sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

A morte de uma moça e a estupidez humana

Eu tenho um costume estranho que pratico quando estou sozinha: ligo a TV enquanto me arrumo para sair. Assim eu vou acompanhando as notícias (e descobrindo que cada vez mais estou sem paciência para os noticiários tradicionais). Dia desses vi um caso muito triste, mais uma dessas violências que existem por causa do machismo (ou do sexismo, como preferirem). Uma moça foi brutalmente assassinada. Em seu corpo, achado vários dias depois, havia sinais de violência sexual.

Sempre que uma mulher é estuprada, questionam sua história ou questionam sua atitude. Questionam a roupa que ele vestia, o local que frequentava, a ingestão de bebida alcoólica ou outras drogas, a hora que estava fora de casa e questionam até a veracidade da história, já que questionam se foi estupro ou sexo consentido (e a mulher não se lembra, porque estava com a consciência alterada).

Vítimas de estupro normalmente tem suas declarações questionadas. Eu observo isso em comentários de portais de notícias. Questionam o local que a mulher frequentou, questionam as roupas que usavam, a ingestão de bebidas alcoólicas ou drogas, etc. Como mulher, as recomendações que você ouve desde muito jovem é: cuidado com a postura, não aceite bebidas de estranhos, evite sair sozinha a noite, etc. No entanto, poucos pais tem conversas com seus filhos sobre estupros. Poucos falam aos filhos homens da importância do consentimento: sexo deve ser consentido e entre duas pessoas mentalmente capazes. 

Eu não consigo nem imaginar a dor de ser questionada após sofrer uma violência. Tantas mulheres, vítimas de violência, são diariamente desrespeitadas em delegacias e até por suas famílias. Felizmente hoje  existem as Delegacias da Mulher, no entanto ainda em número insuficiente e muitas não abrem aos fins de semana. Um dos pontos de luta de muitos grupos feministas é justamente ampliar o atendimento. 

A moça da notícia que li era prostituta. Ela trabalhava na rua, fazia ponto na região da Barra Funda. Li alguns comentários de gente questionando a possibilidade de uma prostituta sofrer violência sexual. Para muitos, ser prostituta significa aceitar fazer sexo em qualquer circunstância. Afinal de contas, ela está sendo paga. Além disso, a prostituta é uma trabalhadora que tem seu valor reduzido: é tratada como escória. Prostitutas não vendem sem corpo. Elas alugam seu tempo para que o seu cliente tenha prazer e como qualquer profissional de qualquer área, não merecem ser desrespeitadas. Imoral ou não, isso é opinião de cada um.  Estou sendo contundente demais? Acho que não. Profissionais do sexo são marginalizadas e maltratadas diariamente.

É como se a vida da moça não tivesse valor, pois exercia uma atividade que nossa sociedade recheada de falso moralismo considera repugnante. Ela já teria sua história questionada normalmente, pois é mulher e era uma moça muito bonita, exuberante. Já diriam que a culpa é dela mesmo. Sendo prostituta, a quantidade de dedos apontados se multiplicou astronomicamente. Para muitos, ela merecia aquele destino.

Para mim é assustador ver que a maioria dessas pessoas se diz praticante de alguma religião (no caso, como estamos falando de algo que ocorreu no Brasil, de alguma corrente do Cristianimo). Essas pessoas, que acreditam em Deus (e muitas dizem que Jesus é seu ~Salvador Pessoal~) acham correto atirar pedras em uma mulher que sofreu violência. Eu vejo uma incoerência enorme aí. Assim como muitos cristãos que também defendem a pena de morte (assunto para outro post). 

O mundo ainda é muito difícil para as mulheres. Nossas histórias de dor e violência são muitas vezes desacreditadas ou minimizadas. Certa vez, eu caminhava pela rua quando um homem passou a mão em mim. Chorei muito e fiquei em pânico por algum tempo. Quando conversei com duas pessoas sobre esse caso, uma delas fez pouco da situação, disse que era normal e que pelo menos não fui estuprada. A outra pessoa foi gentil comigo e se colocou em meu lugar. Isso faz muito tempo. Já li e ouvi vários relatos de violência (física, sexual e verbal). Como já disse a Lola Aronovich algumas vezes: toda mulher tem uma história de horror para contar. 

Espero que o assassino da moça seja encontrado, seja julgado e preso. Pela descrição do crime, parece muito um psicopata e temo que possa matar outras mulheres. 

Vi a imagem acima aqui (que é um ótimo blog, por sinal!)

Um comentário:

  1. Concordo com tudo o que está neste texto. Quero aproveitar este momento para acrescentar uma história que soube recentemente. Uma pessoa da família (e quem for meu amigo de fato ou até mesmo alguns colegas, sabem de quem estou falando), ficou preso durante um tempo. Neste período na cadeia, o pai desta pessoa ia visita-lo regularmente. Não sei como mas este pai passou a levar a mãe de outro presidiário para visitar o filho. Onde quero chegar é neste segundo presidiário. Ele foi acusado e condenado a prisão por ser supostamente ser um maníaco de sua cidade. O que agravou ainda mais a situação desta pessoa foi que a foto dele saiu na mídia. Fato é que o verdadeiro maníaco se entregou, tempos depois. O Estado e a mídia se calaram. O Estado não quer assumir este erro de ter condenado uma pessoa por um crime que ele não cometeu, e a mídia, a mídia se calou. Este tipo de injustiça há aos montes neste país e, deveria ser um dos principais motivos para haver uma enorme ponderação por parte dos que defendem a pena de morte neste país. Não há estrutura para garantir que não ocorram erros como este. Independente de outros motivos particulares de cada um contra ou a favor da pena de morte. Os que são a favores alegam que a reincidência poderia ser um motivo para a aplicação da pena de morte, talvez..., é necessário pensar.

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