quinta-feira, 20 de março de 2014

A grama do vizinho

Nas redes sociais, as pessoas editam a própria vida, mostrando apenas momentos de felicidade e glamour. Mas será que é só nas redes sociais? Atrás do rosto impecavelmente maquiado daquela moça da repartição será que não há alguém de coração partido?

Essa edição da própria vida sempre existiu. É que na internet ela é mais descarada, como um photoshop disaster. Recentemente li alguns posts do Blogueira Shame que mostravam essa edição descarada: pessoas que pegavam fotos bonitas na internet e postavam em suas contas do Instagram como se fosse sobre elas. Fotos lindas de pratos de restaurantes refinados. A foto do derrière alheio, como se fosse o próprio. Há pessoas que fazem mais do que editar a própria vida: inserem novos elementos. Como um chroma key onde posso sonhar que estou em Paris. 

Por que isso acontece? A edição da própria vida é normal. Talvez você não queira postar sua unha encravada, sua calcinha velha ou seu miojão com ovo. É mais bonito mostrar as férias naquele lugar bonito, a visita ao clube maravilhoso e o prato de um restaurante refinado que você foi numa ocasião especial. Somos atraídos pelo belo e pelo agradável.

Talvez aquela sua foto tenha ficado estranha. Essas espinhas e marcas que insistem em aparecer. Que mal faz colocar um filtro? E pouco a pouco, vamos construindo nossas vidas artificialmente perfeitas.

Isso me faz lembrar de dois filmes:  Total Recall (1990) e Surrogates (2009). No primeiro, o mercado dá uma interessante solução para quem não tem tempo ou dinheiro para tirar férias em um lugar paradisíaco ou para viver uma aventura: uma forma de fazê-lo artificialmente, implantando as memórias na mente do cliente. No segundo filme, as pessoas não precisam se expor na rua. Sabe aquele dia com uma espinha gigante em que você não quer sair de casa? Sabe o medo da violência, nas grandes cidades? O medo de um acidente? Não tem problema. É possível comandar um robô conectado ao seu centro nervoso. O robô pode ser uma versão melhorada da sua aparência. Uma versão indestrutível, que nunca envelhece e sempre está impecável. Esse robô, conectado ao seu centro nervoso, vai trabalhar para você, vai sair na rua, vai se divertir em um bar, vai poder ser assistente de palco de um programa de TV sem precisar recorrer a plásticas ou anabolizantes, vai poder praticar parkour sem medo de quebrar um pescoço, vai poder ser o que você queria ser.

Essa vida artificial não se aproxima desses filmes? E bem antes desses filmes, Baudelaire discutiu algo muito interessante em Paraísos Artificiais: o uso de substâncias psicotrópicas para atingir um "mundo ideal". Bom, será que algumas pessoas precisam tanto de elogios, precisam tanto que os outros tenham "inveja" delas que essa necessidade seria uma espécie de droga?

A tal da grama do vizinho.

Vejo esse ciclo se repetir de maneiras muito parecidas desde 1998, quando comecei a acessar a internet regularmente. Fulanos expõem suas vidas de maneira editada ou não, de modo a parecerem muito felizes. Beltranos, talvez com pessoas com as auto-estimas abaladas, sentem inveja. Gostariam de estar na pele dos fulanos. Muitos fulanos aparentam alimentar-se dessa inveja.

No fundo, acho que somos todos infelizes. 


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