quinta-feira, 6 de março de 2014

Demonizando o Carnaval

Há uma certa apresentadora de telejornal que é a jumenta falante personificada. Ela ganhou notoriedade nacional após falar meia dúzia de besteiras repetidas por hipócritas. Veja o vídeo aqui, embora toda a internet já deve tê-lo visto.

É Sheherazade demonizando o Carnaval. E como eu disse, o discurso dela não é nenhuma novidade. Sua opinião não é polêmica ou inovadora. É apenas a mesma merda dita todos os anos nessa época do ano por aqueles que se aproveitaram da folga do feriado, mas não pularam carnaval. Para esses, carnaval é o que estraga o Brasil, é o responsável por todos os problemas sociais, políticos e de infraestrutura. 

Essa meia-dúzia de frases feitas foi o que fez Sheherazade ganhar notoriedade nacional. Fez ela sair de um telejornal local da Paraíba para ser âncora de um telejornal de abrangência nacional. Foi isso. Ela disse o que todo reacionário diz o tempo todo. Você já deve ter ouvido aquele tio chato falar isso no churrasco de família. Ou o síndico do seu prédio. Ou você mesmo talvez pense assim. Desculpe, acho você chato. 

Pra mim não faz sentido que uma festividade, comemorada de maneira diferente em todos os cantos do Brasil, seja a responsável por nossos problemas. Carnaval é arte e criatividade. Carnaval é provavelmente a primeira coisa que vem na mente de um estrangeiro que pensa sobre o Brasil. Uma amiga me disse que carnaval é uma festa democrática, onde ricos comemoram com pobres. Eu discordo parcialmente. Só ver a imagem abaixo:



 E só pensar também nos preços altíssimos para assistir um desfile no Rio ou em São Paulo. O parcialmente é por conta do carnaval de rua. Os blocos, as festas de rua... essas sim são democráticas. 

Infelizmente, o Carnaval no carnaval o machismo, a homofobia e a transfobia são recorrentes. Um grupo de moças raramente consegue festejar em paz, sem a interrupção de um homem (ou grupo de homens) desagradáveis, que acham que elas estão ali para servi-lo sexualmente. 


Campanha da Prefeitura do Rio de Janeiro: Rio sem Homofobia 

Piadinhas com travestis são comuns. Aquela piada de que os travestis estão esperando que os homens cis hetero fiquem bêbados para poder então "enganá-los". Se você riu de uma porcaria dessas, raciocine. Se você fosse uma mulher trans, gostaria de ser ridicularizada dessa maneira? Piada de péssimo gosto, que sugere que mulheres trans sejam predadoras sexuais, feias e dispostas a aproveitar-se de uma pessoa alcoolizada. Essa piada tosca é repetida todos os carnavais. 

 A mulher (trans ou cis) é vista como um objeto a ser conquistado. Isso acontece o ano todo, mas parece que no carnaval fica mais evidenciado. A Sheherazade não disse nada disso. Se tivesse dito, ganharia meu respeito como comentarista. Então sim ela levantaria uma questão importante, que nunca ouvi sendo mencionada na TV aberta. Mas ela preferiu continuar a serviço do patriarcado. Ela preferiu continuar com a velha idéia, com a velha ladainha de que o Carnaval é responsável por todos os problemas nacionais.

Os problemas do nosso país são culpa nossa. Sim. Minha e sua. Nós não votamos direito. Não fazemos nossa parte para um mundo melhor. Aplicamos a tal Lei de Gerson em tudo. Não cobramos nossos governantes. Criticamos quem se manifesta. Não temos orgulho do país e supervalorizamos tudo o que vem de fora. Não amamos nosso país de verdade. Não amamos ao nosso próximo. Esse é o grande problema do Brasil. Quatro dias de festa não são o problema. Poderíamos ter coisas muito boas e ainda festejar. Quatro dias sem trabalhar? Aff. Não somos eficientes, esse é o problema. Do que adiantaria trabalhar esses quatro dias? Ser workaholic é diferente de ser eficiente. 

Há ainda aqueles que odeiam o carnaval porque são roqueiros ou religiosos. E acham que por essa razão o evento não deveria existir. Um grande abraço para sua hipocrisia, que permitiu desfrutar de quatro dias de feriado e permitiu passar um tempo naquele retiro espiritual com seus irmãos. Sabe, aqui comparo com aquela velha imaturidade em não compreender que você não é o Estado. Isso mesmo! Suas opiniões talvez sejam irrelevantes para as outras pessoas. Você é livre para pensar e agir como quiser. Terá que ouvir as mesmas críticas (e em alguns casos até responder judicialmente) que você impõe aos outros. 

Se você não quer dançar frevo, não perturbe quem ama. Viva e deixe o outro viver!

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