quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Quando o oprimido não percebe a opressão

Outro dia eu estava re-assistindo Fresh Prince of Bel Air (que no Brasil foi transmitido como "Um maluco no Pedaço"). É um de meus seriados favoritos, pois admiro muito o trabalho de Will Smith e dos demais atores da série. Além disso, há diversos episódios em que o preconceito racial é discutido. E foi um deles que me fez pensar nesse post.


O interessante é que quando assisti a série pela primeira vez eu tinha uns 15 ou 16 anos e apenas dava risada da dancinha do Carlton, das afetações da Hilary e do clássico em que Tio Phil joga Jazz pra fora de casa. Mas ainda assim, a série me proporcionava alguns momentos de reflexão. Na época eu não dava muito valor, mas hoje percebo o quanto a série ajudou a moldar o meu caráter.

Há um episódio especificamente em que Will e Carlton  precisam levar um carro de luxo de Bel Air para uma cidade mais afastada. Esse carro é propriedade de um dos colegas advogados de Tio Phil. Os rapazes não conhecem o caminho e se perdem. Eis que um policial pára o carro deles.

Aqui preciso explicar um pouco antes de prosseguir, para aqueles que não conhecem a série. Will cresceu na Filadélfia e viu de perto a criminalidade, a violência policial e o racismo. Carlton cresceu em uma luxuosa casa em Bel Air, pois seu pai (Phil) é advogado e sua mãe (Vivian) é professora universitária. Carlton só tem amigos brancos e veste-se como um rapaz branco de classe média alta. No começo da série, Carlton não tem noção de que é negro. Seu pai, Phil, participou de protestos pela igualdade social e viu Malcolm X discursar. Depois de muito esforço pessoal e depois de nadar muito contra a corrente, Phil tornou-se prestigiado e rico advogado. Apesar de no momento estar acomodado em sua posição de homem rico, Phil sabe de onde veio e conhece a luta por igualdade racial.

Continuando o episódio em questão. Quando o policial aparece, Will já sabe o que fazer. E diz para Carlton ficar com as mãos no volante. Carlton ignora o conselho do primo e age como um homem branco, cumprimentando o policial de maneira exageradamente simpática e dando explicações desnecessárias. Antes das decisões do policial, Will já sabe o que vai acontecer: o oficial vai mandá-los descer do carro. Eles descem e Will já assume a posição que a sociedade espera dele tem que assumir nessas situações: encostar o rosto no capô do carro com as mãos para traz. Como minha narração não é lá essas coisas, encontrei o vídeo dessa cena para os leitores acompanharem:


Fiquei lembrando de uma música que gosto:

"If you're black you might as well not shown up on the street
'Less you wanna draw the heat."

"Se você é negro, melhor nem aparecer na rua,
a não ser que queira chamar a atenção da polícia"

Bob Dylan - Hurricane

Então Carlton e Will vão presos sob a acusação de roubo pois os policiais não acreditam na história deles. Will e Carl não são ouvidos pelos policiais, em nenhum momento. E Carlton não consegue contatar seus pais.  Eles precisam confessar o crime e exigir a presença da imprensa, para que os pais, que estão assistindo TV com os amigos, saibam do caso pela TV.

Poucas horas depois os pais de Carlton e o dono do carro aparecem na delegacia. É muito interessante notar como os pais de Carlton são tratados: com descaso e desrespeito. Quando o dono do carro, que é amigo da família e é branco aparece, o tratamento é completamente diferente.

Depois de ameaçar de processar o delegado por irregularidade nas prisões dos rapazes, tio Phil os leva pra casa. Carlton acredita que foi preso porque tudo não passou de um grande mal entendido. O rapaz não consegue perceber que foi vítima de racismo.

Esse episódio me fez pensar em diversos casos que conheço na vida real. Vou dar exemplos:

- Outro dia eu conversava com um grupo de pessoas. Falávamos sobre cotas raciais e sociais. Duas moças que estavam no grupo, eram negras e eram totalmente contra as cotas. Porque para elas "todo mundo é igual e não há necessidade dessa medida preconceituosa'";
- Outro dia eu estava em um salão de beleza, aguardando minha vez para ser atendida. Uma outra cliente, que já estava sendo atendida, era negra. Ela começou a dizer que homem negro é feio, que homem branco é bonito, e que felizmente ela tinha os "traços delicados herdados de sua avó italiana".
- Outro dia eu estava no Twitter e um rapaz gay começou a dizer que os gays que apanhavam eram os afeminados, que 'não sabiam respeitar a presença de idosos e crianças na rua' e 'que se beijavam em qualquer lugar' e 'que não eram discretos'.
- Não consigo nem contar a quantidade de vezes que uma mulher culpou uma outra mulher pelo estupro que sofreu (como no caso do Big Brother, em que uma moça foi abusada enquanto estava desacordada). Ou quando uma mulher culpa outra mulher pela violência doméstica que sofreu. Ou quando uma mulher diz "que ela é moça de família, enquanto fulana é fácil, sai com qualquer um". 

Algumas pessoas, dentro de grupos que sofrem preconceito, consideram-se imunes ao preconceito. Ou porque elas possuem um maior poder aquisitivo, ou porque possuem a aparência esperada pelo grupo dominante ou porque comportam-se de acordo com aquilo que o grupo dominante espera. Elas estão seguindo as regras do jogo de dominação. Seguem todas as regras e sentem-se no dever de passar elas para outras pessoas e assim continuarão aceitas. É aquela mulher que fiscaliza a vida dos outros e diz como as outras mulheres devem se comportar. É o gay que lembra os amigos de que deve ser 'discreto' (seja lá o que isso queira dizer). É o negro que não gosta de cabelo afro e critica a aparência física dos outros negros e que acha que 'a escravidão ficou no passado, não tem nada a ver com os dias de hoje'. Essas pessoas infelizmente existem. Elas não percebem, mas prestam um serviço àqueles que dominam. Elas acreditam que o pensamento delas está certo. Elas são vilãs ou vítimas? Acho que nem uma coisa e nem outra. Todo mundo quer ser aceito e quer ser respeitado. E para isso, as pessoas escolhem caminhos diferentes. Muitos agem assim por própria ignorância do que é o preconceito, pois de alguma forma conseguiram blindar-se parcialmente dele.

De uma coisa eu tenho certeza: não acho certo culpar essas pessoas, porque elas não são os verdadeiros opressores. Elas apenas não conseguem enxergar além da blindagem que construíram para si mesmas. Eu lembro de uma página do Facebook chamada "Moça, você é machista". Apesar do conteúdo da página ser ótimo e muito informativo com relação ao machismo, o nome da página me incomodava. Porque eu acho que não vou ajudar a destruir o machismo se eu chamar uma companheira de machista. Muita mulher é machista e nem percebe que é, pois ela foi criada dentro de um ambiente machista e com idéias equivocadas sobre o feminismo. Quando eu era adolescente, eu era uma dessas pessoas que acreditam que o feminismo é como o machismo (antônimos). E hoje compreendo a mulher na sociedade e nossa ausência de privilégio em diversas situações. Procuro também ler palavras de pessoas ligadas ao movimento negro e ao movimento LGBT (levando em conta a sigla T, tão ignorada tantas vezes:  transsexuais precisam de visibilidade!).

Para finalizar, deixo uma frase que gosto muito. É uma citação de William Ralph Inge, escritor inglês e religioso anglicano:

“A época exata para se influenciar o caráter de uma criança é cem anos antes de ela ter nascido.”

Por isso algumas mulheres não percebem que o feminismo é necessário, porque a sociedade é machista. Por isso as pessoas não reconhecem seus privilégios, porque os que não são pobres crescem acreditando que a meritocracia é real. Por isso acreditamos que não existe racismo no Brasil. Por essa razão, as pessoas são homofóbicas e não percebem. Porque nosso pensamento é fruto de uma história anterior. 

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Amiga, parabéns por este post...
    ele vai ser muuuito usado e citado na minha Feira Cultural sobre a consciência negra.

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