quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Homem pode ser feminista?



A foto acima foi tirada dessa fanpage e fez várias feministas ficarem de cabelo em pé. Acho que a maioria das moças pensou naquele velho ditado popular:

De boas intenções, o inferno está cheio.

A fanpage chama-se Homens Contra o Machismo. Mas antes de falar do título da fanpage, vamos pensar na foto que abre a postagem. Reparem que eles usam o termo gostosa. A intenção pode até ter sido boa, mas essa palavra é muito usada de maneira negativa. Todas as mulheres tem histórias de assédio que sofreram nas ruas. Homens, que julgam que podem avaliar nossa aparência como uma mercadoria que se compra, gritam gostosa na rua. Eu não gosto. E a maioria das minhas amigas e colegas também não gostam. É muito constrangedor. Não somos mercadorias ou pratos de um restaurante exótico. 

E eu sinceramente tenho a impressão que muitos homens cis (nunca soube de um caso de um homem trans que fez  fazem isso, já falo sobre isso) assediam mulheres nas ruas para re-afirmar sua heterossexualidade. Eu observo que muitos me chamam de gostosa, me chamam de princesa ou falam qualquer outra babaquice quando estão com algum amigo. Talvez para "provar" para o grupo que é pegador, que é macho, que é hetero. Eu tenho essa impressão. Se o amigo fosse legal, com certeza ignoraria o cara. Mas muitos dos amigos olham também. Há uma certa cumplicidade entre os homens cis. 

Usar um termo associado ao assédio não foi uma boa ideia. Nos comentários da fotografia, muitas moças feministas levantaram essa questão. E muitos homens tentaram calá-las. Justificaram que a intenção era boa, e que eles olhavam sim as mulheres na rua, que não há como evitar, etc. Sugeriram que somos loucas, exageradas, mal educadas ou qualquer outra coisa. Afinal de contas, sempre somos histéricas. Basta aparecer uma moça querendo lutar pelos seus direitos e ela é histérica. Temos que ser doces, até quando somos desacreditadas. Há uma exigência subliminar de que sejamos fofinhas. Quando uma mulher indignada grita ou chora ela é histérica. Quando uma mulher indignada fecha a cara e responde olhando nos olhos de um cara, ela é mal comida.

Durante a discussão (e nos comentários das outras fotos dessa fanpage) alguns homens se diziam feministas. Daí que as mulheres ficaram ainda mais indignadas. Esses caras feministas estão tentando eclipsar as mulheres, tirar nosso empoderamento e nossa voz. Ou seja: aquilo que sempre fizeram o tempo todo.

Não, um homem não pode ser feminista. Assim como uma pessoa branca não pode ser do movimento negro. Assim como uma pessoa hetero não pode ser do movimento LGBT.

Mas o homem, a pessoa branca e a pessoa hetero podem (e devem) ouvir e aprender com esses movimentos. Esses movimentos são organizados para dar voz a pessoas oprimidas. Então é o momento para que o homem branco cis hetero aproveite para pensar em seus privilégios e aprender sobre eles. Mas não, um homem branco cis hetero não sabe o que é preconceito de gênero. Não sabe o que é preconceito racial. Não sabe o que é preconceito de orientação sexual. E não conhece o preconceito sofrido por ser trans. Para saber dessas coisas, é preciso sentir na pele todos os dias. Através da empatia, o homem branco cis hetero pode ter uma ideia do que é estar na condição do outro. Uma ideia não muito profunda, na verdade. Por isso reafirmo a importância de OUVIR as minorias.

Não mencionei, mas o mesmo para pessoas que não tem nenhuma deficiência física ou mental. Precisamos ouvir essas pessoas para entender um pouco sobre problemas que elas passam e para entender sua luta.

Assim, um homem branco cis hetero pode ser pró muitas coisas. Mas não pode ofuscar os movimentos. Não deve palestrar sobre a homofobia, transfobia, raciscmo, machismo e outras formas de preconceito. Mesmo se o homem branco cis hetero em questão for um renomado psicólogo ou sociólogo, por exemplo. Ele pode até participar de um evento  não pode ser a estrela principal. 

As moças que são mais engajadas no movimento feminista ainda encontraram outros problemas na fanpage. Na verdade, gostamos de poucas fotos. Na maioria delas é possível ler comentários de mulheres insatisfeitas com a tentativa de roubar nosso protagonismo. E muitos ainda dizem que o feminismo os liberta. Mas liberta do que mesmo? Nós mulheres é que precisamos ser libertas. Se os homens serão beneficiados, bom, isso é secundário. Eles já são beneficiados. Nós é que precisamos dos benefícios da agenda feminista. É o nosso movimento. É a luta por igualdade.

Daí vem um machinho e se acha excluído. Oras, se lutamos por nós, não significa que estamos lutando contra os homens. Lutamos cotra o patriarcado e não contra os homens. Eu acho que essa idéia de mundo binário é o que limita o raciocínio das pessoas e as fazem chegar em conclusões muito equivocadas. 

Respondendo a pergunta do título: um homem cis hetero pode ser pode ser pró-feminista. Mas não feminista. Provavelmente um homem trans é mais próximo do movimento feminista do que um homem cis, porque ele conhece as sutilezas do nosso gênero. E como sofre diariamente com a transfobia, certamente tem mais a acrescentar no diálogo. 

Historicamente, nós mulheres não temos nenhuma voz. Na maioria dos países ocidentais, as mulheres votam há menos de 100 anos. Em muitos locais, ainda discute-se se a mulher é um ser humano. Duvidam? Recentemente li o livro Cabul no Inverno, de Ann Jones. A jornalista passou uma temporada em Cabul, como professora voluntária, dando aulas de inglês para professoras(es) do ensino médio e visitando presídios femininos para denunciar a situação precária (eu diria abaixo do precário) desses locais. Ela menciona que em muitas discussões de religiosos, questionam se a mulher é um ser humano pleno no sentido de poder tomar decisões. A autora também faz uma boa discussão sobre ajuda internacional e sobre as intensões por trás da ajuda norte-americana. Recomendo. 

Em muitos países, a maioria das pessoas analfabetas é composta por mulheres. Como ficam apenas dentro de casa, muitas acabam servindo como receptáculos de pessoas. Parideiras. A taxa de natalidade no Afeganistão (usando o exemplo do livro mencionado) é uma das maiores do mundo. A taxa de morte materna também é (Ann Jones mencionam no livro). As mulheres são mais vulneráveis a pobreza e ao abandono. A luta por igualdade, por controle populacional e por sustentabilidade passa pela luta pelos direitos da mulher. Não roubem nossa voz. Incentivem nosso empoderamento. Mães, pais e professoras(es): incentivem suas meninas.  




Nenhum comentário:

Postar um comentário