quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A abrangência do reacionarismo

Reacionarismo.
Existe essa palavra? Guimarães Rosa que me inspire, mas vou utilizá-la.

Ok, o corretor automático não reclamou. Fui procurar no dicionário e achei. Mas mesmo se a palavra não existisse, eu iria usar. O Português, principalmente o Português Brasileiro me dá muitas liberdades. Pelo menos o idioma nos dá liberdades.

Vivi duas situações nos últimos dias que me inspiraram a escrever esse post.  A propósito, esse post vai ficar bem logo, mas não pude evitar. Sendo assim, separei cada situação com um título. Percebi que o reacionarismo está muito abrangente. E até gente que teve acesso à educação repete ladainha reacionária, como comentou o Rodrigo


Bolsa família é esmola.

A primeira delas, foi uma amiga dos tempos da adolescência, que compartilhou a seguinte imagem:



Em uma análise bem superficial, é um humor que tem como alvo o oprimido e não o opressor. É um humor que "bate" em quem está na situação mais vulnerável. É um humor tão superficial como minha análise: o observador julga aquilo que vê sem aprofundar sequer 1mm no entendimento da situação.

Se você tiver estômago, leia toda a thread referente à imagem. Eu escrevi para minha colega:

Não concordo. Aposto que se a senhora pobre tivesse as mesmas oportunidades que a senhora rica, ela não teria vários filhos. Diversos indicadores mostram que quanto mais anos de escolaridade a mulher tem, menor a taxa de fecundidade.

Minha amiga tentou argumentar meu comentário com um apelo a autoridade, digamos assim. Ela disse que "qualquer pessoa sabe que já é difícil criar 1, imagine 2, 3 ...". Explico a questão da suposta autoridade: ela tem 2 filhos. Só que o argumento dela não serve de nada. Ela ainda não entendeu que teve privilégios que a pessoa que tem 7 filhos, sendo 3 morando em abrigos, e habita uma área de invasão certamente não teve.

O interessante é que acima da imagem, essa amiga escreveu: "Para Refletir". Só que não vi reflexão nas outras pessoas que comentaram no mural dela. Muito ironizaram o Bolsa Família e outros programas de redistribuição de renda do Governo Federal. A propósito, parece que ironizar o Bolsa Família e chamar  pobres de vagabundos deve estar no primeiro mandamento do Reacionarismo. O -ismo é para soar como uma religião mesmo, mais precisamente como um praticante fundamentalista de uma religião, porque ao que parece essas pessoas questionam sem aprofundar-se na situação, repetindo aquelas ladainhas nojentas ou soluções prontas apresentadas por um certo semanário de destaque e por alguns apresentadores de telejornais.

Para fazer parte do Bolsa Família, a família precisa cumprir uma série de exigências. As crianças precisam frequentar a escola e estarem com a caderneta de vacinação em dia. Alguns críticos dizem que esses programas geram pessoas acomodadas. O Banco Mundial discorda disso.

Sabe o que eu penso? Que 70 reais não mudam a vida de uma pessoa de classe média, mas mudam muito a vida de uma pessoa pobre. Com R$70,00, será possível comprar uma roupa melhor para o filho. Arroz, feijão, leite... Esse valor que para muitos pode ser "esmola do governo" é o que pode dar um diferencial na vida de uma família. Então sobra dinheiro para reformar o banheiro. A mãe pode pensar em fazer salgados para vender. A renda então se multiplica, porque o programa tira as pessoas da situação de miséria e exclusão, ampliando os horizontes para que ela possa crescer. E os números mostram que várias pessoas pediram voluntariamente para se desligar do programa, pois as condições financeiras melhoraram.

A igreja que minha mãe frequenta monta algumas cestas básicas para as pessoas. Alguns consideram aquilo como esmola, mas para mim é redistribuição também: elas ganham a cesta básica, sobra um dinheirinho que elas podem usar para comprar carne, verduras, legumes ou até para futuramente empreender em alguma outra coisa. Pequenos empreendimentos (vendas, salões de beleza, lojinhas, mercearias, botecos, etc) são muito comuns na prefeitura e são a principal fonte de sustento de muita gente. E as estatísticas mostram que há muito mais empreendedoras do que empreendedores.

O dinheiro se multiplica, os filhos do beneficiado por um programa social (seja governamental ou de uma igreja/instituição) poderão estudar mais por mais tempo e com mais dedicação. Ou seja: não é esmola, não é caridade. É uma oportunidade. Muito mais que oportunidade: é justiça social.

Falta investir em educação? Claro que falta! Falta investir no desenvolvimento tecnológico para que mais empregos sejam gerados? Claro que sim. Não estou ignorando isso. A propósito, os reacionários precisam entender que quando a gente defende o bolsa família, não está excluindo essas coisas. Os programas sociais tiraram as pessoas da miséria.

Agora vamos ao outro ponto da charge compartilhada pela minha amiga: a quantidade de filhos. A taxa de fecundidade só vem caindo nos últimos 70 anos. Na Região Norte, onde a taxa de fecundidade é maior, são 2,47 filhos por mulher de acordo com dados de 2010. Considerando o Brasil e o Mundo como um todo, as estatísticas mostram que a taxa de fecundidade é maior nos locais mais pobres. Em 2012, éramos cerca de 7 bilhões de pessoas no mundo e a BBC publicou um artigo bem completo sobre o tema. Em dei um destaque a ele no Meteorópole (leia aqui) e destaco o seguinte:

Os especialistas concordam que é bem provável que este número assustador seja o ápice da curva de crescimento de habitantes no planeta Terra. Muitas nações já tem taxas muito baixas e até negativas de crescimento populacional. Um outro ponto em que os especialistas consultados pela BBC convergem é de que não adianta propor medidas de esterilização da população, como foi feito por muito tempo na Índia. Esse tipo de medida não reduz a pobreza. A melhor alternativa, segundo os especialistas, é dar as mulheres as mesmas condições que os homens: educação formal e trabalho. Nas nações pobres, as taxas de crescimento populacional são as maiores. Se as mulheres tiverem condições de estudar e construirem uma carreira, em outras palavras, se o machismo for combatido, as mulheres poderão escolher e certamente ao conciliarem carreira e maternidade, optarão em ter menos filhos.

Ou seja: a luta por um mundo em que a gente use menos recursos (mais sustentável), por um mundo justo e por um mundo com oportunidades iguais para todos é também uma luta feminista.

E cá entre nós, é um absurdo como os ricos querem dominar até os corpos dos pobres, principalmente das mulheres pobres. Já ouvi reacionário falar em laqueadura obrigatória. Já ouvi reacionário criticar o short curto da menina da favela (ah, desse jeito fica grávida). Até o cabelo loiro criticam (só fica bem em mulher branca). Só que a filha desse reacionário vai pro shopping com o mesmo short curto. Ah, ela não fica grávida. Tem só um filho depois que terminar a faculdade e tiver uma carreira. 

A pane no metrô

Eu entrei numa estação do metrô e as enormes filas antes da catraca já indicavam que algum problema estava acontecendo. Depois de alguns minutos entrei na estação e me dirigi à plataforma. Peguei um trem cheio, mas ainda era possível ficar em pé de maneira confortável. O trem em que eu estava teve um pequeno problema e abriu as portas. Então fechou de novo. E uma pessoa começou a criticar, dizendo que estava daquele jeito havia muitas estações. Ela dirigiu a palavra a mim e começou a dizer que os funcionários do metrô eram vagabundos, que estavam planejando uma greve, que nesse país só tem vagabundo, etc. Fiquei só ouvindo e respondi:

- É, hoje o dia tá difícil.

Daí ela começou a falar que todo dia era daquele jeito, que o povo aqui só pensa em funk e BBB, que todo mundo é vagabundo (ela repetiu a palavra várias vezes), que só te violência no Brasil, que em outros países é diferente, que na Europa é diferente (importante: ela não conhece o sistema de transportes de Nápoles), etc.

Sabe ela falou apenas aquilo que é dito o tempo todo. Ela não sugeriu nada para melhorar a situação. Discursou palavras de ódio. Um discurso de reacionarismo extremo. Daí ela começou a defender pena de morte pra todo mundo (e eu só ouvindo, arregalando os olhos). 

Então ela começou a dizer que tinha sorte de ser evoluída e que esperava que os irmãos de outra galáxia a buscassem logo. Com todo respeito às crenças dela  - deduzo que ela seja espírita -, cadê a humildade? Bom, parece que é quase uma regra, muita gente realmente se acha acima da média

Continuei ouvido. Ela disse que essa galera Star Wars estava vindo buscar ela e ela sabia disso porque o eixo da Terra estava mudando. Ok, vocês vão dizer: Samantha, está bem claro que essa pessoa tem parafusos a menos. Não sei. Ela aparentemente voltava do trabalho e fora essas coisas estava com um aspecto bem usual. Acho que ela procurou nesse pensamento mágico algo para satisfazer seus problemas. Aqueles problemas que de um modo ou de outro, todos nós temos. 

Eu me despedi da pessoa, que desceu uma estação antes de mim. O discurso dela é bem comum. Antes da historia da galáxia distante, tudo o que ela disse eu já tinha ouvido antes. Eu já tinha ouvido antes, milhares de vezes. E infelizmente não acho que vou parar de ouvir. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Quem são os moradores de rua?

De acordo com o Instituto Brasieiro de Geografia e Estatística (IBGE), 1.8 milhões de pessoas são moradores de rua no Brasil. Só na cidade de São Paulo são 15 mil (censo 2010), 5 mil a mais do que a dez anos atrás (censo 2003). Mas não se preocupe, a copa do mundo está aí para “limpar” os centros das grandes cidades. Mas antes que os moradores de ruas desapareçam da sua vista, então solucionando o problema definitivamente pra você, você já parou pra pensar quem são estas pessoas e por quê elas vivem nas ruas?

Existem poucos estudos sobre moradores de ruas no Brasil. Sabe-se que o grupo de moradores de rua é bastante heterogênio. Existem pessoas de várias idades e estados civís, vivendo sozinhos ou em família e morando nas ruas ou em abrigos improvisados. As principais causas que levem pessoas `as ruas são: violência, dependência química, desemprego e condições de saúde.

http://noalmaltrato1995.files.wordpress.com/2011/12/maltrato-fisico.jpg

A principal forma de violência é a violência doméstica, que pode ser física ou psicológica e muitas vezes movida por preconceitos.
http://www.monografias.com/trabajos35/violencia-familiar/Image2990.gif

A violência doméstica afeta principalmente mulheres, idosos, jovens e crianças.

http://farm7.staticflickr.com/6213/6338300257_a7e75147c1_b.jpg
A dependência química (incluindo o álcool) leva as pessoas as ruas onde elas encontram as formas e a liberdade necessárias para manter seus vícios.
O desemprego afeta principalente imigrantes mal sucedidos e ex-detentos.

http://www.flickr.com/photos/cbnsp/5677974386/in/photostream/
Tom Zé sem-teto
do blog to Milton Jung
Em relação à condições de saúde, as famílias muitas vezes têm preconceito ou não têm condições de cuidar de pessoas como portadores do vírus HIV, deficientes físicos, e até de pessoas com hanseníase. Mas a grande maioria dos moradores de rua com problemas de saúde são pessoas com algum tipo de sofrimento mental.

Não precisa ter muito miolo no cérebro para conectar os pontos e entender que as causas que levam uma pessoa a viver nas ruas não são independentes entre si. Talvez a deficiência mental levou a pessoa a usar drogas. Ou talvez o uso de drogas serviu como um gatilho para uma pré-disposição à certo sofrimento mental. Não fui capaz de encontrar uma estimativa da porcentagem dos moradores de rua do Brasil que têm deficiência mental. O que já mostra o quanto o Brasil se importa com o problema. Nos Estados Unidos, cerca de 39% dos moradores de rua apresentam alguma forma de deficiencia mental, sendo que 22% apresentam deficiência mental severa (algumas fontes aqui e aqui). Ou seja, se as estatísticas forem semelhantes no Brasil, no mínimo um a cada 4 moradores de rua não têm condição de manter um emprego, mesmo se tivesse a oportunidade de trabalhar.

Recentemente, o blogueiro Leonardo Sakamoto criou uma enquete sobre preconceito em São Paulo (clique aqui) onde você podia escolher a expressão preconceituosa ouvida nas ruas que mais te incomoda (veja o resultado da enquete aqui). Uma delas era: “Tá com dó [de dependente químico ou sem-teto]? Leva pra casa!”. Este é um mantra reacionário de quem não sabe e nem quer saber as causas do problema. Uma vez que você tem consciência de que a maioria dos moradores de rua não têm condições pscicológicas de viver uma vida “normal”, esta frase torna-se no mínimo cruel.

Muitas das informações utilizadas neste texto foram tiradas de informações disponibilizadas no site do IBGE.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Feminicídio

Esse é um post de recortes, cheio de materiais que li recentemente para me informar sobre um assunto muito sério: violência contra a mulher. Bom, como mulher não preciso ir longe para ver isso acontecer. Amigas, colegas e até desconhecidas já me contaram de histórias de horror. Desde criança, as meninas aprendem que alguns homens são perigosos. Que devemos evitar locais escuros, que devemos evitar certos tipos de roupas, que devemos evitar certos comportamentos, etc. E se algo acontecer com você, inevitavelmente vão te culpar.

Só que eu queria estatísticas. Para algumas pessoas (normalmente homens), essa história de violência contra mulher é exagero, é uma história distante, que talvez aconteça no Afeganistão, no México ou talvez numa favela. Sim, muitos homens brancos de classe média afastam os problemas sociais de sua zona de conforto, de sua esfera de relacionamentos. Sendo assim, para eles o problema não existe.

Já cansei de ler textos sobre o assunto e quando chego na parte dos comentários (é, os comentários...), leio todo tipo de barbaridade. As mesmas barbaridades que já ouvi colegas mencionarem. Quando é um caso de estupro, tentam culpar a mulher ou minimizar o fato. Quando é um caso de agressão, dizem que a mulher mereceu. Quando a cantora Rihanna foi agredida por seu então namorado, Chris Brown, li muita gente que defendeu o sujeito, sob o pretexto de que Rihanna era "muito saidinha". Para alguns, é perfeitamente justificável um homem agredir uma mulher em algumas circunstâncias: traição, suposta traição, roupa curta, ter amigos, ser gentil com um colega, etc.

Em meu post anterior que eu tenho um hábito estranho de me arrumar e deixar a TV ligada. E nesses 30min em que me arrumo, eu diria que todos os dias, ouço pelo menos uma notícia sobre a morte de uma mulher. As estatísticas mostram que é mais do que isso. Um estudo do Ipea mostrou que a cada 1h30min, ocorre um feminicído no Brasil. Li recentemente no site da Agência Patrícia Galvão de cada 10 brasileiros, 6 conhecem pelo menos uma mulher que foi vítima de violência doméstica.

Além disso, o ambiente doméstico é bem mais perigoso para as mulheres do que para os homens. O Anuário das Mulheres Brasileiras de 2011 mostra que dentre as mulheres que foram assassinadas no Brasil naquele ano, 28,4% morreram em casa, em contraponto a apenas 9,7% do total de homens assassinados. 

Aqui usei o termo feminicídio (termo este que nem o corretor ortográfico do meu editor de textos não reconhece!) porque é muito diferente do homicídio tradicional. O feminicídio é um homicídio motivado por um conflito de gênero. Ou seja, a mulher morre por ser mulher. Normalmente o assassino é um homem, principalmente um parceiro ou ex-parceiro e em situações de abuso familiar. Normalmente o crime é 'anunciado': há ocorrências anteriores de agressão física e/ou sexual, de perseguição e de ameaças.

 E recentemente também vi um mapa assustador:.

Clique no mapa para ampliar.

O mapa acima mostra os níveis de segurança física para as mulheres em todos os países do mundo. Repare que no mapa, não existe lugar do mundo na cor branca (onde as mulheres estão completamente seguras, de acordo com a escala). A insegurança está em todos os lugares. Os níveis de segurança são um pouco maiores em alguns países (destaque para a Europa Ocidental). Na América do Sul, a Argentina e o Chile são mais seguros que o Brasil. 

Eu vi o mapa neste artigo da Wikipedia, que fala especificamente de violência contra a mulher. É um excelente artigo para educar homens e mulheres. Muitas vezes, nós mulheres nos deixamos dominar pela visão do patriarcado. Isso não pode acontecer, precisamos ler, nos educar e lutar por um mundo mais justo e seguro para todas nós.

Os dados deste mapa são do WomanStats.org, que é um projeto organizado por pesquisadores acadêmicos de diversas instituições, com o objetivo de fornecer estatísticas sobre a desigualdade de gênero e a violência contra a mulher em todos os países do mundo.  

Peço que todos os homens que estão lendo esse texto façam esse exercício de observação nos noticiários. Veja quantos casos de assassinatos existem e percebam como normalmente são os assassinatos contra os homens (latrocínio e crimes relacionados ao narcotráfico, principalmente) e os assassinatos contra as mulheres. Homens não morrem por que são homens. 

Além disso, pense nas mulheres que você conhece e que já foram vítima de violência. Tenho certeza que todo mundo conhece pelo menos um caso, nem que seja daquela vizinha que se mudou há alguns anos ou daquela colega de trabalho do outro setor.



segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Chapando pela bunda



Eu sempre me perguntei qual seria o tópico que me faria desenvolver um pensamento mais conservador em comparação às gerações mais jovens. Pessoas mais velhas tendem a ser mais conservadoras. Então, em algum momento da sua vida você começa a cruzar aquela fronteira da total desaprovação às ações dos mais jovens. Esse assunto sempre foi motivo de fascinação pra mim.

Eu acredito que eu comecei a cruzar essa fronteira no ano passado, quando vi uma notícia que um aluno da Universidade do Tennessee dos Estados Unidos tinha sido encaminhado ao hospital com envenenamento severo. O motivo, uma prática conhecida como "Butt-Chugging". Do inglês “butt” significa bunda e “chugging” seria o ato de virar um copo de bebida alcóolica. Portanto eu traduziria como "chapando pela bunda".


  http://www.deathandtaxesmag.com/189285/tennessee-frat-denies-butt-chugging-charges/


A molecada descobriu que quando o álcool é inserido pelo anus a pessoa fica muito mais bêbada muito mais rápido. Como a principal função do intestino é a de absorver nutrientes, se você insere álcool pelo anus o álcool é absorvido muito mais rápido do que se fosse ingerido. A prática é muito perigosa e pode levar à morte.

E essa não é a única forma. Existe também a prática de encharcar um absorvente interno em bebida e inseri-lo na vagina ou no anus. É a velha história de eliminar o intermediário (revendedor) para aumentar os lucros. Aqui no caso, o estômago.

Então agora eu sei. Quando eu ficar velho eu serei um daqueles velhinhos que ficam repetindo o tempo todo: "essa juventude tá perdida, no meu tempo a gente se embriagava pela boca".

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

A morte de uma moça e a estupidez humana

Eu tenho um costume estranho que pratico quando estou sozinha: ligo a TV enquanto me arrumo para sair. Assim eu vou acompanhando as notícias (e descobrindo que cada vez mais estou sem paciência para os noticiários tradicionais). Dia desses vi um caso muito triste, mais uma dessas violências que existem por causa do machismo (ou do sexismo, como preferirem). Uma moça foi brutalmente assassinada. Em seu corpo, achado vários dias depois, havia sinais de violência sexual.

Sempre que uma mulher é estuprada, questionam sua história ou questionam sua atitude. Questionam a roupa que ele vestia, o local que frequentava, a ingestão de bebida alcoólica ou outras drogas, a hora que estava fora de casa e questionam até a veracidade da história, já que questionam se foi estupro ou sexo consentido (e a mulher não se lembra, porque estava com a consciência alterada).

Vítimas de estupro normalmente tem suas declarações questionadas. Eu observo isso em comentários de portais de notícias. Questionam o local que a mulher frequentou, questionam as roupas que usavam, a ingestão de bebidas alcoólicas ou drogas, etc. Como mulher, as recomendações que você ouve desde muito jovem é: cuidado com a postura, não aceite bebidas de estranhos, evite sair sozinha a noite, etc. No entanto, poucos pais tem conversas com seus filhos sobre estupros. Poucos falam aos filhos homens da importância do consentimento: sexo deve ser consentido e entre duas pessoas mentalmente capazes. 

Eu não consigo nem imaginar a dor de ser questionada após sofrer uma violência. Tantas mulheres, vítimas de violência, são diariamente desrespeitadas em delegacias e até por suas famílias. Felizmente hoje  existem as Delegacias da Mulher, no entanto ainda em número insuficiente e muitas não abrem aos fins de semana. Um dos pontos de luta de muitos grupos feministas é justamente ampliar o atendimento. 

A moça da notícia que li era prostituta. Ela trabalhava na rua, fazia ponto na região da Barra Funda. Li alguns comentários de gente questionando a possibilidade de uma prostituta sofrer violência sexual. Para muitos, ser prostituta significa aceitar fazer sexo em qualquer circunstância. Afinal de contas, ela está sendo paga. Além disso, a prostituta é uma trabalhadora que tem seu valor reduzido: é tratada como escória. Prostitutas não vendem sem corpo. Elas alugam seu tempo para que o seu cliente tenha prazer e como qualquer profissional de qualquer área, não merecem ser desrespeitadas. Imoral ou não, isso é opinião de cada um.  Estou sendo contundente demais? Acho que não. Profissionais do sexo são marginalizadas e maltratadas diariamente.

É como se a vida da moça não tivesse valor, pois exercia uma atividade que nossa sociedade recheada de falso moralismo considera repugnante. Ela já teria sua história questionada normalmente, pois é mulher e era uma moça muito bonita, exuberante. Já diriam que a culpa é dela mesmo. Sendo prostituta, a quantidade de dedos apontados se multiplicou astronomicamente. Para muitos, ela merecia aquele destino.

Para mim é assustador ver que a maioria dessas pessoas se diz praticante de alguma religião (no caso, como estamos falando de algo que ocorreu no Brasil, de alguma corrente do Cristianimo). Essas pessoas, que acreditam em Deus (e muitas dizem que Jesus é seu ~Salvador Pessoal~) acham correto atirar pedras em uma mulher que sofreu violência. Eu vejo uma incoerência enorme aí. Assim como muitos cristãos que também defendem a pena de morte (assunto para outro post). 

O mundo ainda é muito difícil para as mulheres. Nossas histórias de dor e violência são muitas vezes desacreditadas ou minimizadas. Certa vez, eu caminhava pela rua quando um homem passou a mão em mim. Chorei muito e fiquei em pânico por algum tempo. Quando conversei com duas pessoas sobre esse caso, uma delas fez pouco da situação, disse que era normal e que pelo menos não fui estuprada. A outra pessoa foi gentil comigo e se colocou em meu lugar. Isso faz muito tempo. Já li e ouvi vários relatos de violência (física, sexual e verbal). Como já disse a Lola Aronovich algumas vezes: toda mulher tem uma história de horror para contar. 

Espero que o assassino da moça seja encontrado, seja julgado e preso. Pela descrição do crime, parece muito um psicopata e temo que possa matar outras mulheres. 

Vi a imagem acima aqui (que é um ótimo blog, por sinal!)

domingo, 12 de janeiro de 2014

Os Reacionários e os Tiozinhos do Boteco



Ultimamente me irrita muito ler posts nas mídias sociais. O motivo é a quantidade absurda de material recheado de informações equivocadas e desonestidade intelectual. Existe uma legião de intolerantes inundando as mídias sociais com seus preconceitos. Ou como eles gostam de dizer, seus "conceitos". Basta alguém inventar uma informação, incluir meia dúzia de argumentos senso comum e citar uma referencia "(Oliveira, 2009)" que eles se encarregam de passar aquilo adiante. Afinal, se Oliveira falou, desse ser verdade, né?

Eu não estou falando de gente humilde e de pouca instrução como aquele tiozinho frequentador do boteco perto da sua casa. Para o tiozinho tanto faz qual o partido do governo e quais leis estão sendo votadas. Se ele puder tomar a cachacinha dele em paz ele tá feliz. Não me entendam mal, isso é ruim para o Brasil. Mas não é dos tiozinhos dos botecos que eu estou falando. Eu estou falando de gente com instrução, gente com no mínimo um diploma de Bacharel.

É gente que vê tudo em preto e branco e não entende que na vida tudo são tons de cinza. Às vezes não é tão simples traçar a linha que separa a justiça da injustiça ou o ético do não ético.



A aversão ao debate é marca registrada desta legião 8 ou 80. Eles gostam de expressar suas opiniões e compartilhar suas gracinhas. Mas quando confrontados não conseguem justificar suas idéias com argumentos sólidos. Normalmente partem para o deboche, sua melhor estratégia. Afinal, se o Gentilli falou, deve ser verdade, né?





Se as pessoas não refletem antes de sairem propagando informação, o que temos é um problema de opinião pública. O resultado é uma quantidade ainda maior de pessoas votando em políticos que estão mais interessados em negar os diretos do próximo do que em garantir os direitos de seus próprios eleitores. Portanto, entre os reacionários e os tiozinhos do boteco, eu prefiro bater papo com os tiozinhos. Porque os tiozinhos não ajudam, mas também não atrapalham... tanto.