quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Não é opinião, é preconceito

Essa semana eu descobri mais uma fanpage nojenta no Facebook. Chama-se Orgulho Hetero. Fiquei ainda mais perplexa quando descobri que:
- essa fanpage está vinculada a um blog, blog este que está vinculado a um grande portal de notícias;
- 6 dos meus contatos curtiram essa página, para minha vergonha alheia twist carpada com alcaparras.

Foi quando tive meu rage moment e decidi escrever as seguintes palavras no Facebook:

Sei que algumas pessoas vão ficar ofendidas com a postagem abaixo e vão levar para o lado pessoal, mas eu precisava tirar isso do meu âmago. 
 Tenho uma preguiça abissal de gente que pratica a Burrice Voluntária. Voluntária porque tem todas as condições de se informar, mas prefere ficar com aquela velha opinião formada sobre tudo. 
 Um exemplo de burrice voluntária: são as pessoas que curtem uma página chamada "Orgulho Hétero". Você é heterossexual? Quer o quê, um troféu joinha? Heteros não são ridicularizados por sua orientação sexual. Não saem na rua e correm o risco de serem agredidos. Não são marginalizados ou diminuídos. 

Meus parabéns pela Burrice Voluntária. Precisa se esforçar pra ser tão burro assim. Bom, esse foi apenas um exemplo, mas existem inúmeros exemplos de Burrice Voluntária.
 Não gostou do que escrevi e não quer refletir a respeito? Bom, se não quiser me acompanhar, cancela aí minha assinatura. Com certeza já devo ter cancelado a sua, porque não sou obrigada a ficar lendo coisas que não me edificam. 
 Apesar de saber que o tom desse texto é extremamente agressivo, optei por mantê-lo assim.
Depois de ter escrito essas palavras, muitxs amigxs concordaram comigo e o Djalma, querido amigo do ensino médio, disse que eu sou doce e elegante e que o texto não era agressivo. Não acreditem no Djalma, não sou boazinha rs.

Pouco tempo depois, recebi uma mensagem por inbox. Um contato disse que eu não sabia respeitar a opinião dos outros. Decidi então escrever esse texto (e depois vou mandar uma cópia para essa pessoa) para refletir sobre o seguinte:

Por que as pessoas justificam seus preconceitos dizendo que trata-se de suas opinião pessoal?
Eu confesso para vocês que tenho um defeito muito grave: eu sempre quero ter a razão e sempre quero provar que tenho razão. É um defeito grave que tenho tentado remediar. Mas é um defeito que me faz pensar nas coisas.

Nesse caso, será que eu só estou tentando provar que tenho a razão?

Não. Porque não se trata de determinar quem tem a razão. Trata-se de um exercício de empatia, de colocar-se no lugar do outro.

Homossexuais são vítimas de bullying, bullying virtual, difamação e perseguição. São vítimas também de agressão física e são assassinados exclusivamente porque são gays (como no feminicídio, em que a mulher é morta apenas por ser mulher). De acordo com o Deputado Jean Wyllys, em 2012 foram 336 homicídios motivados por homofobia. 

Ninguém é agredido porque é heterossexual. Ninguém ofende o coleguinha com "olha lá aquele heterozinho". Gay, viado e bicha são termos comuns no vocabulário das ofensas. Também chamam de mulherzinha, porque para eles nós também somos menos importantes, meros objetos descartáveis. Chamar um homem de mulherzinha é diminuí-lo também, torna-lo pior. O orgulho hetero não faz sentido. 

Como muitas dos meus contatos que mencionei acima que curtiram a página Orgulho Hetero estudam, fazem ou fizeram um curso universitário, para mim trata-se de um típico caso de Burrice Voluntária. Por isso, que de maneira até agressiva, chamei dessa forma. 

Quando converso com amigos homossexuais, todos tem uma história de violência para contar. Nem todos foram agredidos fisicamente, mas quase todos foram marginalizados, desprezados por sua família, foram vítimas de piadinhas por parte dos colegas de escola, foram apontados na faculdade ou qualquer outra forma de discriminação. Recentemente, compartilhei em nossa fanpage a história do Juliano, que foi agredido enquanto caminhava na rua. A história do Juliano não é a primeira e infelizmente não será a última, se as pessoas continuarem achando que a homofobia não existe e que ser heterossexual é motivo para orgulhar-se.

Quando um crime homofóbico acontece, infelizmente leio e ouço toda sorte de comentário homofóbico: "tinha que beijar em público?" ou "tinha que andar rebolando". Ou até "com gay discreto isso não acontece". Sei lá o que quem diz isso quer dizer com discreto. Deve ser a mesma coisa sobre quem diz que as mulheres devem se vestir de "maneira decente". É o eterno controle sobre nossos corpos. 

Recentemente, no último capítulo da novela Amor à Vida, dois personagens homossexuais tiveram um final feliz. Para selar esse final feliz, eles deram um beijo apaixonado. É a primeira vez que um beijo apaixonado entre dois homens é encenado em uma novela da Rede Globo. Além disso, trata-se da tradicional "novela das 8", horário de muita audiência. Ainda essa semana ouvi uma senhora dizendo que o final foi lindo, que eles mereciam ser feliz. A telenovela certamente ainda tem um alcance muito maior do que um blog e é muito positivo que a novela tenha feito com que esse assunto seja discutido.

O Iran Giusti, do iGay, escreveu uma linda reportagem, onde o teste foi feito nas ruas. Chamaram alguns casais homossexuais para fazerem um teste: eles se beijaram em vias movimentadas de São Paulo. As reações dos transeuntes infelizmente mostraram muito preconceito. Gestos obscenos e ofensas foram recorrentes contra todos os casais que fizeram o teste. Com o casal de mulheres, foi ainda pior: um desconhecido teve a audácia de tocar nas costas de uma das moças. O patriarcado, sempre controlando nossos corpos. O interessante é que para muitos homens cis heterossexuais, tudo bem se duas mulheres protagonizarem cenas de sexo, desde que seja para o seu deleite, para o seu serviço. 



No final da reportagem, o jornalista destaca duas senhoras de 65 e 70 anos exaltaram o beijo entre os casais. Um momento lindo, sem dúvida. Como a senhora que mencionei anteriormente, que ficou feliz pelo beijo apaixonado do final da novela. Aos pouquinhos, a sociedade está mudando. Sou otimista demais, confesso. Mas eu acredito nisso. Acredito que um dia as pessoas simplesmente ficarão felizes pela felicidade das outras. E isso bastará. 

Para mim, a maior fomentadora da homofobia no Brasil é a Igreja. E aqui me refiro à Igreja Católica e aos diversos grupos Protestantes e Pentecostais. Claro que individualmente, uma pessoa dentro dessas igrejas pode ter uma opinião progressista e humana, como o Padre Fabio de Melo declarou recentemente, como o Padre Luiz Correia Lima (que também é professor da PUC), como o Pastor Ricardo Gondim (que é alvo de ofensas de outros protestantes/pentecostais). No entanto, o que quero dizer, é que essas instituições como um todo tem um histórico de fomentar a violência contra os homossexais. Durante o último fim de semana, vi vários religiosos (especificamente cristãos, já que estamos falando do caso do Brasil) falando que o mundo estava perdido, que a Globo era um lixo (não tinham percebido antes? ah sim, um beijo escandaliza mais do que cobertura jornalística tendenciosa), que precisávamos-orar-contra-não-sei-o-que-lá-do-homossexualismo, que as crianças vão ser gays depois de verem aquela cena, dentre outros absurdos. Esse tipo de coisa incita o ódio. Garanto que 80% das pessoas que falam essas coisas nunca leram a bíblia. Não sabem apontar os trechos em que supostamente a homossexualidade é condenada. E se sabem, não conseguem ter discernimento o suficiente para entender que a vida do outro não precisa seguir o mesmo estilo de vida da sua. Também não tem discernimento suficiente para questionar a) por que outras exigências bíblicas do livro de Levíticos não são seguidas? e b) preciso mesmo seguir as mesmas exigências feitas para pessoas em outra realidade cultural e que viveram há mais de 2000 anos? 


Onde a homofobia na igreja pode chegar: a Igreja Batista de Westboro propaga mensagens de ódio, dizendo que Deus odeia os homossexuais (aqui eles usam o termo fag, extremamente ofensivo) e que os homossexuais merecem a morte. Nem toda igreja cristã é assim, claro. Mas eu quero mostrar onde o ódio pode levar as pessoas. Totalmente o contrário da mensagem deixada por Jesus Cristo, escrita pelos evangelistas nos quatro primeiros livros do Novo Testamento. 

O Orgulho Gay, o Orgulho Negro e o Feminismo são movimentos que buscam a visibilidade e a representatividade. Enquanto vivermos em uma sociedade onde o branco, homem cis, hetero, de meia idade, rico, que acredita em Deus e que não possui necessidades especiais estiver dominando em quase todos os setores, os movimentos que buscam maior representatividade serão necessários. Esses movimentos também resgatam a auto-estima das pessoas, sempre tão massacrada pelas regras impostas por aqueles que dominam. 

Por isso, vociferar a favor de um "Orgulho Hetero", "Orgulho Branco" ou "Dia do Homem", torna você uma pessoa insensível e que não se coloca no lugar dos outros. Não acho que é apenas sua opinião. É preconceito e burrice mesmo. Felizmente tem cura. Converse com quem sofre o preconceito e coloque-se no lugar dos outros. 

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