quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Homem pode ser feminista?



A foto acima foi tirada dessa fanpage e fez várias feministas ficarem de cabelo em pé. Acho que a maioria das moças pensou naquele velho ditado popular:

De boas intenções, o inferno está cheio.

A fanpage chama-se Homens Contra o Machismo. Mas antes de falar do título da fanpage, vamos pensar na foto que abre a postagem. Reparem que eles usam o termo gostosa. A intenção pode até ter sido boa, mas essa palavra é muito usada de maneira negativa. Todas as mulheres tem histórias de assédio que sofreram nas ruas. Homens, que julgam que podem avaliar nossa aparência como uma mercadoria que se compra, gritam gostosa na rua. Eu não gosto. E a maioria das minhas amigas e colegas também não gostam. É muito constrangedor. Não somos mercadorias ou pratos de um restaurante exótico. 

E eu sinceramente tenho a impressão que muitos homens cis (nunca soube de um caso de um homem trans que fez  fazem isso, já falo sobre isso) assediam mulheres nas ruas para re-afirmar sua heterossexualidade. Eu observo que muitos me chamam de gostosa, me chamam de princesa ou falam qualquer outra babaquice quando estão com algum amigo. Talvez para "provar" para o grupo que é pegador, que é macho, que é hetero. Eu tenho essa impressão. Se o amigo fosse legal, com certeza ignoraria o cara. Mas muitos dos amigos olham também. Há uma certa cumplicidade entre os homens cis. 

Usar um termo associado ao assédio não foi uma boa ideia. Nos comentários da fotografia, muitas moças feministas levantaram essa questão. E muitos homens tentaram calá-las. Justificaram que a intenção era boa, e que eles olhavam sim as mulheres na rua, que não há como evitar, etc. Sugeriram que somos loucas, exageradas, mal educadas ou qualquer outra coisa. Afinal de contas, sempre somos histéricas. Basta aparecer uma moça querendo lutar pelos seus direitos e ela é histérica. Temos que ser doces, até quando somos desacreditadas. Há uma exigência subliminar de que sejamos fofinhas. Quando uma mulher indignada grita ou chora ela é histérica. Quando uma mulher indignada fecha a cara e responde olhando nos olhos de um cara, ela é mal comida.

Durante a discussão (e nos comentários das outras fotos dessa fanpage) alguns homens se diziam feministas. Daí que as mulheres ficaram ainda mais indignadas. Esses caras feministas estão tentando eclipsar as mulheres, tirar nosso empoderamento e nossa voz. Ou seja: aquilo que sempre fizeram o tempo todo.

Não, um homem não pode ser feminista. Assim como uma pessoa branca não pode ser do movimento negro. Assim como uma pessoa hetero não pode ser do movimento LGBT.

Mas o homem, a pessoa branca e a pessoa hetero podem (e devem) ouvir e aprender com esses movimentos. Esses movimentos são organizados para dar voz a pessoas oprimidas. Então é o momento para que o homem branco cis hetero aproveite para pensar em seus privilégios e aprender sobre eles. Mas não, um homem branco cis hetero não sabe o que é preconceito de gênero. Não sabe o que é preconceito racial. Não sabe o que é preconceito de orientação sexual. E não conhece o preconceito sofrido por ser trans. Para saber dessas coisas, é preciso sentir na pele todos os dias. Através da empatia, o homem branco cis hetero pode ter uma ideia do que é estar na condição do outro. Uma ideia não muito profunda, na verdade. Por isso reafirmo a importância de OUVIR as minorias.

Não mencionei, mas o mesmo para pessoas que não tem nenhuma deficiência física ou mental. Precisamos ouvir essas pessoas para entender um pouco sobre problemas que elas passam e para entender sua luta.

Assim, um homem branco cis hetero pode ser pró muitas coisas. Mas não pode ofuscar os movimentos. Não deve palestrar sobre a homofobia, transfobia, raciscmo, machismo e outras formas de preconceito. Mesmo se o homem branco cis hetero em questão for um renomado psicólogo ou sociólogo, por exemplo. Ele pode até participar de um evento  não pode ser a estrela principal. 

As moças que são mais engajadas no movimento feminista ainda encontraram outros problemas na fanpage. Na verdade, gostamos de poucas fotos. Na maioria delas é possível ler comentários de mulheres insatisfeitas com a tentativa de roubar nosso protagonismo. E muitos ainda dizem que o feminismo os liberta. Mas liberta do que mesmo? Nós mulheres é que precisamos ser libertas. Se os homens serão beneficiados, bom, isso é secundário. Eles já são beneficiados. Nós é que precisamos dos benefícios da agenda feminista. É o nosso movimento. É a luta por igualdade.

Daí vem um machinho e se acha excluído. Oras, se lutamos por nós, não significa que estamos lutando contra os homens. Lutamos cotra o patriarcado e não contra os homens. Eu acho que essa idéia de mundo binário é o que limita o raciocínio das pessoas e as fazem chegar em conclusões muito equivocadas. 

Respondendo a pergunta do título: um homem cis hetero pode ser pode ser pró-feminista. Mas não feminista. Provavelmente um homem trans é mais próximo do movimento feminista do que um homem cis, porque ele conhece as sutilezas do nosso gênero. E como sofre diariamente com a transfobia, certamente tem mais a acrescentar no diálogo. 

Historicamente, nós mulheres não temos nenhuma voz. Na maioria dos países ocidentais, as mulheres votam há menos de 100 anos. Em muitos locais, ainda discute-se se a mulher é um ser humano. Duvidam? Recentemente li o livro Cabul no Inverno, de Ann Jones. A jornalista passou uma temporada em Cabul, como professora voluntária, dando aulas de inglês para professoras(es) do ensino médio e visitando presídios femininos para denunciar a situação precária (eu diria abaixo do precário) desses locais. Ela menciona que em muitas discussões de religiosos, questionam se a mulher é um ser humano pleno no sentido de poder tomar decisões. A autora também faz uma boa discussão sobre ajuda internacional e sobre as intensões por trás da ajuda norte-americana. Recomendo. 

Em muitos países, a maioria das pessoas analfabetas é composta por mulheres. Como ficam apenas dentro de casa, muitas acabam servindo como receptáculos de pessoas. Parideiras. A taxa de natalidade no Afeganistão (usando o exemplo do livro mencionado) é uma das maiores do mundo. A taxa de morte materna também é (Ann Jones mencionam no livro). As mulheres são mais vulneráveis a pobreza e ao abandono. A luta por igualdade, por controle populacional e por sustentabilidade passa pela luta pelos direitos da mulher. Não roubem nossa voz. Incentivem nosso empoderamento. Mães, pais e professoras(es): incentivem suas meninas.  




quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Quando o oprimido não percebe a opressão

Outro dia eu estava re-assistindo Fresh Prince of Bel Air (que no Brasil foi transmitido como "Um maluco no Pedaço"). É um de meus seriados favoritos, pois admiro muito o trabalho de Will Smith e dos demais atores da série. Além disso, há diversos episódios em que o preconceito racial é discutido. E foi um deles que me fez pensar nesse post.


O interessante é que quando assisti a série pela primeira vez eu tinha uns 15 ou 16 anos e apenas dava risada da dancinha do Carlton, das afetações da Hilary e do clássico em que Tio Phil joga Jazz pra fora de casa. Mas ainda assim, a série me proporcionava alguns momentos de reflexão. Na época eu não dava muito valor, mas hoje percebo o quanto a série ajudou a moldar o meu caráter.

Há um episódio especificamente em que Will e Carlton  precisam levar um carro de luxo de Bel Air para uma cidade mais afastada. Esse carro é propriedade de um dos colegas advogados de Tio Phil. Os rapazes não conhecem o caminho e se perdem. Eis que um policial pára o carro deles.

Aqui preciso explicar um pouco antes de prosseguir, para aqueles que não conhecem a série. Will cresceu na Filadélfia e viu de perto a criminalidade, a violência policial e o racismo. Carlton cresceu em uma luxuosa casa em Bel Air, pois seu pai (Phil) é advogado e sua mãe (Vivian) é professora universitária. Carlton só tem amigos brancos e veste-se como um rapaz branco de classe média alta. No começo da série, Carlton não tem noção de que é negro. Seu pai, Phil, participou de protestos pela igualdade social e viu Malcolm X discursar. Depois de muito esforço pessoal e depois de nadar muito contra a corrente, Phil tornou-se prestigiado e rico advogado. Apesar de no momento estar acomodado em sua posição de homem rico, Phil sabe de onde veio e conhece a luta por igualdade racial.

Continuando o episódio em questão. Quando o policial aparece, Will já sabe o que fazer. E diz para Carlton ficar com as mãos no volante. Carlton ignora o conselho do primo e age como um homem branco, cumprimentando o policial de maneira exageradamente simpática e dando explicações desnecessárias. Antes das decisões do policial, Will já sabe o que vai acontecer: o oficial vai mandá-los descer do carro. Eles descem e Will já assume a posição que a sociedade espera dele tem que assumir nessas situações: encostar o rosto no capô do carro com as mãos para traz. Como minha narração não é lá essas coisas, encontrei o vídeo dessa cena para os leitores acompanharem:


Fiquei lembrando de uma música que gosto:

"If you're black you might as well not shown up on the street
'Less you wanna draw the heat."

"Se você é negro, melhor nem aparecer na rua,
a não ser que queira chamar a atenção da polícia"

Bob Dylan - Hurricane

Então Carlton e Will vão presos sob a acusação de roubo pois os policiais não acreditam na história deles. Will e Carl não são ouvidos pelos policiais, em nenhum momento. E Carlton não consegue contatar seus pais.  Eles precisam confessar o crime e exigir a presença da imprensa, para que os pais, que estão assistindo TV com os amigos, saibam do caso pela TV.

Poucas horas depois os pais de Carlton e o dono do carro aparecem na delegacia. É muito interessante notar como os pais de Carlton são tratados: com descaso e desrespeito. Quando o dono do carro, que é amigo da família e é branco aparece, o tratamento é completamente diferente.

Depois de ameaçar de processar o delegado por irregularidade nas prisões dos rapazes, tio Phil os leva pra casa. Carlton acredita que foi preso porque tudo não passou de um grande mal entendido. O rapaz não consegue perceber que foi vítima de racismo.

Esse episódio me fez pensar em diversos casos que conheço na vida real. Vou dar exemplos:

- Outro dia eu conversava com um grupo de pessoas. Falávamos sobre cotas raciais e sociais. Duas moças que estavam no grupo, eram negras e eram totalmente contra as cotas. Porque para elas "todo mundo é igual e não há necessidade dessa medida preconceituosa'";
- Outro dia eu estava em um salão de beleza, aguardando minha vez para ser atendida. Uma outra cliente, que já estava sendo atendida, era negra. Ela começou a dizer que homem negro é feio, que homem branco é bonito, e que felizmente ela tinha os "traços delicados herdados de sua avó italiana".
- Outro dia eu estava no Twitter e um rapaz gay começou a dizer que os gays que apanhavam eram os afeminados, que 'não sabiam respeitar a presença de idosos e crianças na rua' e 'que se beijavam em qualquer lugar' e 'que não eram discretos'.
- Não consigo nem contar a quantidade de vezes que uma mulher culpou uma outra mulher pelo estupro que sofreu (como no caso do Big Brother, em que uma moça foi abusada enquanto estava desacordada). Ou quando uma mulher culpa outra mulher pela violência doméstica que sofreu. Ou quando uma mulher diz "que ela é moça de família, enquanto fulana é fácil, sai com qualquer um". 

Algumas pessoas, dentro de grupos que sofrem preconceito, consideram-se imunes ao preconceito. Ou porque elas possuem um maior poder aquisitivo, ou porque possuem a aparência esperada pelo grupo dominante ou porque comportam-se de acordo com aquilo que o grupo dominante espera. Elas estão seguindo as regras do jogo de dominação. Seguem todas as regras e sentem-se no dever de passar elas para outras pessoas e assim continuarão aceitas. É aquela mulher que fiscaliza a vida dos outros e diz como as outras mulheres devem se comportar. É o gay que lembra os amigos de que deve ser 'discreto' (seja lá o que isso queira dizer). É o negro que não gosta de cabelo afro e critica a aparência física dos outros negros e que acha que 'a escravidão ficou no passado, não tem nada a ver com os dias de hoje'. Essas pessoas infelizmente existem. Elas não percebem, mas prestam um serviço àqueles que dominam. Elas acreditam que o pensamento delas está certo. Elas são vilãs ou vítimas? Acho que nem uma coisa e nem outra. Todo mundo quer ser aceito e quer ser respeitado. E para isso, as pessoas escolhem caminhos diferentes. Muitos agem assim por própria ignorância do que é o preconceito, pois de alguma forma conseguiram blindar-se parcialmente dele.

De uma coisa eu tenho certeza: não acho certo culpar essas pessoas, porque elas não são os verdadeiros opressores. Elas apenas não conseguem enxergar além da blindagem que construíram para si mesmas. Eu lembro de uma página do Facebook chamada "Moça, você é machista". Apesar do conteúdo da página ser ótimo e muito informativo com relação ao machismo, o nome da página me incomodava. Porque eu acho que não vou ajudar a destruir o machismo se eu chamar uma companheira de machista. Muita mulher é machista e nem percebe que é, pois ela foi criada dentro de um ambiente machista e com idéias equivocadas sobre o feminismo. Quando eu era adolescente, eu era uma dessas pessoas que acreditam que o feminismo é como o machismo (antônimos). E hoje compreendo a mulher na sociedade e nossa ausência de privilégio em diversas situações. Procuro também ler palavras de pessoas ligadas ao movimento negro e ao movimento LGBT (levando em conta a sigla T, tão ignorada tantas vezes:  transsexuais precisam de visibilidade!).

Para finalizar, deixo uma frase que gosto muito. É uma citação de William Ralph Inge, escritor inglês e religioso anglicano:

“A época exata para se influenciar o caráter de uma criança é cem anos antes de ela ter nascido.”

Por isso algumas mulheres não percebem que o feminismo é necessário, porque a sociedade é machista. Por isso as pessoas não reconhecem seus privilégios, porque os que não são pobres crescem acreditando que a meritocracia é real. Por isso acreditamos que não existe racismo no Brasil. Por essa razão, as pessoas são homofóbicas e não percebem. Porque nosso pensamento é fruto de uma história anterior. 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Falta sensibilidade aí do alto do seu privilégio

Algumas semanas atrás li um post que não acreditei:


Até aí tudo bem, clássico mimimi de classe média que todo mundo já cansou de ouvir. O que me chamou a atenção foi o post que veio logo em seguida:


Falta sensibilidade aí do alto do seu privilégio, hein minha filha? Quer dizer, quando o dinheiro é tirado do bolso dela pra beneficiar os outros é errado e é sustentar vagabundo. Mas quando o dinheiro sai do bolso dos outros pra pagar a educação dela e das irmãs é certo e é só alegria.

Salvar o Citibank pode. Bolsa família não pode. Salvar a empresa do Eike Batista pode. Cotas pra negros não pode. Por que quando o governo salva o Citibank da falência as pessoas no máximo balançam as cabeças em desaprovacao. Mas quando o governo dá benefícios pra pobre os braços vão pro céu e o circo pega fogo. Então por quê? Por quê? Por quê as pessoas não são tão vocais em mostrar seu descontentamento igualmente em ambas situações? Por que eu vejo tanta gente escrevendo "bolsa esmola" e eu não vejo ninguém escrevendo que o holerite tá pequeno por causa do programa "salve ricaço"? Não estou dizendo que é errado manter uma universidade pública ou que é errado salvar uma empresa da falência, muito pelo contrário. Minha única crítica é a falta de sensibilidade por parte dos privilegiados em relação a questões sociais.

Daí eles vão dizer que as irmãs privilégio aqui estudaram e se esforçaram muito para passar na USP, enquanto esse povo que recebe benefícios do governo ganha tudo de mão beijada. A questão sempre se resume ao mérito. OK, esse é UM ponto de vista. Mas como se explica o fato de que a maioria dos estudantes de universidade pública vêm de famílias ricas? Porque se mérito fosse a única variável aqui, a população de estudantes universitários deveria ser uma amostra da população do Brasil.

É por isso que a gente escreve nesse blog. É pra tentar abrir os olhos de gente que é privilegiada e não percebe, gente que só vê o próprio umbigo, gente que pensa que tirar um pouquinho do rico pra dar pro pobre é comunismo e é errado. Mas tirar do pobre pra dar pro rico é normal e é correto.

Talvez você aí que é rico não deva colocar seu filhos nas melhores escolas e cursinhos. Você batalhou muito na vida pra ser rico e você não quer que seus filhos sejam folgados que ganham tudo de mão beijada. Afinal, o que eles fizeram pra merecer esse privilégio?

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Não podemos mais tolerar piadinhas sobre violência contra a mulher

Eu estava conversando com um grupo de pessoas, a maioria homens cis e heterossexuais. De repente, o assunto igualdade entre gêneros surgiu. A conversa foi avançando, com diversas observações engessadas e preconceituosas. Em um certo momento, começaram a falar sobre violência contra a mulher.



Eu deveria ter gravado a conversa. Não, eu não posso submeter os leitores a tamanha tortura. Muitos argumentavam que as mulheres estavam ficando ignorantes, alguns disseram que a lei protege as mulheres e desfavorece os homens. Disseram que a Lei Maria da Penha penaliza os homens, mas que homens agredidos não podem usufruir dessa lei.

Começaram a falar de casos de 'agressões'. A mulher que varria a casa e deu uma vassourada no folgado que não tirava os pés do chão. A mulher que cutucava o marido enquanto dormia. Por cerca de 10 minutos, ouvi toda sorte de absurdos que mostravam uma total falta de simetria nas questões de gênero, falta de simetria que essas pessoas não conseguiam ver.

Perguntei a eles se eles já tinham ido em uma Delegacia da Mulher. Ficaram sem reação. Disse que quando os homens nos agridem, eles agridem para nos desfigurar e para nos matar. Destroem nossos rostos, destroem nossa auto-estima e destroem nossa vida.  Fiquei me perguntando quantos casos de  de violência doméstica eles conheciam. Provavelmente conhecem muitos. Desses, em quantos a mulher é a vítima? Provavelmente em 99,9% dos casos que eles conhecem.

Quando apresentei argumentos, percebi que já não me davam mais ouvidos. Começaram a tratar a questão como piadinha. Alguns disseram que se uma mulher deixasse seu olho roxo, não poderiam ir a uma delegacia, pois sentiriam vergonha. Vergonha do que?  Ok, vamos imaginar um cenário desses, embora seja uma aberração estatística. Vamos imaginar que um Homem Hipotético (HH) foi agredido por uma Mulher Hipotética (MH). HH não quer ir a delegacia, porque não quer contar que foi agredido por uma mulher. E porque ele não quer contar? Porque é vergonhoso ser agredido por uma mulher, já que HH é que deveria estar no lugar do agressor.

Agora vamos supor que HH fosse agredido por outro Homem Hipotético, o HH2. HH talvez contaria uma história épica, em que também bateu. Nunca, nunca colocaria-se na posição de vítima, mesmo que HH2 tenha o porte físico de Anderson Silva e HH tenha o porte físico de Rowan Atkinson.

As piadinhas continuaram e começaram a tratar a questão com leviandade. Uma das coisas que mais me entristecem nesse mundo, é a total falta de empatia. Como a maioria da população brasileira, tive criação cristã. Apesar de hoje rejeitar todos os dogmas e cagação de regras por parte das igrejas, eu tenho muito respeito aos ensinamentos de Jesus Cristo. No mais famoso deles, Jesus dizia para amar a Deus acima de todas as coisas e amar ao próximo como a si mesmo. Na minha opinião, é impossível amar ao próximo sem colocar-se no lugar dele. Eu tenho certeza que essas pessoas conhecem pelo menos uma mulher que foi agredida. Talvez não seja uma pessoa próxima, como a mãe ou uma irmã. Pode ser uma prima ou uma vizinha. Será que é tão impossível assim colocar-se no lugar da outra pessoa? Uma pessoa que teve sua auto-estima destruída e em muitos casos, teve a própria vida destruída por um agressor.

Será que é tão impossível observar que todos os dias ouvimos falar de casos de violência contra a mulher? Essas pessoas da conversa certamente sabem quem é Datena ou Marcelo Rezende, certamente assistem o programa deles. Não quero questionar a qualidade duvidosa dos programas desses apresentadores, tampouco os pontos de vista deles. O que quero dizer é que todos os dias, se você assistir esse programa, vai ouvir pelo menos um caso de feminicício ou de tentativa de feminicídio. Pelo menos um caso. Será que essas pessoas não conseguem perceber que é completamente assimétrico e desumano sugerir que exista uma lei equivalente à Lei Maria da Penha para os homens?

Com assunto sério, não se faz piadinha. Se eu fizesse uma piadinha sobre Deus, questionando sua existência ou ridicularizando alguma religião (no caso, alguma religião cristã, claro), essas pessoas ficariam chocadas. No entanto, parece que não tem problema fazer piadinha contra a criação. Fazer piada com o sofrimento alheio, com a dor de mulheres que são diariamente agredidas, com a dor de familiares, filhos e amigos.

Eu tenho nojo quando ouço piadinha com a dor dos outros. Quando fazem piadinha com o oprimido, com o marginalizado, com a vítima. O Rodrigo já tinha falado sobre isso no post em que mencionou Danilo Gentilli, um humorista famoso que faz as mesmas piadinhas preconceituosas de não-sei-quantos anos atrás. 

A violência contra a mulher é um assunto que precisa ser tratado com seriedade. Precisa ser analisado, providências precisam ser tomadas, campanhas para estimular as denúncias dos agressores e outras iniciativas precisam ser tomadas para que as estatísticas que temos hoje em dia sejam mudadas. Quando falo em tratar um assunto com seriedade, além de políticas públicas eficazes, o discurso da população precisa mudar. Um assunto sério e triste como esse não pode ser tratado como piada. 

P.S.: A figura que abre a postagem é uma divulgação do telefone 180, usado para denunciar violência doméstica. É a Central de Atendimento à Mulher. Leia mais aqui

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Perseguindo opressores

É impressionante o número de pessoas que não entendem um simples conceito de “liberdade de expressão”. Basta que um porta-voz dos priviligiados seja criticado por suas declarações públicas polêmicas, muitas vezes até criminosas, que eles já começam a gritar: “Perseguição! Perseguição! Perseguição!

A mais nova “perseguida” é a jornalista Rachel Sheherazade. A jornalista sofreu recentemente um nota de repúdio pelo sindicato dos jornalistas e comissão de ética. O motivo foi o seu posicionamento ao defender o grupo que espancou e prendeu a um poste um adolescente acusado de furto. Mas já está rolando na internet uma petição em apoio à jornalista. A petição é baeada no argumento de que a jornalista está sendo persegida por apresentar uma opinião diferente da “opinião dominante vigente” e por um governo de esquerda autoritário que “tem como fundamento o desejo de estabelecer um discurso único, sem nenhuma brecha para divergência de opiniões.” Não faz isso, que judiação! Ela estava apenas defendendo publicamente um ato criminoso previsto por lei! Se fosse o Marcelo D2 ninguém falava nada, né?

Outro “perseguido” foi o antigo presidente da comissã de dieitos humanos, o pastor deputado Marco Feliciano. Feliciano já justificou o assassinato de John Lennon como sendo a vontade de Deus. Adiciona inclusive que foram três tiros, um em nome do Pai, um em nome do Filho e um em nome do Espírito Santo. Na verdade foram quatro tiros, por essa lógica só me basta concluir que o quarto foi por conta da casa. Alguma promoção: “ao levar três tiros por vontade de Deus, o quarto é gratuito! Tem mais! As 100 primeiras pessoas que ligarem receberão também este exclusivo protetor solar 6000 contra o fogo do inferno!”. Digam se não é apenas alguém apresentando uma opinião diferente da opinião dominante vigente? O pastor deputado declarou também que a miséria que assola o continente africano é o resultado de que "Africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé", se isso não é racismo, e portanto crime previsto por lei, eu é que não entendo essa história de liberdade de expressão.

Um fato interessante sobre feliciano é que ao mesmo tempo que ele ataca a fé de outros cristãos, ele consegue convencer os mesmos cristãos que as “perseguições” sofridas por ele são na verdade perseguições a todos os cristãos. Gênio! Mas na verdade, muitos cristãos não receberam o memorando de suas igrejas, por que já vi muita gente defendendo Feliciano por ser um homem de fé que leva a palavra de Jesus quando suas próprias igrejas já manifestaram repúdio público ao pastor (clique aqui e aqui para checar se sua igreja repudia Feliciano). Quer dizer, feliciano é “perseguido” até por outros cristãos.

Em terceiro lugar na lista de privilegiados opressores “perseguidos” de hoje estão empatados o pastor deputado psicólogo Silas Malafaia e a psicóloga Marisa Lobo. Ambos foram “perseguidos” pelo Conselho Federal de Psicologia por suas alegações de que a homossexualidade é uma doença e por insitir em uma “cura gay”. Segundo a comunidade dos psicólogos, com apoio da Organização Mundial de Saúde e embasados em décadas de pesquisa, a homossexualidade é uma expressão da sexualidade humana. Portanto, nenhum psicólogo pode oferecer cura a algo que não é uma doença. Quer dizer, a comunidade de profissionais que são especialistas no assunto criaram uma regra. Malafaia e Lobo quebraram essa regra. Nada mais lógico do que sofrerem as consequênias. O que eu chamo de justiça eles chamam de perseguição.

Qual a semelhança entre estas quatro personalidades públicas? Todos se fazem de coitados após proferirem seus discursos intolerantes. Mas a verdade é que ninguém persegue quem prega o amor e a igualdade.
http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Bethlehem_Wall_Graffiti_1.jpg
Foto de Pawel Ryszawa
Dizem que a melhor estratégia do diabo foi convencer o mundo de que ele não existe. Pois bem, eu acho que a melhor estratégia dos opressores é a de convencer o mundo de que eles são na verdade as vítmas. Portato, aqui vai um recado aos intolerantes que se escondem atrás da liberdade de expressão. A sua expressão termina onde a expressão do outro começa. Não passarão!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Não é opinião, é preconceito

Essa semana eu descobri mais uma fanpage nojenta no Facebook. Chama-se Orgulho Hetero. Fiquei ainda mais perplexa quando descobri que:
- essa fanpage está vinculada a um blog, blog este que está vinculado a um grande portal de notícias;
- 6 dos meus contatos curtiram essa página, para minha vergonha alheia twist carpada com alcaparras.

Foi quando tive meu rage moment e decidi escrever as seguintes palavras no Facebook:

Sei que algumas pessoas vão ficar ofendidas com a postagem abaixo e vão levar para o lado pessoal, mas eu precisava tirar isso do meu âmago. 
 Tenho uma preguiça abissal de gente que pratica a Burrice Voluntária. Voluntária porque tem todas as condições de se informar, mas prefere ficar com aquela velha opinião formada sobre tudo. 
 Um exemplo de burrice voluntária: são as pessoas que curtem uma página chamada "Orgulho Hétero". Você é heterossexual? Quer o quê, um troféu joinha? Heteros não são ridicularizados por sua orientação sexual. Não saem na rua e correm o risco de serem agredidos. Não são marginalizados ou diminuídos. 

Meus parabéns pela Burrice Voluntária. Precisa se esforçar pra ser tão burro assim. Bom, esse foi apenas um exemplo, mas existem inúmeros exemplos de Burrice Voluntária.
 Não gostou do que escrevi e não quer refletir a respeito? Bom, se não quiser me acompanhar, cancela aí minha assinatura. Com certeza já devo ter cancelado a sua, porque não sou obrigada a ficar lendo coisas que não me edificam. 
 Apesar de saber que o tom desse texto é extremamente agressivo, optei por mantê-lo assim.
Depois de ter escrito essas palavras, muitxs amigxs concordaram comigo e o Djalma, querido amigo do ensino médio, disse que eu sou doce e elegante e que o texto não era agressivo. Não acreditem no Djalma, não sou boazinha rs.

Pouco tempo depois, recebi uma mensagem por inbox. Um contato disse que eu não sabia respeitar a opinião dos outros. Decidi então escrever esse texto (e depois vou mandar uma cópia para essa pessoa) para refletir sobre o seguinte:

Por que as pessoas justificam seus preconceitos dizendo que trata-se de suas opinião pessoal?
Eu confesso para vocês que tenho um defeito muito grave: eu sempre quero ter a razão e sempre quero provar que tenho razão. É um defeito grave que tenho tentado remediar. Mas é um defeito que me faz pensar nas coisas.

Nesse caso, será que eu só estou tentando provar que tenho a razão?

Não. Porque não se trata de determinar quem tem a razão. Trata-se de um exercício de empatia, de colocar-se no lugar do outro.

Homossexuais são vítimas de bullying, bullying virtual, difamação e perseguição. São vítimas também de agressão física e são assassinados exclusivamente porque são gays (como no feminicídio, em que a mulher é morta apenas por ser mulher). De acordo com o Deputado Jean Wyllys, em 2012 foram 336 homicídios motivados por homofobia. 

Ninguém é agredido porque é heterossexual. Ninguém ofende o coleguinha com "olha lá aquele heterozinho". Gay, viado e bicha são termos comuns no vocabulário das ofensas. Também chamam de mulherzinha, porque para eles nós também somos menos importantes, meros objetos descartáveis. Chamar um homem de mulherzinha é diminuí-lo também, torna-lo pior. O orgulho hetero não faz sentido. 

Como muitas dos meus contatos que mencionei acima que curtiram a página Orgulho Hetero estudam, fazem ou fizeram um curso universitário, para mim trata-se de um típico caso de Burrice Voluntária. Por isso, que de maneira até agressiva, chamei dessa forma. 

Quando converso com amigos homossexuais, todos tem uma história de violência para contar. Nem todos foram agredidos fisicamente, mas quase todos foram marginalizados, desprezados por sua família, foram vítimas de piadinhas por parte dos colegas de escola, foram apontados na faculdade ou qualquer outra forma de discriminação. Recentemente, compartilhei em nossa fanpage a história do Juliano, que foi agredido enquanto caminhava na rua. A história do Juliano não é a primeira e infelizmente não será a última, se as pessoas continuarem achando que a homofobia não existe e que ser heterossexual é motivo para orgulhar-se.

Quando um crime homofóbico acontece, infelizmente leio e ouço toda sorte de comentário homofóbico: "tinha que beijar em público?" ou "tinha que andar rebolando". Ou até "com gay discreto isso não acontece". Sei lá o que quem diz isso quer dizer com discreto. Deve ser a mesma coisa sobre quem diz que as mulheres devem se vestir de "maneira decente". É o eterno controle sobre nossos corpos. 

Recentemente, no último capítulo da novela Amor à Vida, dois personagens homossexuais tiveram um final feliz. Para selar esse final feliz, eles deram um beijo apaixonado. É a primeira vez que um beijo apaixonado entre dois homens é encenado em uma novela da Rede Globo. Além disso, trata-se da tradicional "novela das 8", horário de muita audiência. Ainda essa semana ouvi uma senhora dizendo que o final foi lindo, que eles mereciam ser feliz. A telenovela certamente ainda tem um alcance muito maior do que um blog e é muito positivo que a novela tenha feito com que esse assunto seja discutido.

O Iran Giusti, do iGay, escreveu uma linda reportagem, onde o teste foi feito nas ruas. Chamaram alguns casais homossexuais para fazerem um teste: eles se beijaram em vias movimentadas de São Paulo. As reações dos transeuntes infelizmente mostraram muito preconceito. Gestos obscenos e ofensas foram recorrentes contra todos os casais que fizeram o teste. Com o casal de mulheres, foi ainda pior: um desconhecido teve a audácia de tocar nas costas de uma das moças. O patriarcado, sempre controlando nossos corpos. O interessante é que para muitos homens cis heterossexuais, tudo bem se duas mulheres protagonizarem cenas de sexo, desde que seja para o seu deleite, para o seu serviço. 



No final da reportagem, o jornalista destaca duas senhoras de 65 e 70 anos exaltaram o beijo entre os casais. Um momento lindo, sem dúvida. Como a senhora que mencionei anteriormente, que ficou feliz pelo beijo apaixonado do final da novela. Aos pouquinhos, a sociedade está mudando. Sou otimista demais, confesso. Mas eu acredito nisso. Acredito que um dia as pessoas simplesmente ficarão felizes pela felicidade das outras. E isso bastará. 

Para mim, a maior fomentadora da homofobia no Brasil é a Igreja. E aqui me refiro à Igreja Católica e aos diversos grupos Protestantes e Pentecostais. Claro que individualmente, uma pessoa dentro dessas igrejas pode ter uma opinião progressista e humana, como o Padre Fabio de Melo declarou recentemente, como o Padre Luiz Correia Lima (que também é professor da PUC), como o Pastor Ricardo Gondim (que é alvo de ofensas de outros protestantes/pentecostais). No entanto, o que quero dizer, é que essas instituições como um todo tem um histórico de fomentar a violência contra os homossexais. Durante o último fim de semana, vi vários religiosos (especificamente cristãos, já que estamos falando do caso do Brasil) falando que o mundo estava perdido, que a Globo era um lixo (não tinham percebido antes? ah sim, um beijo escandaliza mais do que cobertura jornalística tendenciosa), que precisávamos-orar-contra-não-sei-o-que-lá-do-homossexualismo, que as crianças vão ser gays depois de verem aquela cena, dentre outros absurdos. Esse tipo de coisa incita o ódio. Garanto que 80% das pessoas que falam essas coisas nunca leram a bíblia. Não sabem apontar os trechos em que supostamente a homossexualidade é condenada. E se sabem, não conseguem ter discernimento o suficiente para entender que a vida do outro não precisa seguir o mesmo estilo de vida da sua. Também não tem discernimento suficiente para questionar a) por que outras exigências bíblicas do livro de Levíticos não são seguidas? e b) preciso mesmo seguir as mesmas exigências feitas para pessoas em outra realidade cultural e que viveram há mais de 2000 anos? 


Onde a homofobia na igreja pode chegar: a Igreja Batista de Westboro propaga mensagens de ódio, dizendo que Deus odeia os homossexuais (aqui eles usam o termo fag, extremamente ofensivo) e que os homossexuais merecem a morte. Nem toda igreja cristã é assim, claro. Mas eu quero mostrar onde o ódio pode levar as pessoas. Totalmente o contrário da mensagem deixada por Jesus Cristo, escrita pelos evangelistas nos quatro primeiros livros do Novo Testamento. 

O Orgulho Gay, o Orgulho Negro e o Feminismo são movimentos que buscam a visibilidade e a representatividade. Enquanto vivermos em uma sociedade onde o branco, homem cis, hetero, de meia idade, rico, que acredita em Deus e que não possui necessidades especiais estiver dominando em quase todos os setores, os movimentos que buscam maior representatividade serão necessários. Esses movimentos também resgatam a auto-estima das pessoas, sempre tão massacrada pelas regras impostas por aqueles que dominam. 

Por isso, vociferar a favor de um "Orgulho Hetero", "Orgulho Branco" ou "Dia do Homem", torna você uma pessoa insensível e que não se coloca no lugar dos outros. Não acho que é apenas sua opinião. É preconceito e burrice mesmo. Felizmente tem cura. Converse com quem sofre o preconceito e coloque-se no lugar dos outros. 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Qual a causa de tanta violência no Brasil?

Qual a causa de tanta violência no Brasil? O que faz uma pessoa escolher viver à margem da sociedade? Será mesmo a principal causa a impunidade? Então uma pessoa cresce e decide que é mais fácil viver do crime do que trabalhar oito horas por dia? Tão simples! Pessoas más roubam e pessoa boas trabalham duro. Reacionários, parem de ler agora porque este texto obviamente já explorou tudo o que há para ser explorado nesta questão e o programa do Gentilli já deve tá começando. Para os demais leitores que acreditam que a complexidade humana não se resume a personagens lineares, eu pergunto: Será que sou só eu que percebo que a principal causa de tanta violência no Brasil é a desigualdade?

Um amigo uma vez disse: “O ladrão é apenas um agente cuja função é a de restaurar o equilíbrio de um sistema instável, onde o gradiente entre ricos e pobres se tornou alto demais.”

http://www.consciencia.net/pequenosdetalhes/tema/desigualdade-social/
Charge: Revista Voto (www.revistavoto.com.br)


Eu cresci na periferia e por várias vezes fui abordado por ladrões, outras vezes joguei bola com eles. Acho que conheço todas as táticas dos ladrões.Tem ladrão sociopata, tem ladrão desastrado, tem ladrão “nóia” que assalta com uma faca de fabricação caseira ou até mesmo desarmado. Porque se ele tiver uma arma ele vai trocá-la por drogas antes de tentar assaltar alguém. Este é o ladrão que assalta utilizando pressão psicológica. Um deles uma vez me disse: “você quer ver sua mãe de novo, né?” enquanto eu entregava minha única posse de valor. Um passe de ônibus. Detalhe, o ladrão fiou com pena de mim e me devolveu o passe.

Nunca me apontaram uma arma de fogo, mas já tetaram roubar meus tênnis com estilingue. Já levei tapa na cara de ladrão planejando roubar uma casa. Já levei “peaba” na testa de ladrão. Já corri de muito ladrão que queria meu boné. Mas minha família já sofreu coisas piores. Por mais de uma vez ladrões invadiram a casa de meus familiares e os fizeram de reféns por horas tantando encontrar dinheiro e jóias inexistentes. Meu primo levou um tiro durante um roubo de carro e quase morreu. Só não morreu mesmo porque estava no auge da saúde e da forma física.

Tavez se ele tivesse morrido hoje eu seria uma pessoa mais amarga querendo pena de morte e dizendo que “bandido bom é bandido morto”. Mas já que ele não morreu, eu ainda insisto em me colocar no lugar dos jovens criminosos. É fácil julgar quando se teve pai e mãe presentes que te deram amor e educação. Eu sempre tive comida na mesa, roupa limpa e passada e um teto.

Então, eu vejo a questão da criminalidade como uma expressão matemática onde a operação inversa é sempre mais difícil. Por exemplo, multiplicar é muito mais fácil do que dividir e exponenciação é muito mais fácil do que tirar a raiz. Ou seja, é fácil pereber o dano que um criminoso nos faz. Eles tomam nossos pertences ou eles nos agridem física ou psicologicamente. Mas qual é a operação inversa aqui? Será que nós não os agredimos também de uma forma que não é tão simples de perceber?

Ao contrário de muitos, eu não me importo em pagar um pouco mais de impostos para diminuir a desigualdade. Eu não me importo em pagar por métodos contraceptivos para postos de saúde. Eu não me importo em pagar por saúde, educação e moradia. Mesmo quando não são pra mim. Porque eu entendo que um mundo mais igualitário é um mundo menos violento. Tirar um pouco dos mais ricos para diminuir a miséria não é a mesma coisa que comunismo. Injustiça mesmo é dividir um país com gente mesquinha e ainda ter que enfrentar os bandidos dos outros.