quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A abrangência do reacionarismo

Reacionarismo.
Existe essa palavra? Guimarães Rosa que me inspire, mas vou utilizá-la.

Ok, o corretor automático não reclamou. Fui procurar no dicionário e achei. Mas mesmo se a palavra não existisse, eu iria usar. O Português, principalmente o Português Brasileiro me dá muitas liberdades. Pelo menos o idioma nos dá liberdades.

Vivi duas situações nos últimos dias que me inspiraram a escrever esse post.  A propósito, esse post vai ficar bem logo, mas não pude evitar. Sendo assim, separei cada situação com um título. Percebi que o reacionarismo está muito abrangente. E até gente que teve acesso à educação repete ladainha reacionária, como comentou o Rodrigo


Bolsa família é esmola.

A primeira delas, foi uma amiga dos tempos da adolescência, que compartilhou a seguinte imagem:



Em uma análise bem superficial, é um humor que tem como alvo o oprimido e não o opressor. É um humor que "bate" em quem está na situação mais vulnerável. É um humor tão superficial como minha análise: o observador julga aquilo que vê sem aprofundar sequer 1mm no entendimento da situação.

Se você tiver estômago, leia toda a thread referente à imagem. Eu escrevi para minha colega:

Não concordo. Aposto que se a senhora pobre tivesse as mesmas oportunidades que a senhora rica, ela não teria vários filhos. Diversos indicadores mostram que quanto mais anos de escolaridade a mulher tem, menor a taxa de fecundidade.

Minha amiga tentou argumentar meu comentário com um apelo a autoridade, digamos assim. Ela disse que "qualquer pessoa sabe que já é difícil criar 1, imagine 2, 3 ...". Explico a questão da suposta autoridade: ela tem 2 filhos. Só que o argumento dela não serve de nada. Ela ainda não entendeu que teve privilégios que a pessoa que tem 7 filhos, sendo 3 morando em abrigos, e habita uma área de invasão certamente não teve.

O interessante é que acima da imagem, essa amiga escreveu: "Para Refletir". Só que não vi reflexão nas outras pessoas que comentaram no mural dela. Muito ironizaram o Bolsa Família e outros programas de redistribuição de renda do Governo Federal. A propósito, parece que ironizar o Bolsa Família e chamar  pobres de vagabundos deve estar no primeiro mandamento do Reacionarismo. O -ismo é para soar como uma religião mesmo, mais precisamente como um praticante fundamentalista de uma religião, porque ao que parece essas pessoas questionam sem aprofundar-se na situação, repetindo aquelas ladainhas nojentas ou soluções prontas apresentadas por um certo semanário de destaque e por alguns apresentadores de telejornais.

Para fazer parte do Bolsa Família, a família precisa cumprir uma série de exigências. As crianças precisam frequentar a escola e estarem com a caderneta de vacinação em dia. Alguns críticos dizem que esses programas geram pessoas acomodadas. O Banco Mundial discorda disso.

Sabe o que eu penso? Que 70 reais não mudam a vida de uma pessoa de classe média, mas mudam muito a vida de uma pessoa pobre. Com R$70,00, será possível comprar uma roupa melhor para o filho. Arroz, feijão, leite... Esse valor que para muitos pode ser "esmola do governo" é o que pode dar um diferencial na vida de uma família. Então sobra dinheiro para reformar o banheiro. A mãe pode pensar em fazer salgados para vender. A renda então se multiplica, porque o programa tira as pessoas da situação de miséria e exclusão, ampliando os horizontes para que ela possa crescer. E os números mostram que várias pessoas pediram voluntariamente para se desligar do programa, pois as condições financeiras melhoraram.

A igreja que minha mãe frequenta monta algumas cestas básicas para as pessoas. Alguns consideram aquilo como esmola, mas para mim é redistribuição também: elas ganham a cesta básica, sobra um dinheirinho que elas podem usar para comprar carne, verduras, legumes ou até para futuramente empreender em alguma outra coisa. Pequenos empreendimentos (vendas, salões de beleza, lojinhas, mercearias, botecos, etc) são muito comuns na prefeitura e são a principal fonte de sustento de muita gente. E as estatísticas mostram que há muito mais empreendedoras do que empreendedores.

O dinheiro se multiplica, os filhos do beneficiado por um programa social (seja governamental ou de uma igreja/instituição) poderão estudar mais por mais tempo e com mais dedicação. Ou seja: não é esmola, não é caridade. É uma oportunidade. Muito mais que oportunidade: é justiça social.

Falta investir em educação? Claro que falta! Falta investir no desenvolvimento tecnológico para que mais empregos sejam gerados? Claro que sim. Não estou ignorando isso. A propósito, os reacionários precisam entender que quando a gente defende o bolsa família, não está excluindo essas coisas. Os programas sociais tiraram as pessoas da miséria.

Agora vamos ao outro ponto da charge compartilhada pela minha amiga: a quantidade de filhos. A taxa de fecundidade só vem caindo nos últimos 70 anos. Na Região Norte, onde a taxa de fecundidade é maior, são 2,47 filhos por mulher de acordo com dados de 2010. Considerando o Brasil e o Mundo como um todo, as estatísticas mostram que a taxa de fecundidade é maior nos locais mais pobres. Em 2012, éramos cerca de 7 bilhões de pessoas no mundo e a BBC publicou um artigo bem completo sobre o tema. Em dei um destaque a ele no Meteorópole (leia aqui) e destaco o seguinte:

Os especialistas concordam que é bem provável que este número assustador seja o ápice da curva de crescimento de habitantes no planeta Terra. Muitas nações já tem taxas muito baixas e até negativas de crescimento populacional. Um outro ponto em que os especialistas consultados pela BBC convergem é de que não adianta propor medidas de esterilização da população, como foi feito por muito tempo na Índia. Esse tipo de medida não reduz a pobreza. A melhor alternativa, segundo os especialistas, é dar as mulheres as mesmas condições que os homens: educação formal e trabalho. Nas nações pobres, as taxas de crescimento populacional são as maiores. Se as mulheres tiverem condições de estudar e construirem uma carreira, em outras palavras, se o machismo for combatido, as mulheres poderão escolher e certamente ao conciliarem carreira e maternidade, optarão em ter menos filhos.

Ou seja: a luta por um mundo em que a gente use menos recursos (mais sustentável), por um mundo justo e por um mundo com oportunidades iguais para todos é também uma luta feminista.

E cá entre nós, é um absurdo como os ricos querem dominar até os corpos dos pobres, principalmente das mulheres pobres. Já ouvi reacionário falar em laqueadura obrigatória. Já ouvi reacionário criticar o short curto da menina da favela (ah, desse jeito fica grávida). Até o cabelo loiro criticam (só fica bem em mulher branca). Só que a filha desse reacionário vai pro shopping com o mesmo short curto. Ah, ela não fica grávida. Tem só um filho depois que terminar a faculdade e tiver uma carreira. 

A pane no metrô

Eu entrei numa estação do metrô e as enormes filas antes da catraca já indicavam que algum problema estava acontecendo. Depois de alguns minutos entrei na estação e me dirigi à plataforma. Peguei um trem cheio, mas ainda era possível ficar em pé de maneira confortável. O trem em que eu estava teve um pequeno problema e abriu as portas. Então fechou de novo. E uma pessoa começou a criticar, dizendo que estava daquele jeito havia muitas estações. Ela dirigiu a palavra a mim e começou a dizer que os funcionários do metrô eram vagabundos, que estavam planejando uma greve, que nesse país só tem vagabundo, etc. Fiquei só ouvindo e respondi:

- É, hoje o dia tá difícil.

Daí ela começou a falar que todo dia era daquele jeito, que o povo aqui só pensa em funk e BBB, que todo mundo é vagabundo (ela repetiu a palavra várias vezes), que só te violência no Brasil, que em outros países é diferente, que na Europa é diferente (importante: ela não conhece o sistema de transportes de Nápoles), etc.

Sabe ela falou apenas aquilo que é dito o tempo todo. Ela não sugeriu nada para melhorar a situação. Discursou palavras de ódio. Um discurso de reacionarismo extremo. Daí ela começou a defender pena de morte pra todo mundo (e eu só ouvindo, arregalando os olhos). 

Então ela começou a dizer que tinha sorte de ser evoluída e que esperava que os irmãos de outra galáxia a buscassem logo. Com todo respeito às crenças dela  - deduzo que ela seja espírita -, cadê a humildade? Bom, parece que é quase uma regra, muita gente realmente se acha acima da média

Continuei ouvido. Ela disse que essa galera Star Wars estava vindo buscar ela e ela sabia disso porque o eixo da Terra estava mudando. Ok, vocês vão dizer: Samantha, está bem claro que essa pessoa tem parafusos a menos. Não sei. Ela aparentemente voltava do trabalho e fora essas coisas estava com um aspecto bem usual. Acho que ela procurou nesse pensamento mágico algo para satisfazer seus problemas. Aqueles problemas que de um modo ou de outro, todos nós temos. 

Eu me despedi da pessoa, que desceu uma estação antes de mim. O discurso dela é bem comum. Antes da historia da galáxia distante, tudo o que ela disse eu já tinha ouvido antes. Eu já tinha ouvido antes, milhares de vezes. E infelizmente não acho que vou parar de ouvir. 

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