segunda-feira, 31 de março de 2014

Somos todos machistas

Esta semana o resultado de uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Apliacada (IPEA) surpreendeu até os pesquisadores. Um dos tópicos da pesquisa era: “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Cerca de 65 % dos entrevistados disseram que concordam com essa frase (veja aqui a pesquisa na integra).
Logo após o resultado desta pesquisa um bando de grupo de homens começou a publicar frases de “apoio” ao movimento feminista do tipo “somos os 35%” ou “os 65% não nos representa”. Eu reconheço a boa vontade da rapaziada em ajudar o movimento feminista, mas na boa, muito ajuda quem não atrapalha. Porque sinceramente, dizer que “os 65% não nos representa” é a mesma coisa que dizer “já tava assim quando eu cheguei”. Eu cresci numa casa que as desculpas do tipo “não fui eu”ou “já tava assim quando eu cheguei” nunca colaram. Elas vinha sempre seguidas de “não interessa” e “vai limpar”.

Então os 65% não te representam? Quer dizer que em nenhum momento da sua vida você disse ou pensou ou concordou com essa frase? Ah, lindão! Nunca? Aparece um caso de estupro na TV e alguém diz: “mas também, olha a roupa que ela tava usando”. Nunca nem pensou, nem falou, nem concordou? Aposto que você também nunca disse “mulher tem que se dar o respeito”.

Mas daí eles vão dizer: “Uh, já pensei, mas hoje eu não penso mais assim”. Não interessa, somos todos machistas. O Machismo está dentro de mim e vai estar lá até o dia em que eu morrer. Eu fui criado para ser machista por uma cultura machista. Os 65% me representam sim e eu vivo uma luta diária para que eles fiquem presos num canto escuro do meu cérebro e nunca venham à tona de novo.

Meninões, ponham uma coisa na sua cabeça. Vocês são privilegiados! A Samantha já escreveu um texto chamado “homem pode ser feministas?”. Mas vocês querem contribuir para uma sociedade mais igual? Ótimo. Há muitas outras formas de fazer isso. E é fácil, basta vocês deixarem de fazer certas coisas. Vocês podem parar de chamar as mulheres de exageradas quando elas estão fazendo uma reinvidicação da qual vocês discordam. Elas podem decidir entre elas quem são as exageradas. Ninguém precisa da sua opinião. Vocês podem parar de tentar roubar a voz do movimento feminista. Quem tem que reinvindicar são elas. O seu papel é escutar.
Mas e a liberdade de expressão? Foi pro brejo quando percebeu que vocês não têm noção nenhuma do que é ser tratado diferente por causa do seu gênero. Mas vocês podem sim repreender outros homens quando eles fazem algo machista. Como aqueles caras que gostam de “elogiar” as mulheres pela rua. E principalmente, vocês podem parar de negar que vocês são machistas. Porque a solução começa com a aceitação.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Mansplaining e Gaslighting

Todos os dias acordo com o mantra:

Não arrume discussão na internet
Não arrume discussão na internet
Não arrume discussão na internet

Mas não adianta. É o mantra mais não-seguido do mundo. Tal qual a peixinha Dori, esqueço que prometi isso. A discussão do dia ocorreu no Twitter. Um cara que sigo dizia com um certo tom de indignação que a frase "nossa, ficou bom. já pode casar" não é sexista. Argumentei que era sexista sim, porque é normalmente dirigida para mulheres.

Ele então disse que já ouviu o "elogio" muitas vezes, quando faz algum prato delicioso. Eu reafirmei que na maioria das vezes, a frase é dirigida para mulheres. E lembrei o sujeito que essa frase reforça nossa idéia de servir, de ficar na cozinha, reforça nosso papel de house woman. Lembrei o cidadão que ainda hoje as tarefas domésticas não são igualmente divididas na maioria dos lares.

O moço, que por sinal é muito educado, reconheceu o machismo na sociedade mas ainda considera a frase bobinha. Chegou a comparar a frase com a clássica dos churrascos aos domingos: pavê ou 'pacumê'. Lembrei que o diabo mora nos detalhes e que a frase tem evidente cunho sexista, já que na maioria das vezes é dirigida para as mulheres.

O moço então disse que não passava de uma neurose. Comentei com ele que sempre somos neuróticas ou histéricas. A partir deste ponto da discussão, os tweets foram:



Repare no tweet maior: se já ouviu tanto isto, talvez em algum momento deve ter exagerado, não? Ou você estava sempre certa?

Bingo. 

Mais uma do patriarcado. O mansplaining e o gaslighting, conceitos que sempre se misturam. Essas duas formas de abuso mental misturam-se e muitas vezes quem pratica age com tanta naturalidade que não percebe nem que está desrespeitando.

Muitas vezes, os homens que praticam mansplaining e gaslighting nem se consideram machistas. O mansplaining é quando um homem, do alto do seu privilégio, quer explicar para a mulher quando ela tem o direito de se sentir oprimida ou não. Quando o moço aí acima disse que "é apenas uma frase boba", ele está me dizendo que eu não tenho o direito de me sentir oprimida por essa frase.

O gaslighting é uma forma de abuso ainda pior, já que o objetivo do abusador e fazer a vítima enlouquecer. O termo vem de um filme da década de 40, que tem como protagonista a lendária Ingrid Bergman. No filme, um marido tenta convencer a própria mulher e conhecidos que a mulher é louca, manipulando elementos do cotidiano.

Sabe aquele cara que agride a mulher fisicamente e quer convencê-la de que ela mereceu aquilo? Ou quer convencer que não houve agressão, que tudo foi um mal entendido? Sabe quando uma mulher denuncia que foi vítima de estupro, mas ninguem acredita nelas porque o agressor é um cara poderoso/renomado? Ou quando diz que "foi sexo consensual, a mulher é que não lembra"? Foi o que aconteceu com essas oficiais da Marinha dos Estados Unidos. Depois de denunciarem violência sexual, elas foram diagnosticadas com distúrbios psiquiátricos. Aqui no Brasil, lembro do caso do médico Roger Abdelmassih, foragido da justiça, procurado pela Interpol. Ele abusou de várias pacientes de sua clínica de reprodução humana. Além dos abusos, foram encontradas diversas irregularidades na clínica. Lembro que na época em que os abusos foram denunciados, sugeriram que as vítimas é que seduziram o médico, sugeriram que era efeito da anestesia, sugeriram que as vítimas queriam se vingar porque o tratamento não deu certo, etc. Demorou até que os testemunhos dessas mulheres fossem de fato ouvidos e respeitados. Isso é gaslighting.

Muitos homens não se consideram machistas. Mas infelizmente, são. São porque nossa sociedade é machista. Por mais que vocês tenham sido criados em um lar progressista, infelizmente a escola, os amigos, algum parente, etc pode ter exercido algum tipo de influência em sua criação que os fazem ser um pouco machistas. Estamos inseridos dentro de um contexto cultural que influencia nosso caráter. Acreditar que não existe machismo, racismo, homofobia ou transfobia é silenciar as vítimas. Temos que olhar para dentro de nós mesmos, reconhecermos nossos privilégios e nossos erros e pecados.

Nos deram espelhos e vimos um mundo doente. Índios - Legião Urbana.



segunda-feira, 24 de março de 2014

Verdades inconvenientes

A ciência muitas vezes apresenta verdades inconvenientes. Ou seja, resultados que são contrários à crença, visão política ou interesses econômicos de certos gruos. As pessoas então rejeitam estes resultados simplemsmente porque elas não querem aceitar. Mas a ciência é assim, ela mostra as coisas como elas são, doa a quem doer.

Comumente descobertas ciêntíficas são menosprezadas com uma simples frase: “Ah, isso é apenas uma teoria.” A gente confunde a palavra teoria com a palavra hiótese, talvez pelo fato de usarmos a palavra teoria de forma coloquial no dia a dia. Como aquele seu amigo que tem uma “teoria” de que todo chinês é mimado porque na China todo mundo é filho único. Na verdade seu amigo racista tem uma hipótese. Uma hipótese pode ser qualquer idéia maluca que ainda não foi verificada cientificamente. Já teoria é a melhor explicação científica possível baseada em toda evidência existente.

Uma teoria está sempre se adaptando à nova informação. Mas isso não quer dizer que ela está errada. Por exemplo, Charles Darwin ficou conhecido por suas descobertas científicas a respeito da seleção natural. Mas já havia avanços científicos antes de Darwin e muitas novas evidências têm sido encontradas após Darwin. Um outro exemplo famoso é a teoria do Big Bang. Recentemente uma nova evidência foi encontrada. Ainda está no processo de verificação. Mas se essa nova evidência for comprovada, acrescentamos mais uma peça ao quebra-cabeça. É possível que no futuro achemos uma evidência tão forte que mude estas teorias radicalmente? Sim. Mas é muito improvável que a idéia principal destas teorias seja mudada radicalmente, porque já temos muitas e muitas evidências para suportar estas teorias. Elas são verdades científicas.

Dizer que algo é apenas uma teoria é como dizer que a gravidade é apenas uma teoria. Sim, a gravidade é uma teoria. E você não vê ninguém na rua saindo voando pelo espaço espontaneamente.

Existe muita “desiformação” por aí, especialmente nas redes sociais. Você certamente já ouviu boatos de que uma certa vacina causa autismo. Que alimentos geneticamente modificados fazem mal à saúde. Que o aquecimento global é uma farsa. Existem coisas muito mais absurdas. Algumas pessoas não acreditam que o Holocausto ocorreu. Outras não acreditam que a AIDS existe. Certas pesoas não acreditam que o homem pisou na Lua. Esses boatos causam muitos problemas. A Samantha já falou sobre o problema destes boatos sobre vacinas e eu já comentei do problema do lobby das empresas de combustíveis fósseis.

É claro que temos que ficar atentos à falta de ética de certas empresas. Fiscalizar as atividades e investigar e punir abusos movidos pela maximização do lucro. Mas isso não pode ser feito de forma a negar a ciência. Imagine o caso da engenharia genética. Nós já temos feito isso há milhares de anos. O seu cachorro de estimação é um lobo geneticamente modificado. O milho que a gente come é um pedaço de mato geneticamente modificado. Se a gente pode fazer isso cruzando espécies ao longo dos anos, porque não fazê-lo num laboratório? Imagine que a gente pudesse pegar uma mandioca, que é algo sem muito valor nutritivo, e apenas inserir um bando de vitaminas através de engenharia genética. Qual seria o impacto disso na fome no mundo?
Mas se a gente ficar espalhando que a mandioca vai fazer mal simplesmente para punir a empresa inescrupulosa que decidiu comercializar a mandioca, todo mundo perde. Porque aquela empresa não é o único grupo utilizando essa tecnologia.

Temos que aprender a filtrar as informações e entender que a ciência às vezes nos diz o que não queremos ouvir.

quinta-feira, 20 de março de 2014

A grama do vizinho

Nas redes sociais, as pessoas editam a própria vida, mostrando apenas momentos de felicidade e glamour. Mas será que é só nas redes sociais? Atrás do rosto impecavelmente maquiado daquela moça da repartição será que não há alguém de coração partido?

Essa edição da própria vida sempre existiu. É que na internet ela é mais descarada, como um photoshop disaster. Recentemente li alguns posts do Blogueira Shame que mostravam essa edição descarada: pessoas que pegavam fotos bonitas na internet e postavam em suas contas do Instagram como se fosse sobre elas. Fotos lindas de pratos de restaurantes refinados. A foto do derrière alheio, como se fosse o próprio. Há pessoas que fazem mais do que editar a própria vida: inserem novos elementos. Como um chroma key onde posso sonhar que estou em Paris. 

Por que isso acontece? A edição da própria vida é normal. Talvez você não queira postar sua unha encravada, sua calcinha velha ou seu miojão com ovo. É mais bonito mostrar as férias naquele lugar bonito, a visita ao clube maravilhoso e o prato de um restaurante refinado que você foi numa ocasião especial. Somos atraídos pelo belo e pelo agradável.

Talvez aquela sua foto tenha ficado estranha. Essas espinhas e marcas que insistem em aparecer. Que mal faz colocar um filtro? E pouco a pouco, vamos construindo nossas vidas artificialmente perfeitas.

Isso me faz lembrar de dois filmes:  Total Recall (1990) e Surrogates (2009). No primeiro, o mercado dá uma interessante solução para quem não tem tempo ou dinheiro para tirar férias em um lugar paradisíaco ou para viver uma aventura: uma forma de fazê-lo artificialmente, implantando as memórias na mente do cliente. No segundo filme, as pessoas não precisam se expor na rua. Sabe aquele dia com uma espinha gigante em que você não quer sair de casa? Sabe o medo da violência, nas grandes cidades? O medo de um acidente? Não tem problema. É possível comandar um robô conectado ao seu centro nervoso. O robô pode ser uma versão melhorada da sua aparência. Uma versão indestrutível, que nunca envelhece e sempre está impecável. Esse robô, conectado ao seu centro nervoso, vai trabalhar para você, vai sair na rua, vai se divertir em um bar, vai poder ser assistente de palco de um programa de TV sem precisar recorrer a plásticas ou anabolizantes, vai poder praticar parkour sem medo de quebrar um pescoço, vai poder ser o que você queria ser.

Essa vida artificial não se aproxima desses filmes? E bem antes desses filmes, Baudelaire discutiu algo muito interessante em Paraísos Artificiais: o uso de substâncias psicotrópicas para atingir um "mundo ideal". Bom, será que algumas pessoas precisam tanto de elogios, precisam tanto que os outros tenham "inveja" delas que essa necessidade seria uma espécie de droga?

A tal da grama do vizinho.

Vejo esse ciclo se repetir de maneiras muito parecidas desde 1998, quando comecei a acessar a internet regularmente. Fulanos expõem suas vidas de maneira editada ou não, de modo a parecerem muito felizes. Beltranos, talvez com pessoas com as auto-estimas abaladas, sentem inveja. Gostariam de estar na pele dos fulanos. Muitos fulanos aparentam alimentar-se dessa inveja.

No fundo, acho que somos todos infelizes. 


segunda-feira, 17 de março de 2014

A liberdade segundo Bombardi

Quando criança eu sempre fui um dos mais baixinhos, mais introvertidos e mais nerds. Então, pode ter certeza que eu era um dos mais zuados. Lembro de uma vez, ainda muito pequeno, vir chorando pra minha mãe pra contar que os outros meninos implicavam comigo. Ela então me deu um conselho que me libertou para sempre. Ela disse: "Ah seu bobo, não liga pra eles! Eles implicam porque eles gostam de você. Tira sarro deles também". Tudo bem, talvez minha mãe não ganharia o prêmio de psicóloga infantil do sécolo 21. Mas funcionou pra mim na década de 80. Daquele dia em diante eu me tornei cada vez mais livre.

Mas não foi só da zueira que ela me libertou, ela me libertou de uma prisão muito maior. O vídeo abaixo expressa essa idéia muito bem. A idéia de que "a verdadeira liberdade é a realidade mais óbvia e importante, mas que costuma ser a mais difícil de se ver ou de se discutir". Esse vídeo mostra como podemos simplesmente "viver a vida de um modo automático, aceitando que aquela é a única realidade possível e que o resto do mundo é composto por pessoas estúpidas, mal educadas e repulsivas que só estão ali para nos atrapalhar". A alternativa é fazer uma "escolha consciente". É difícil, leva tempo. Mas "se você quiser realmente aprender como pensar, como prestar atenção, então você vai perceber que existem outras opções".



Essa idéia é particularmente importante para jovens de baixa renda. Aqueles que estão aí lutando pelo privilégio de estudar em uma universidade, por um emprego melhor, por uma vida melhor. É pra vocês que esta escolha é crucial. Assim como vocês, eu tive que lutar por estas coisas. E eu comecei o meu caminho ainda dentro de uma prisão. Eu queria subir na vida para poder ser livre. Livre para fazer o que eu quisesse. Livre para ter tudo aquilo que eu sempre quis e nunca pude ter em minha juventude. Um carrão, as melhores roupas de marca, frequentar as melhores baladas, etc... Mas a ironia é que o caminho que eu segui para conquistar estas coisas foi o mesmo caminho que me fez perceber o que é realmente importante. Estas coisas só servem para nos prender numa vida de aparências.

Cursinho Popular TRIU.
Há 11 anos oferecendo oportunidades a jovens de baixa renda.
Pense em todas as outras coisas que nos prendem. Pense em como você deixa de fazer algo que te faria feliz porque seus amigos tirariam sarro de você. “Não liga pra eles!” Pense no relacionamento afetivo abusivo que você acredita que deve manter porque a sociedade te diz que “é a coisa certa a fazer”. “Não liga pra eles!” Pense nos familiares que te desencorajam a seguir seus sonhos, porque eles querem te proteger por terem se machucado perseguindo seus prórpios sonhos. “Não liga pra eles!” Pense na culpa que sentimos associada a todo discurso moralista que nos diz quem devemos ser ou quem devemos amar. “Não liga pra eles!” Homem não chora. “Não liga pra eles!” Mulher tem que se dar o respeito. “Não liga pra eles!” Estudar é coisa de rico, pobre tem é que trabalhar. “Não liga pra eles!”

Como o vídeo diz: “o valor real de uma educação real não tem nada a ver com conhecimento, mas tudo a ver com simples consciência ”. Então, jovens, eu deixo um conselho:
"Se você entender o sistema, você vence o sistema. Liberte-se"

quinta-feira, 13 de março de 2014

Liberdade x Submissão: não deixe seu líder religioso te enganar

Outro dia uma amiga me marcou nessa postagem da Cientista que Virou Mãe (que a propósito é uma ótima página). Vou pegar a imagem da postagem aqui para que vocês entendam do que se trata e para ilustrar o assunto que vou discutir nesse post.

É uma foto de uma edição de um jornal da Igreja Universal do Reino de Dinheiro Deus  (IURD). É um caderno desse jornal que é específico para doutrinar as mulheres. Não li a reportagem (e nem quero perder meu tempo). Peguei o título da matéria para debater o simples. Vamos pegar o dicionário, hábito que deveria ser comum nas igrejas de um modo geral, já que há versões da bíblia que são traduções muito antigas. 


Para vocês terem uma ideia, um dos principais tradutores protestantes da bíblia para o português foi João Ferreira de Almeida que fez esse trabalho no século XVII. Depois disso, várias revisões e atualizações foram feitas e a versão que ainda vejo por ai (inclusive tenho uma bíblia dessas) é a Almeida Revista e Atualizada, cuja primeira publicação é de 1959. Muitas palavras que estão na minha bíblia não são mais tão comuns atualmente e evidentemente desconheço o sentido delas. Por isso uma leitura com um dicionário é muito importante. Claro que também versões da Bíblia adaptadas para a linguagem atual, mas ainda assim muitos conceitos são referentes àquele tempo (estamos falando de coisas de mais de 2000 anos atrás, no mínimo), então um dicionário é obrigatório durante a leitura.

Então peguei um dicionário (esse aqui) e procurei o significado das palavras. Postei no meu mural do Facebook que é pra chamar a atenção das evangélicas que conheço:


sub·mis·são (latim submissus, -a, -um, particípio passado de submissio, -onis) substantivo feminino 1. .Ato ou efeito de submeter ou de se submeter. = SUBMETIMENTO 2. Obediência. 3. Sujeição. 4. Humildade. 

li·ber·da·de (latim libertas, -atis) substantivo feminino 1. Direito de proceder conforme nos pareça, contanto que esse direito não vá contra o direito de outrem. 2. Condição do homem ou da nação que goza de liberdade. 3. Conjunto das .ideias liberais ou dos direitos garantidos ao cidadão. 4. [Figurado] Ousadia. 5. Franqueza. 6. Licença. 7. Desassombro. 8. Demasiada familiaridade. 

Então fiz uma perguntinha retórica muito simples:

o que submissão tem a ver com liberdade? 

NADA.

Não tem nada a ver. E da onde vem essa história de que mulher cristã tem que ser submissa? Bom, ter sido uma das melhores alunas da Escola Dominical vai ser útil agora:

Na carta aos Efésios 5:22,24, São Paulo escreveu:
"As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao Senhor.... Como, porém, a Igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo submissas ao seu marido" (Efésios 5:22,24).

E São Paulo também escreveu na carta aos Colossensses 3:18:
 "Esposas, sede submissas ao próprio marido, como convém no Senhor" (Colossenses 3:18).

E São Paulo também escreveu na carta a Tito 2:3-5:
Disse que as mulheres deveria ser "…sujeitas ao marido, para que a palavra de Deus não seja difamada" (Tito 2:3-5).

São Pedro também decidiu cagar regra em sua epístola 1 Pedro 3:1:
 "Mulheres, sede vós, igualmente, submissas a vosso próprio marido..."

E há outras passagens. Não me lembro agora, essas foram as que encontrei consultando minha bíblia.

Não sei da onde veio a tradução do termo, não vou discutir isso. Vamos falar do jeito que está escrito em português, do jeito que é ministrado nas igrejas. E quando pego as palavras submissão e liberdade, vejo que elas tem significados antagônicos. E eu não gosto disso.

A IURD não é a única igreja do espectro do Cristianismo a defender a submissão feminina. Quase todas as igrejas evangélicas (Protestantes e Pentecostais) defendem isso e a Igreja Católica também defende isso. Talvez algumas igrejas digam que não é bem assim. E para isso usam algumas maracutaias teológicas muito loucas, tacanhas e sem vergonhas. 


Nessas maracutaias teológicas dizem que submissão não é inferioridade (o que é então?) e que na verdade é liberdade, é o plano-de-Deus-perfeito-nas-nossas-vidas, é da forma que Deus planejou o mundo, porque Deus inventou a mulher pra completar o homem, porque é Adão e Eva e não Adão e Ivo, porque o homem é a cabeça e a mulher é o pescoço (somos burras também, claro). Enfim, todas essas maracutais convencem a maioria das house woman. 

As house women são as mulheres que favorecem a estrutura do patriarcado e nem percebem. Adaptei o termo usado por Malcolm X em muitos discursos, que usava o termo (que na verdade é pejorativo) house nigger para se referir aos negros em uma situação paralela (mencionei nisso numa resenha que fiz de O Mordomo da Casa Branca, leia aqui). 

As house women (o que não tem nada a ver com ser dona de casa, porque ser dona de casa em tempo integral não impede ninguém de ser feminista, por favor) contribuem para a manutenção da estrutura patriarcal porque foram criadas dentro dessa estrutura e não tiveram o estímulo necessário para pensar fora da caixinha. Não gosto de chamar outras mulheres de machistas, acho que temos que nos unir e educar as mulheres para que elas coloquem o feminismo na vida delas. 

Temos nesse vídeo de uma famosa igreja evangélica o exemplo de 5 house women juntas que estão doutrinando outras house women e que durante o discurso, falam como educam suas menininhas a serem pequenas house girls. É triste demais ver que isso continua acontecendo. A house women é aquela mulher que permite que seu garotão traga a namorada pra casa e deixa ele sair para badalar de noite porque ele é apenas um rapaz bonito que quer aproveitar, mas impede que sua filha traga o namorado para dormir em casa. Essa mulher anula-se para agradar seu marido, mantém-se casada (porque a tal família-feliz de comercial - nem que for de aparência - é importante) , é responsável pela manutenção do casamento (mulher tem que prender o marido), as vezes tem dupla jornada e não se queixa, reproduzem o discurso do seu líder religioso, etc. Você certamente conhece uma house women. Algumas delas inclusive criticam o feminismo, dizem que somos radicais.

As house women criticam a aparência das outras mulheres. Criticam as mulheres livres  - a field women -, pois elas tem uma vida sexual variada. Quando ofendem outras mulheres, falam de sua suposta ou não promiscuidade. Quando o casamento da vizinha acaba após 30 anos, a culpada é a secretaria gostosa do marido, aquela destruidora de lares. Não, a culpa jamais é do marido, sempre da outra. As house women não acreditam em sororidade e reproduzem discursos machistas (trabalhar com homens é mais fácil, mulheres são competitivas mesmo, apanhou porque mereceu, foi estuprada porque usou roupa curta e encheu a cara, etc). 

As house women cristãs acreditam nas palavras do líder religioso (que na maioria das vezes é um homem) que subimissão e liberdade são conectados. E se dizem orgulhosas de serem submissas. A propósito, muitas igrejas cristãs não aceitam o sacerdócio feminino. A maior parte de minha família frequenta uma igreja evangélica que possui muitas atividades bem bacanas (serviço comunitário, ensino de qualidade, acolhimento, etc) mas não permite que mulheres sejam pastoras. Eu voltaria a frequentar a igreja. Se mulheres pudessem falar (São Paulo também disse que mulher não podia falar na igreja). Se as mulheres pudessem ser pastoras, se essa imbecilidade de submissão deixasse de ser pregada e se os pastores parassem de falar besteira pseudocientífica, falando de Criacionismo, por exemplo. 

Muito simples: só eles falarem de Jesus, do amor de Cristo e do acolhimento. Já basta. Ah, São Paulo nem com Jesus conviveu (só para aqueles que não conhecem a história terem uma ideia).  

Como a gente vive numa sociedade machista, toda mulher tem um pouco de house woman dentro de si. Mate-a. Deixe a field woman viver dentro de você.

Ass.: Pastora Samantha [risos]

segunda-feira, 10 de março de 2014

O Dia da Mulher

Aproveitano o dia do mulher neste ultimo sábado eu vim aqui propor uma reflexão aos cuecas de plantão. O dia da mulher não é só pra você dizer parabéns, mandar flores e agradar não. É um dia pra você refletir sobre como as mulheres são tratadas em nossa sociedade.

Por exemplo, há um tempo atrás eu vi uma reportagem que para uma mulher assumir um cargo de delegada na Bahia ela teria que se sujeitar a exames vaginais super desconfortáveis. Pra que? Só pode ter sido idéia de homem que não quer ver mulher trabalhando como delegada. Nada mais justo do que exigir também um exame de toque em todo homem que queira ser delegado. Dai a gente vê se sensibiliza ou não.

Sensibilizar? Que é isso, mano? Já não basta minha mãe, minha namorada/esposa me cobrando para ser mais sensível? Agora vem esse cueca me cobrar isso também? Sim filho, mas eu não quero saber o que você tá sentindo não. Eu quero é que pelo menos uma vez na sua vida você se coloque no lugar dos outros antes de despejar sua opinião de menino mimado em todos ao seu redor. O vídeo abaixo coloca coisas em perspectiva para os colegas sem muita imaginação.



A gente reclama que não existe um dia do homem, mas a gente não ouve gracinhas na rua todo dia. A gente não recebe 27% a menos de salário para realizar a mesma função que uma pessoa do sexo oposto. A gente não é julgado pela forma como nos vestimos ou pela forma do nosso corpo ou pela quantidade de pessoas com quem fomos pra cama. E mais importante, quando a gente sai na rua a gente não precisa ter medo de que alguma mulher vá nos seguir e nos forçar a transar com ela.

Então, quer agradar as mulheres? Comece por parar de ficar “elogiando” mulheres que você nem conhece pela rua. Pare de dizer para as mulheres se darem o respeito. Pare de julgar as mulheres pelas roupas que elas usam e pare de responsabilizar as mulheres pelas violências que nós cometemos. Nenhum comentário sobre um caso de violência contra uma mulher deveria começar com as palavras “Mas também”, “Mas olha só”, “Mas ela” ou “Mas”. Não é o comportamento da mulher que tem que ser analisado. Parem de ensinar seus filhos que “homem que é homem não chora” e comecem a ensiná-los que “homem que é homem respeita”

quinta-feira, 6 de março de 2014

Demonizando o Carnaval

Há uma certa apresentadora de telejornal que é a jumenta falante personificada. Ela ganhou notoriedade nacional após falar meia dúzia de besteiras repetidas por hipócritas. Veja o vídeo aqui, embora toda a internet já deve tê-lo visto.

É Sheherazade demonizando o Carnaval. E como eu disse, o discurso dela não é nenhuma novidade. Sua opinião não é polêmica ou inovadora. É apenas a mesma merda dita todos os anos nessa época do ano por aqueles que se aproveitaram da folga do feriado, mas não pularam carnaval. Para esses, carnaval é o que estraga o Brasil, é o responsável por todos os problemas sociais, políticos e de infraestrutura. 

Essa meia-dúzia de frases feitas foi o que fez Sheherazade ganhar notoriedade nacional. Fez ela sair de um telejornal local da Paraíba para ser âncora de um telejornal de abrangência nacional. Foi isso. Ela disse o que todo reacionário diz o tempo todo. Você já deve ter ouvido aquele tio chato falar isso no churrasco de família. Ou o síndico do seu prédio. Ou você mesmo talvez pense assim. Desculpe, acho você chato. 

Pra mim não faz sentido que uma festividade, comemorada de maneira diferente em todos os cantos do Brasil, seja a responsável por nossos problemas. Carnaval é arte e criatividade. Carnaval é provavelmente a primeira coisa que vem na mente de um estrangeiro que pensa sobre o Brasil. Uma amiga me disse que carnaval é uma festa democrática, onde ricos comemoram com pobres. Eu discordo parcialmente. Só ver a imagem abaixo:



 E só pensar também nos preços altíssimos para assistir um desfile no Rio ou em São Paulo. O parcialmente é por conta do carnaval de rua. Os blocos, as festas de rua... essas sim são democráticas. 

Infelizmente, o Carnaval no carnaval o machismo, a homofobia e a transfobia são recorrentes. Um grupo de moças raramente consegue festejar em paz, sem a interrupção de um homem (ou grupo de homens) desagradáveis, que acham que elas estão ali para servi-lo sexualmente. 


Campanha da Prefeitura do Rio de Janeiro: Rio sem Homofobia 

Piadinhas com travestis são comuns. Aquela piada de que os travestis estão esperando que os homens cis hetero fiquem bêbados para poder então "enganá-los". Se você riu de uma porcaria dessas, raciocine. Se você fosse uma mulher trans, gostaria de ser ridicularizada dessa maneira? Piada de péssimo gosto, que sugere que mulheres trans sejam predadoras sexuais, feias e dispostas a aproveitar-se de uma pessoa alcoolizada. Essa piada tosca é repetida todos os carnavais. 

 A mulher (trans ou cis) é vista como um objeto a ser conquistado. Isso acontece o ano todo, mas parece que no carnaval fica mais evidenciado. A Sheherazade não disse nada disso. Se tivesse dito, ganharia meu respeito como comentarista. Então sim ela levantaria uma questão importante, que nunca ouvi sendo mencionada na TV aberta. Mas ela preferiu continuar a serviço do patriarcado. Ela preferiu continuar com a velha idéia, com a velha ladainha de que o Carnaval é responsável por todos os problemas nacionais.

Os problemas do nosso país são culpa nossa. Sim. Minha e sua. Nós não votamos direito. Não fazemos nossa parte para um mundo melhor. Aplicamos a tal Lei de Gerson em tudo. Não cobramos nossos governantes. Criticamos quem se manifesta. Não temos orgulho do país e supervalorizamos tudo o que vem de fora. Não amamos nosso país de verdade. Não amamos ao nosso próximo. Esse é o grande problema do Brasil. Quatro dias de festa não são o problema. Poderíamos ter coisas muito boas e ainda festejar. Quatro dias sem trabalhar? Aff. Não somos eficientes, esse é o problema. Do que adiantaria trabalhar esses quatro dias? Ser workaholic é diferente de ser eficiente. 

Há ainda aqueles que odeiam o carnaval porque são roqueiros ou religiosos. E acham que por essa razão o evento não deveria existir. Um grande abraço para sua hipocrisia, que permitiu desfrutar de quatro dias de feriado e permitiu passar um tempo naquele retiro espiritual com seus irmãos. Sabe, aqui comparo com aquela velha imaturidade em não compreender que você não é o Estado. Isso mesmo! Suas opiniões talvez sejam irrelevantes para as outras pessoas. Você é livre para pensar e agir como quiser. Terá que ouvir as mesmas críticas (e em alguns casos até responder judicialmente) que você impõe aos outros. 

Se você não quer dançar frevo, não perturbe quem ama. Viva e deixe o outro viver!

segunda-feira, 3 de março de 2014

A importância da representatividade

Quando Gene Roddenberry criou a série de TV Star Trek, ele imaginou um futuro com pessoas de todas as raças e gêneros trabalhando juntas como iguais. A idéia original era inclusive ter uma mulher como primeiro oficial (segundo em comando) da espaçonave Enterprise. Mas essa idéia era radical demais para a década de 60.

Nichelle Nichols como
tenente Uhura.



Mesmo assim, apesar de ser um programa de ficção científica, a série deu destaque para questões sociais em horário nobre da TV. Acredito que a pricipal contribuição para o movimento dos direitos civis da época foi ter como uma das personagens principais a tenente Uhura, interpretada por Nichelle Nichols. A tenente Uhura apresentou uma mulher negra trabalhando de igual para igual com homens brancos. Dentre as diversas lutas do feminismo da época estava, pasmem, direitos iguais à educação. Já os negros mal podiam frequentar os mesmos lugares que os brancos.

Nichelle chegou a cogitar a abandonar a série de TV porque ela queria tentar uma carreira na Broadway. Mas o Dr. Martin Luther King Jr. em pessoa a convenceu a continuar na séria, dada a importância da personagem para a representatividade de mulheres e negros na TV. Ele a disse que ela não poderia desistir da série porque ela estava interpretando um papel vital como modelo para crianças negras e para jovens mulheres. A personagem era importante também para que as outras crianças vissem as crianças negras como iguais. Ele ainda acrescentou: "Once that door is opened by someone, no one else can close it again" (Uma vez que essa porta é aberta por alguém, ninguém mais pode fechá-la novamente).

E de fato foi importante. Foi importante por exemplo para o jovem Ronald McNair, um garoto negro que cresceu no estado da Carolina do Sul. Um estado famoso por ser bastante conservador. O blog upworthy publicou uma história engraçada e comovente sobre a infância de Ronald. Enquanto o irmão de Ronald pensava em Star Trek como sendo ficção científica, Ronald via aquilo como possibilidade científica. Ronald cresceu em um mundo onde havia pessoas como Neil Armstrong e sonhava que um dia um garoto negro da Carolina do Sul, que usava óculos e que nunca poderia pilotar um avião se tornaria um astronauta.

Dr. Ronal McNair.
Ronald cresceu, se tornou Dr. McNair e realizou seu sonho de se tornar um astronauta. Ronald participou em uma missão em fevereiro de 1984 tornando-se o segundo homem negro a voar no espaço. Infelizmente, sua segunda missão foi a bordo do ônibus espacial Challenger em Janeiro de 1986. A Challenger explodiu 73 segundos após sua decolagem.

Hoje em dia algumas pessoas acham um absurdo ver um beijo entre pessoas do mesmo sexo na TV. Pois bem, Nichelle Nichols e Willian Shatner interpretaram o primeiro beijo interracial entre brancos e negros da TV americana. Já pensou o tamanho do desconforto que isso trouxe às “famílias de bem” da década de 60? Eu duvido que um beijo consensual entre dois adultos possa trazer qualquer malefício para a sociedade. Mas tenho certeza que esse mesmo beijo pode inspirar alguém a conquistar seus sonhos.