentre as feministas, percebo uma clara dicotomia. Algumas a veem como uma mulher de destaque, pois fala abertamente sobre sexualidade e dá declarações de claro cunho feminista. Outras feministas não admiram Valesca, porque de acordo com esse segundo grupo, as letras das músicas da cantora estimulariam a competição entre as mulheres. Eu fico dividida nesse caso. Não gosto de elevar pessoas ao status de ícones e a competição entre mulheres é parte da cultura machista e algumas de suas músicas realmente deixam essa característica bem clara (como a própria "Beijinho no Ombro"). Por outro lado, Valesca frequentemente manda muito bem em suas declarações, mostrando ser uma mulher que sabe da importância do feminismo. E como ela tem fama e influência, acredito que ela leva isso para um público que não conhece o assunto e nunca leu a respeito.

Apesar dessa dicotomia (que na minha opinião é bem saudável), eu acredito que o preconceito de classes e o preconceito contra o funk carioca ficou bem claro em muitas críticas que li. É como se ela não tivesse o direito de pensar, o direito de ser uma pensadora. Acontece que pensar não é privilégio: todo mundo tem direito a refletir sobre a própria existência. Infelizmente poucos tem acesso a educação de qualidade, que ajudaria a fornecer ingredientes para articular melhor um pensamento. 

Aos críticos classistas (muitos presentes na academia): 

O que causa mais impacto na sociedade: sua tese recheada de academicismos e que ficará empoeirada em um canto abandonado da biblioteca de sua alma mater ou uma música popular?

A resposta é bem fácil.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

É ciência ou picaretagem?

Hoje em dia as pessoas se utilizam de argumentos "científicos" para justificar as piores barbaridades. É comum ouvir as palavras: "não sou eu que to falando, é o que diz este artigo" ou "veja este depoimento de um Doutor em... [insira aqui a área do conhecimento da qual você deseja debochar]". Acontece que artigo furado e doutor picareta são mais comuns do que se pensa. Mas como diferenciar ciência de picaretagem?

Primeiro, só porque um artigo foi publicado em uma revista científica não significa que aquele artigo é uma verdade absoluta. Para que uma informação seja considerada como verdadeira pela ciência é preciso que vários artigos com resultados semelhantes e complementares sejam publicados por vários autores diferentes em revistas científicas sérias. Segundo, é preciso que a comunidade científica seja convencida de que aquele grupo de artigos realmente amplia o nosso conhecimento. Terceiro, aqueles artigos devem ser a base para novos trabalhos científicos e, portanto, estes artigos recebem muitas citações em outros artigos. Por último, a ciência esta em constante evolução, portanto artigos muitos antigos muitas vezes estão desatualizados. Então, quando alguém tentar te convencer de algo usando um artigo científico, faça uma busca na internet por 5 minutos. Um artigo publicado em 1950 que nunca foi mencionado em nenhum outro artigo científico talvez não seja uma fonte segura...

Mas muitos "pesquisadores" dão entrevistas polêmicas para TV e jornais e justificam a falta evidência científica em conspirações internacionais e até “perseguições” pessoais. Então deixa eu te explicar como o processo de publicação funciona.

Você desenvolve sua pesquisa e escreve um documento chamado manuscrito. Este documento contém 1) uma breve revisão bibliográfica do estado da arte do conhecimento naquela área do conhecimento. Ou seja, o que já sabemos sobre o tema. 2) uma descrição detalhada do procedimento utilizados no desenvolvimento da nova pesquisa. Ou seja, a forma como a pesquisa foi realizada. E finalmente 3) os resultados encontrados. Ou seja, as novas descobertas científicas. Este documento é então submetido para publicação em uma revista científica e passa por um longo processo de revisão. O editor da revista vai encaminhar o seu trabalho para dois ou três especialistas no tópico da pesquisa. Depois de algum tempo você recebe o seu documento de volta com comentários (ex: sugestões, críticas e perguntas). Se você for capaz de responder satisfatoriamente aos comentários dos revisores, você tem sua pesquisa publicada.

Se você não responder os comentários satisfatoriamente, seu manuscrito é rejeitado, obviamente. Mas aqui está a chave da questão. Se o seu manuscrito for rejeitado você ainda terá a documentação do processo. O manuscrito, os comentários dos revisores e uma carta do editor da revista científica. Então, basta que os "perseguidos" mostrem estes documentos para provar que estão sendo perseguidos.

Hoje em dia com as redes sociais seria muito fácil divulgar estas informações. Por que então os "perseguidos" não se organizam e não denunciam estes abusos? Eu te digo porque. Em primeiro lugar não existe evidência científica para suas afirmações polêmicas. Em segundo lugar não existe um manuscrito tentando provar tais afirmações. E por último, existe um interesse pessoal por trás destas afirmações.

Claro, o sistema não é perfeito, até porque é um sistema criado por humanos. Mas é um sistemo muito bom. Mesmo que sua pesquisa não seja aceita na revista X, voce pode sempre melhorá-la e submetê-la para revista Y ou Z. Se o trabalho tiver algum valor científico, em algum lugar ele será publicado. Eu te garanto. Mas perceba que se um resultado é sólido, não tem como governos ou empresas privadas manipularem os resultados para seus próprios interesses. Porque mesmo que um governo ou uma empresa tenha tanta influência assim em um determinado país ou grupo de países, nada impede que o mesmo resultado seja encontrado por pesquisadores no Vietnã, ou na Alemanha, ou na Africa do Sul, ou no México, etc... Portanto, se você quiser acreditar que governos do mundo todo conspiram para criar uma "farsa" chamada mudanças climáticas, o azar é seu. Mas em uma época em que tantos governos mal conseguem entrar em acordo a respeito de linhas imaginárias dividindo territórios, basta um pouco de lógica para perceber que essa teoria da conspiração é furada.

Foto de um cientista que afirma que as mudanças climáticas são uma farsa.

Agora, existe uma ressalva. Empresas, governos e organizações variadas conseguem sim manipular a forma como a informacão cientifica é dissiminada para a populção. É aí que entra o verdadeiro poder da desonestidade intelectual. É por isso que parte da população ainda acredita que existe um debate entre os cientistas a respeito das mudanças climáticas. Não existe debate, as mudanças climáticas são reais e a culpa é nossa. Já passou da hora de encarar a realidade!

quinta-feira, 10 de abril de 2014

O curioso caso da ex-criacionista






Eu acreditava em tudo isso aí de cima. Meu pensamento sobre isso hoje:


Antes de escrever sobre o tema que escolhi essa semana, quero fazer uma parada metalinguística e escrever sobre o quanto é difícil escolher um assunto para escrever.


Várias coisas passam pela minha mente ao longo da semana. E até quinta-feira, preciso definir um assunto. Se eu não fizer isso, o texto fica absurdamente genérico.

Essa semana tive essa dificuldade. Mas então uma conversa no twitter me fez definir o tema. Vou falar sobre mudar de opinião. Todos tem direito de mudar de opinião. E vou usar meu exemplo pessoal.

Quando eu era adolescente, eu era bem idiotinha. Acho que adolescente deve significar idiota em alguma língua morta. Enfim, eu tinha pensamentos reacionários, preconceituosos, classistas ou simplesmente idiotas em sua forma mais crua e superficial.

Por exemplo, eu achava que apenas rock era "música boa". Inclusive naquele tempo havia uma rivalidade entre 'pagodeiros' e 'roqueiros' (é, nos rotulávamos facilmente). Houve até briga física na escola onde eu estudei o ensino médio, motivada por essa rivalidade imbecil.

O interessante era que na minha antiga escola, onde estudei o ensino fundamental (e era localizada em um bairro mais periférico), eu até ouvia pagode. Eu gostava de Katinguelê e até cheguei a sambar com as meninas rs. Só que chegou o meio da adolescência, a mudança de escola e a necessidade de se auto-afirmar. Como os coleguinhas dessa nova escola em sua maioria preferiam o rock, acho que acabei virando uma radical para agradar. E quando eu estava no fundamental, eu era bem mais legal. Eu ouvia diversos tipos de música no walkman que ganhei aos 10 anos, lia mais (lia Monteiro Lobato, livros da coleção Vagalume, quadrinhos, revistas, livros de fábulas e lendas, livros infantis em inglês etc). No ensino médio, conheci o RPG e comecei a gostar mais de ficção científica, o que é muito legal, claro, mas eu passei a ler menos (porque tinha menos tempo) e passei a ser mais revoltadinha. Acho que isso tudo é coisa da adolescência.

Conclusão: crianças >>>>>> adolescentes.

Também nessa época descobri a religião. Quando eu era criança, frequentava escolas bíblicas, coisa de protestante. Mas, eu não era religiosa. Na adolescência, descobri a religiosidade. E isso fez com que eu vivesse num conflito interno e muito idiota dentro de mim. Eu não queria jogar RPG porque achava que era "do demônio". Por outro lado, achava que RPG era legal. Então eu jogava e pedia desculpas em oração. Eu não queria ficar com nenhum garoto, porque mulheres devem se preservar (a religião, sempre se preocupando com a vida amorosa e sexual dos outros). Mas, ficar com os meninos era muito bom. Então eu fui por alguns anos uma pessoa extremamente hipócrita. 

Conheci um namorado  "firme", com quem fiquei por muito tempo.  Ele não era da igreja e isso me incomodava muito. Tentei levá-lo a igreja, mas ele não gostava, não tinha interesse e tinha muito preconceito nessa questão. O namoro durou algum tempo, até que terminamos. Quando terminamos, voltei firme à vida eclesiástica. E foi nesse período que minha vida não foi muito boa. Nesse período, eu tinha pensamentos homofóbicos. E conforme confessei a um amigo português ontem (eu já tinha confessado para outras pessoas, mas agora a confissão ficou internacional rs), eu era criacionista. Ou melhor, creacionista, como disse meu amigo Pedro, rs.

Eu cheguei a participar de fóruns criacionistas no orkut, bem no início dessa rede social. Cheguei a traduzir textos do inglês para o português (quanto desperdício de tempo, poderia ter traduzido qualquer outra coisa rs). Por diversas razões, acabei deletando meu perfil no Orkut e meus pensamentos idiotas não ficaram registrados. Por isso quando leio idiotices racistas, preconceituosas ou babacas em sua forma mais rudimentar escritas por adolescentes, entendo que eles ainda podem ter salvação. Só que, coitados, essas porcarias ficam registradas. A vida digital hoje é tão ampla (há várias redes sociais) que apagar todas as merdas escritas é quase impossível.

Bom, continuando minha saga: para deixar tudo ainda pior, eu já estava na faculdade quando era criacionista. Ou seja, é extremamente vergonhoso. Mas por que me tornei criacionista? Achei que isso tinha a ver com manter a coerência dentro da Igreja. Achei que eu precisava enxergar a Bíblia com literalidade. Achei que se eu fosse Criacionista, iria para o tal paraíso prometido (resumindo todo).  Eu comecei a ficar religiosa em um momento de desespero. Eu tinha medo de ir para o inferno, medo que toma conta da mente de muitos religiosos. E essa onda de religiosidade foi aumentada após o fim do relacionamento que mencionei anteriormente, ou seja, um momento vulnerável de minha vida. E são nesses momentos de vunerabilidade que a religiosidade aparece na vida de muitas pessoas.

O "lado bom" de ter sido criacionista é que eu comecei a ler muito mais. Fiquei extremamente sedenta por conhecimento. Li inclusive a Bíblia, livro que li praticamente na íntegra. Comecei a ver que era impossível seguir a Bíblia literalmente, uma vez que ela é um livro extremamente contraditório e sangrento. Comecei a ler sobre a Biblia e entender como os livros foram organizados. Observei falhas, problemas, incoerências e escolhas motivadas por interesses de grupos de pessoas. Li livros de divulgação científica, assisti episódios da série Cosmos e comecei a ler diversos bons sites de popularização científica. Eu tive um bom Ensino Médio, minha professora de biologia era excelente. Então compreender material sobre biologia não é muito difícil para mim. E isso me ajudou a aprender mais sobre Teoria da Evolução e Genética. E me fez perceber que muitos argumentos utilizados por criacionistas são absurdos. Também comecei a me interessar por pesquisa científica (e acabei até fazendo Mestrado anos depois). E comecei a me interessar sobre como a pesquisa científica se desenvolvia, como escrever um artigo, como organizar uma pesquisa, etc. Foi quando observei que não existem pesquisas criacionistas. Não, as conjecturas reunidas por pensadores em "sociedades criacionistas" não podem ser consideradas como pesquisas. Não há uma hipótese, não há metodologia, não há conclusão, etc.  

Depois de 10 anos, essa sede por conhecimento me fez ser uma pequena popularizadora científica. Estou muito longe de ser Neil deGrasse Tyson, mas fico feliz que meu trabalho tenha um pequeno alcance local. Alguns leitores devem saber que escrevo no Meteorópole, um blog sobre meteorologia e outras áreas do conhecimento. Também falo sobre meus hobbies e dou minha opinião sobre alguns temas.

Hoje posso dizer que ter sido criacionista me prejudicou um pouco e me fez desdperdiçar tempo (mano, traduzir TEXTOS CRIACIONISTAS? QUE MERDA!!!), mas também foi responsável por um novo despertar em minha vida, já que hoje aprendi a pesquisar, ler muito e até a escrever. Eu não tenho vergonha de dizer que agi assim. Ok, um tiquinho de vergonha eu até tenho. Mas não é muita. Fico feliz que fui uma metamorfose ambulante. E ainda sou essa metamorfose ambulante. Hoje deixo minha mente aberta, como uma caixa que sempre recebe mais informações. E no interior dessa caixa, as informações são processadas e filtradas. Mudo de opinião sobre alguns assuntos, desenvolvo uma opinião sobre outros que eu não conhecia, adquiro conhecimento etc. E eu tenho certeza que hoje sou uma pessoa muito melhor do que eu era há 10 anos atrás. E vou continuar melhorando com o tempo, porque é assim que deve ser na vida de todos nós.


quinta-feira, 3 de abril de 2014

Na escuridão

Carl Sagan disse em "O mundo assombrado por demônios"  que a ciência é como uma vela na escuridão. Ele não só menciona essa comparação no livro: na verdade, ela é subtítulo da obra.

Podemos fazer todo tipo de comparativo com a escuridão. Estar em um lugar completamente escuro por muito tempo é assustador. Quando falo completamente escuro, falo tão escuro que você não consegue enxergar o seu nariz.

Eu já tive vários sonhos em que estava na escuridão. Para chegar até escola que estudei até a oitava série ( falávamos série, antigamente rs), eu precisava descer uma ladeira muito íngreme e depois subir outra ladeira igualmente íngreme. O bairro de Itaquera é cheio de sobes e desces.

Por algum tempo, eu tive problemas na escola. Bullying, sensação de inadequação, etc. E eu tinha pesadelos. Um de meus pesadelos recorrentes era ter que descer e subir aquela ladeira num assustador breu.

Na bíblia, usam muito o termo escuridão para representar o mal. No livro de Gênesis, o primeiro da bíblia e logo no primeiro capítulo, é narrado o seguinte:



No novo testamento,  um dos títulos atribuídos à Jesus Cristo é "a Luz do Mundo". E a presença de trevas x luz é algo muito simbólico para mim. A lição mais famosa de Jesus é sobre "amar ao próximo como a si mesmo". Jesus também queria acabar com as leis antigas dos fariseus, com proibições absurdas como não realizar nenhuma atividade aos sábados. Jesus fez o bem, almentou pobres, curou doentes e hoje é um modelo para muitas pessoas. Eu tenho a impressão que até hoje ele não é compreendido, já que atos de ódio ao próximo continuam sendo  cometidos em nome dele.

Quando penso que "Jesus é a Luz do Mundo", é porque acredito que Jesus apresentou às pessoas uma nova forma de pensar. Uma forma amorosa, paciente e sem egoísmos. 

E quando penso em Luz, penso em mudança. Penso em busca por conhecimento.

Na escuridão, se alguém te oferece uma vela, você consegue enxergar alguns centímetros de distância. Se a chama for boa e se a parede for branca, você consegue enxergar mais. E logo vai querer ver mais, e mais e mais. Interpreto a vela na escuridão de Carl Sagan assim: começo a estudar um pouquinho e aprendo algumas coisinhas. Essas coisinhas vão me deixar curiosa e eu vou querer aprender mais. E depois mais, mais e mais e ...

Como disse Bruce Springsteen: can't start the fire without a spark.

Observo que algumas pessoas preferem continuar nessa escuridão. Vejo colegas, parentes e desconhecidos difundirem palavras de machismo, homofobia e até de racismo. No dia 31 de Março, completamos 50 anos de Golpe Militar. Vi gente compartilhar textos que defendem o golpe. São os mesmos que acreditam que o Brasil está virando uma ditadura comunista. E repetem fielmente as palavras de "grandes pensadores" daquele famoso semanário brasileiro. Os criminosos e covardes chegam a ameaçar políticos como Jean Wyllys ou Jandira Feghali. Dizem que eles agem a favor da "ditadura gayzista/comunista".  E eu nem sei o que dizer sobre pessoas que compartilham textos do Bolsonaro e de sua família. 

Essas pessoas agem com uma paixão tão esquisita. Eu tenho um nome para isso: desespero. O desespero revoltado de quem está na escuridão. Dá socos no ar, tenta alcançar as paredes. O curioso é que muitas dessas pessoas já se acostumaram com a escuridão. Eu sei que há uns peixes que vivem no fundo do mar, onde a luz não alcança. Também tem uns peixes que vivem em rios e lagos nas cavernas. Eles mal tem olhos, eles não se desenvolveram, porque não são necessários nesses ambientes.

Apesar do abundante conhecimento na internet, na facilidade de comprar um livro ou assinar uma revista (estou falando especificamente de gente com possibilidade de estudar, de classe média e não do tiozinho do boteco), essas pessoas preferem ficar na escuridão. Sentem-se confortáveis com as ideias pre-concebidas, com os pacotes fornecidos por um pastor, pelos seus próprios pais, professores, líderes religiosos, etc. Carregar esse pacote de ideias tortas, para essas pessoas, é mais confortável do que reciclá-las e aos poucos ir montando uma nova caixinha de ideias, uma caixa linda e decorada, só que aberta, com informações entrando e saindo a todo momento.