quinta-feira, 13 de março de 2014

Liberdade x Submissão: não deixe seu líder religioso te enganar

Outro dia uma amiga me marcou nessa postagem da Cientista que Virou Mãe (que a propósito é uma ótima página). Vou pegar a imagem da postagem aqui para que vocês entendam do que se trata e para ilustrar o assunto que vou discutir nesse post.

É uma foto de uma edição de um jornal da Igreja Universal do Reino de Dinheiro Deus  (IURD). É um caderno desse jornal que é específico para doutrinar as mulheres. Não li a reportagem (e nem quero perder meu tempo). Peguei o título da matéria para debater o simples. Vamos pegar o dicionário, hábito que deveria ser comum nas igrejas de um modo geral, já que há versões da bíblia que são traduções muito antigas. 


Para vocês terem uma ideia, um dos principais tradutores protestantes da bíblia para o português foi João Ferreira de Almeida que fez esse trabalho no século XVII. Depois disso, várias revisões e atualizações foram feitas e a versão que ainda vejo por ai (inclusive tenho uma bíblia dessas) é a Almeida Revista e Atualizada, cuja primeira publicação é de 1959. Muitas palavras que estão na minha bíblia não são mais tão comuns atualmente e evidentemente desconheço o sentido delas. Por isso uma leitura com um dicionário é muito importante. Claro que também versões da Bíblia adaptadas para a linguagem atual, mas ainda assim muitos conceitos são referentes àquele tempo (estamos falando de coisas de mais de 2000 anos atrás, no mínimo), então um dicionário é obrigatório durante a leitura.

Então peguei um dicionário (esse aqui) e procurei o significado das palavras. Postei no meu mural do Facebook que é pra chamar a atenção das evangélicas que conheço:


sub·mis·são (latim submissus, -a, -um, particípio passado de submissio, -onis) substantivo feminino 1. .Ato ou efeito de submeter ou de se submeter. = SUBMETIMENTO 2. Obediência. 3. Sujeição. 4. Humildade. 

li·ber·da·de (latim libertas, -atis) substantivo feminino 1. Direito de proceder conforme nos pareça, contanto que esse direito não vá contra o direito de outrem. 2. Condição do homem ou da nação que goza de liberdade. 3. Conjunto das .ideias liberais ou dos direitos garantidos ao cidadão. 4. [Figurado] Ousadia. 5. Franqueza. 6. Licença. 7. Desassombro. 8. Demasiada familiaridade. 

Então fiz uma perguntinha retórica muito simples:

o que submissão tem a ver com liberdade? 

NADA.

Não tem nada a ver. E da onde vem essa história de que mulher cristã tem que ser submissa? Bom, ter sido uma das melhores alunas da Escola Dominical vai ser útil agora:

Na carta aos Efésios 5:22,24, São Paulo escreveu:
"As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao Senhor.... Como, porém, a Igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo submissas ao seu marido" (Efésios 5:22,24).

E São Paulo também escreveu na carta aos Colossensses 3:18:
 "Esposas, sede submissas ao próprio marido, como convém no Senhor" (Colossenses 3:18).

E São Paulo também escreveu na carta a Tito 2:3-5:
Disse que as mulheres deveria ser "…sujeitas ao marido, para que a palavra de Deus não seja difamada" (Tito 2:3-5).

São Pedro também decidiu cagar regra em sua epístola 1 Pedro 3:1:
 "Mulheres, sede vós, igualmente, submissas a vosso próprio marido..."

E há outras passagens. Não me lembro agora, essas foram as que encontrei consultando minha bíblia.

Não sei da onde veio a tradução do termo, não vou discutir isso. Vamos falar do jeito que está escrito em português, do jeito que é ministrado nas igrejas. E quando pego as palavras submissão e liberdade, vejo que elas tem significados antagônicos. E eu não gosto disso.

A IURD não é a única igreja do espectro do Cristianismo a defender a submissão feminina. Quase todas as igrejas evangélicas (Protestantes e Pentecostais) defendem isso e a Igreja Católica também defende isso. Talvez algumas igrejas digam que não é bem assim. E para isso usam algumas maracutaias teológicas muito loucas, tacanhas e sem vergonhas. 


Nessas maracutaias teológicas dizem que submissão não é inferioridade (o que é então?) e que na verdade é liberdade, é o plano-de-Deus-perfeito-nas-nossas-vidas, é da forma que Deus planejou o mundo, porque Deus inventou a mulher pra completar o homem, porque é Adão e Eva e não Adão e Ivo, porque o homem é a cabeça e a mulher é o pescoço (somos burras também, claro). Enfim, todas essas maracutais convencem a maioria das house woman. 

As house women são as mulheres que favorecem a estrutura do patriarcado e nem percebem. Adaptei o termo usado por Malcolm X em muitos discursos, que usava o termo (que na verdade é pejorativo) house nigger para se referir aos negros em uma situação paralela (mencionei nisso numa resenha que fiz de O Mordomo da Casa Branca, leia aqui). 

As house women (o que não tem nada a ver com ser dona de casa, porque ser dona de casa em tempo integral não impede ninguém de ser feminista, por favor) contribuem para a manutenção da estrutura patriarcal porque foram criadas dentro dessa estrutura e não tiveram o estímulo necessário para pensar fora da caixinha. Não gosto de chamar outras mulheres de machistas, acho que temos que nos unir e educar as mulheres para que elas coloquem o feminismo na vida delas. 

Temos nesse vídeo de uma famosa igreja evangélica o exemplo de 5 house women juntas que estão doutrinando outras house women e que durante o discurso, falam como educam suas menininhas a serem pequenas house girls. É triste demais ver que isso continua acontecendo. A house women é aquela mulher que permite que seu garotão traga a namorada pra casa e deixa ele sair para badalar de noite porque ele é apenas um rapaz bonito que quer aproveitar, mas impede que sua filha traga o namorado para dormir em casa. Essa mulher anula-se para agradar seu marido, mantém-se casada (porque a tal família-feliz de comercial - nem que for de aparência - é importante) , é responsável pela manutenção do casamento (mulher tem que prender o marido), as vezes tem dupla jornada e não se queixa, reproduzem o discurso do seu líder religioso, etc. Você certamente conhece uma house women. Algumas delas inclusive criticam o feminismo, dizem que somos radicais.

As house women criticam a aparência das outras mulheres. Criticam as mulheres livres  - a field women -, pois elas tem uma vida sexual variada. Quando ofendem outras mulheres, falam de sua suposta ou não promiscuidade. Quando o casamento da vizinha acaba após 30 anos, a culpada é a secretaria gostosa do marido, aquela destruidora de lares. Não, a culpa jamais é do marido, sempre da outra. As house women não acreditam em sororidade e reproduzem discursos machistas (trabalhar com homens é mais fácil, mulheres são competitivas mesmo, apanhou porque mereceu, foi estuprada porque usou roupa curta e encheu a cara, etc). 

As house women cristãs acreditam nas palavras do líder religioso (que na maioria das vezes é um homem) que subimissão e liberdade são conectados. E se dizem orgulhosas de serem submissas. A propósito, muitas igrejas cristãs não aceitam o sacerdócio feminino. A maior parte de minha família frequenta uma igreja evangélica que possui muitas atividades bem bacanas (serviço comunitário, ensino de qualidade, acolhimento, etc) mas não permite que mulheres sejam pastoras. Eu voltaria a frequentar a igreja. Se mulheres pudessem falar (São Paulo também disse que mulher não podia falar na igreja). Se as mulheres pudessem ser pastoras, se essa imbecilidade de submissão deixasse de ser pregada e se os pastores parassem de falar besteira pseudocientífica, falando de Criacionismo, por exemplo. 

Muito simples: só eles falarem de Jesus, do amor de Cristo e do acolhimento. Já basta. Ah, São Paulo nem com Jesus conviveu (só para aqueles que não conhecem a história terem uma ideia).  

Como a gente vive numa sociedade machista, toda mulher tem um pouco de house woman dentro de si. Mate-a. Deixe a field woman viver dentro de você.

Ass.: Pastora Samantha [risos]

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