quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Não podemos mais tolerar piadinhas sobre violência contra a mulher

Eu estava conversando com um grupo de pessoas, a maioria homens cis e heterossexuais. De repente, o assunto igualdade entre gêneros surgiu. A conversa foi avançando, com diversas observações engessadas e preconceituosas. Em um certo momento, começaram a falar sobre violência contra a mulher.



Eu deveria ter gravado a conversa. Não, eu não posso submeter os leitores a tamanha tortura. Muitos argumentavam que as mulheres estavam ficando ignorantes, alguns disseram que a lei protege as mulheres e desfavorece os homens. Disseram que a Lei Maria da Penha penaliza os homens, mas que homens agredidos não podem usufruir dessa lei.

Começaram a falar de casos de 'agressões'. A mulher que varria a casa e deu uma vassourada no folgado que não tirava os pés do chão. A mulher que cutucava o marido enquanto dormia. Por cerca de 10 minutos, ouvi toda sorte de absurdos que mostravam uma total falta de simetria nas questões de gênero, falta de simetria que essas pessoas não conseguiam ver.

Perguntei a eles se eles já tinham ido em uma Delegacia da Mulher. Ficaram sem reação. Disse que quando os homens nos agridem, eles agridem para nos desfigurar e para nos matar. Destroem nossos rostos, destroem nossa auto-estima e destroem nossa vida.  Fiquei me perguntando quantos casos de  de violência doméstica eles conheciam. Provavelmente conhecem muitos. Desses, em quantos a mulher é a vítima? Provavelmente em 99,9% dos casos que eles conhecem.

Quando apresentei argumentos, percebi que já não me davam mais ouvidos. Começaram a tratar a questão como piadinha. Alguns disseram que se uma mulher deixasse seu olho roxo, não poderiam ir a uma delegacia, pois sentiriam vergonha. Vergonha do que?  Ok, vamos imaginar um cenário desses, embora seja uma aberração estatística. Vamos imaginar que um Homem Hipotético (HH) foi agredido por uma Mulher Hipotética (MH). HH não quer ir a delegacia, porque não quer contar que foi agredido por uma mulher. E porque ele não quer contar? Porque é vergonhoso ser agredido por uma mulher, já que HH é que deveria estar no lugar do agressor.

Agora vamos supor que HH fosse agredido por outro Homem Hipotético, o HH2. HH talvez contaria uma história épica, em que também bateu. Nunca, nunca colocaria-se na posição de vítima, mesmo que HH2 tenha o porte físico de Anderson Silva e HH tenha o porte físico de Rowan Atkinson.

As piadinhas continuaram e começaram a tratar a questão com leviandade. Uma das coisas que mais me entristecem nesse mundo, é a total falta de empatia. Como a maioria da população brasileira, tive criação cristã. Apesar de hoje rejeitar todos os dogmas e cagação de regras por parte das igrejas, eu tenho muito respeito aos ensinamentos de Jesus Cristo. No mais famoso deles, Jesus dizia para amar a Deus acima de todas as coisas e amar ao próximo como a si mesmo. Na minha opinião, é impossível amar ao próximo sem colocar-se no lugar dele. Eu tenho certeza que essas pessoas conhecem pelo menos uma mulher que foi agredida. Talvez não seja uma pessoa próxima, como a mãe ou uma irmã. Pode ser uma prima ou uma vizinha. Será que é tão impossível assim colocar-se no lugar da outra pessoa? Uma pessoa que teve sua auto-estima destruída e em muitos casos, teve a própria vida destruída por um agressor.

Será que é tão impossível observar que todos os dias ouvimos falar de casos de violência contra a mulher? Essas pessoas da conversa certamente sabem quem é Datena ou Marcelo Rezende, certamente assistem o programa deles. Não quero questionar a qualidade duvidosa dos programas desses apresentadores, tampouco os pontos de vista deles. O que quero dizer é que todos os dias, se você assistir esse programa, vai ouvir pelo menos um caso de feminicício ou de tentativa de feminicídio. Pelo menos um caso. Será que essas pessoas não conseguem perceber que é completamente assimétrico e desumano sugerir que exista uma lei equivalente à Lei Maria da Penha para os homens?

Com assunto sério, não se faz piadinha. Se eu fizesse uma piadinha sobre Deus, questionando sua existência ou ridicularizando alguma religião (no caso, alguma religião cristã, claro), essas pessoas ficariam chocadas. No entanto, parece que não tem problema fazer piadinha contra a criação. Fazer piada com o sofrimento alheio, com a dor de mulheres que são diariamente agredidas, com a dor de familiares, filhos e amigos.

Eu tenho nojo quando ouço piadinha com a dor dos outros. Quando fazem piadinha com o oprimido, com o marginalizado, com a vítima. O Rodrigo já tinha falado sobre isso no post em que mencionou Danilo Gentilli, um humorista famoso que faz as mesmas piadinhas preconceituosas de não-sei-quantos anos atrás. 

A violência contra a mulher é um assunto que precisa ser tratado com seriedade. Precisa ser analisado, providências precisam ser tomadas, campanhas para estimular as denúncias dos agressores e outras iniciativas precisam ser tomadas para que as estatísticas que temos hoje em dia sejam mudadas. Quando falo em tratar um assunto com seriedade, além de políticas públicas eficazes, o discurso da população precisa mudar. Um assunto sério e triste como esse não pode ser tratado como piada. 

P.S.: A figura que abre a postagem é uma divulgação do telefone 180, usado para denunciar violência doméstica. É a Central de Atendimento à Mulher. Leia mais aqui

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