segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Reflexões sobre "homens feministas" e auto-estima

Já aviso que nesse post não vou dar nomes aos bois. Não quero que fofocas cheguem até aqui e como dizem em internetês: entendedoras e entendedores entenderão.

Há alguns dias eu estava lendo um blog feminista de muito sucesso. A blogueira (chamaremos de A) relatava um caso envolvendo um blogueiro/colunista famosão (chamaremos de B) e uma das leitoras desse blogueiro (chamaremos de C). O blogueiro B escreveu um post se declarando feminista e a leitora C ficou encantada, aplaudiu e decidiu mandar uma mensagem para o moço. Essa mensagem virou uma conversa. B começou a assediar C (de acordo com o relato de C, que a blogueira A fez questão de publicar). No começo, C ficou meio desconfortável com o assédio, mas por várias razões ela acabou cedendo a esse assédio.

Bom, o post-relato da blogueira A chegou em um ponto, reunindo informações, que concluía que o blogueiro famosão B curte assediar mulheres por aí. Não sei de que forma esse assédio se dá ('oi você é muito linda' ou 'oi, prazer em conhecê-la, quero te comer'), mas assédio é horrível de qualquer maneira. Também não entendi muito bem se era assédio propriamente dito. Não sei se o cara simplesmente "jogava o verde" educadamente e se ele julgasse que a moça correspondia, ele então continuava. Mas aparentemente ele mandava fotos do pênis dele e nem preciso dizer o quanto isso é de mal gosto.

Enfim, parece que o blogueiro famosão B curte assediar mulheres indiscriminadamente. E ele curte assediar mulheres casadas (ele curte saber que outro sujeito está sendo traído, aparentemente ele tem uma tara com isso). Não vou julgar, tem quem curta, tem quem tenha um relacionamento aberto, etc. Mas no final da história, C concluiu que B era um cretino. Opinião dela e que merece ser ouvida.[1]

E qual é meu ponto? Bom, com essa história toda, cheguei a duas importantes conclusões e pretendo falar sobre elas aqui.

A primeira delas é: mulheres, não acreditem em tudo o que vocês leem ou ouvem. Repetindo o óbvio: mulheres, não acreditem em tudo o que vocês leem ou ouvem. Se o sujeito se diz feminista ou escreve um texto se declarando feminista, não significa que ele realmente seja. Falar qualquer papagaio fala, como diziam os antigos. E escrever qualquer um escreve, basta ser funcionalmente alfabetizado. Acontece que as pessoas nem sempre falam e escrevem coisas com sinceridade. Mulheres, os homens estão na política há milênios. Eles aprenderam a dissimular interesses para adquirir co-religionários. Fiquem espertas!

O homem feminista não precisa falar que é feminista ou escrever um texto feminista para isso. A propósito, não é todo mundo que gosta de escrever sobre qualquer assunto. E o protagonismo não é nosso? Ué, se o protagonismo é nosso, porque se derreter toda vez que vê um cara se dizendo feminista? Que fique claro, não to dizendo que todo blogueiro que se diz feminista é um cretino mentiroso, não é isso. O que quero dizer é que há homens se dizendo feministas apenas para COMER VOCÊS. Faz algum tempo que tenho observado esse fenômeno. Numa leitura superficial, parece que isso é muito bom. Mas o que quero dizer é que há homens fingindo ser feministas, vestindo camisetas, bradando lemas feministas e na verdade eles estão apenas FINGINDO. E na verdade são muito, mas muito escrotos. São completamente o oposto do feminismo. São na verdade machistas, babacas pedantes que querem te dizer em que situação você é oprimida, manipuladores, etc. Por isso, cuidado!

Por outro lado, existem vários carinhas legais que não se declaram feministas mas seguem ideais feministas. Alguns porque não tem familiaridade com o termo. Outros porque talvez não achem relevante ficar bradando isso (porque consideram isso óbvio e/ou não querem falar da opressão dos outros). Existem carinhas que foram bem educados pelos seus pais, que tiveram mães independentes, que sabem respeitar o próximo e que estão abertos para imergir no mundo do outro. Não é isso que é um relacionamento: um parceiro entra no mundo do outro parceiro e vice-versa?

Quando conheci meu marido, ele já tinha ideais feministas mas não falava em feminismo. Acho que ainda hoje ele não chama de feminismo, talvez porque não ache relevante. E eu também nem conhecia feminismo na época em que eu o conheci, não conhecia como movimento, quero dizer. Até aí, tem vários movimentos feministas no campo, no mundo todo, que não usam o termo feminismo, mas trabalham com o empoderamento das mulheres. 

Meu marido aprendeu muita coisa comigo, ouvindo o que falo sobre o assunto. E eu aprendi várias coisas com ele também. A evolução da consciência e do conhecimento não é algo pronto. É algo construído. E nessa construção, a sociedade, a família, os amigos e os parceiros amorosos tem muita importância.

Então a primeira conclusão é: não caia de amores por um sujeito apenas porque ele se diz feminista. Ainda mais hoje, na internet, onde é possível se dizer expert ou se declarar militante de qualquer coisa. Avalie outras coisas que o cara escreveu, saiba mais sobre ele, saiba mais sobre os amigos e a família dele. Observe. Muitas vezes, observando por menos de 10min nas redes sociais a gente já sabe qual é a do sujeito. Não ignore sua intuição! 

Meu segundo ponto é: trabalhe para o crescimento de sua auto-estima. E ajude no crescimento da auto-estima de suas amigas, irmãs, colegas de trabalho, mãe, tias, etc. Cerque-se de pessoas positivas, valorize seus pontos mais fortes, leia bastante, estude, sempre busque conhecimento e auto-conhecimento. Não continue o círculo vicioso das mulheres que gostam de criticar a aparência/roupa/corpo/cabelo das colegas de trabalho. Sabe aquela sua colega de trabalho tímida, que anda com os ombros caídos e não fala com ninguém? Dê bom dia, seja gentil, se aproxime. Elogie! Realce os pontos positivos! Muitas mulheres gostam de maquiagem, combine um dia em seu condomínio ou escritório para fazer algumas horas de beleza. Várias empresas de cosméticos oferecem esse tipo de consultoria. Claro que a gente não precisa de maquiagem para nos sentirmos bonitas, mas uma maquiagem bem feita pode realçar a beleza e ajudar na auto-estima das mulheres. Outras sugestões: organize aulas de pilates, ioga, idiomas, clube de leitura, artesanato, etc. Qualquer atividade que proponha o espírito de grupo e estimule a evolução pessoal é bem vinda! 

Repetindo: corte o círculo vicioso das críticas sobre a aparência das suas amigas/colegas. Elimine isso. Se alguma colega vier fazer qualquer comentário sobre uma terceira colega, ignore-a. Deixe claro que você não acha isso legal. E tenha certeza que quem faz esse tipo de crítica sobre os outros para você, faz de você para os outros. Se não conseguir educar, tire essa gente tóxica de seu caminho.

Ame-se! E cerque-se de amor, dê amor, dê carinho para as mulheres que estão próximas. Ajude a criar e a amplificar uma onda de muita auto-estima e positividade. Isso pra mim é o máximo da sororidade. Elogie e incentive o trabalho das outras mulheres, dê sugestões boas e gentis. 

A auto-estima elevada é importante porque na minha opinião, se você se ama e está feliz na própria pele, não vai se envolver com tranqueira. Vai atrair pessoas bacanas, de mente aberta, positivas e dispostas a te ouvir, te respeitar e te amar do jeito que você é. Quando estamos com a auto-estima elevada, nosso radar fica mais ligado e nossos níveis de exigência sobem. Acredito que com a auto-estima lá em cima, a gente fica menos susceptível a se envolver com homens que não nos amam de verdade. [2]

"E lembre-se: Se você não se ama, de que jeito vai amar outra pessoa?"


A intenção desse post não é parecer um tratado de auto-ajuda. Mas do fundo do coração, se eu puder ajudar alguma mulher com esse desabafo, vou ficar imensamente feliz.

E que fique claro que não quero julgar nenhuma mulher que eventualmente tenha caído na lábia de um cara que mentiu, manipulou e enganou. Muitas mulheres (inclusive eu, já que estou escrevendo o texto) já fomos manipuladas. Um dia a gente aprende, começa a enxergar as coisas e passa a querer ajudar outras mulheres. E esse é o meu objetivo!


*****
[1] Deixei toda a primeira parte do texto marcada assim porque aparentemente não entendi a história direito. E quer saber? Acho que entendi o necessário, não quero e nem preciso me aprofundar nesse tipo de conversa. Desde o início, quando escrevi esse texto hoje pela manhã, eu sabia que eu não sabia de todos os detalhes. Por isso usei "talvez" tantas vezes. Também não quero questionar a vítima, nem sei direito o que aconteceu e a vítima merece ser ouvida sim, sempre.

O ponto principal desse texto - e talvez algumas pessoas não tenham entendido direito, pelo que me falaram - é que eu usei o que eu sabia superficialmente do ocorrido para falar sobre homens que usam o feminismo para "pegar mulher" e de como nós precisamos alimentar nossa auto-estima, todos os dias. E sobre como nós podemos aumentar a auto-estima das mulheres que nos cercam. Para mim ficou claro que essa é a mensagem principal do texto, independentemente dos detalhes do que aconteceu. Tanto que nem citei nomes, para que a mensagem do texto não ficasse em segundo plano.

E sinceramente, as pessoas ficam "endeusando" figuras da internet. Isso é horrível, não se deve colocar ninguém em um patamar. Quando o forninho cai, as decepções são terríveis.

[2] Sim, eu acredito no amor, seja ele amor romântico, platônico e etc. Também tem o amor eros, o sexo e etc. Acho que qualquer relacionamento entre duas pessoas tem que envolver amor sim. E não falo apenas de amor romântico, talvez no sentido "amplo completo e burguês da coisa rs". Para mim, respeito é uma forma de amor. E se duas pessoas vão se relacionar apenas por uma noite, curtição, tem que haver esse respeito. O tal amor ao próximo, tão falado por Jesus. É, sou clichêzona, demodê, tradicional, pode me chamar do que quiser rs. 

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Crônicas da Grávida - O Corpo.

Eu estou grávida. Aceito os parabéns e os votos positivos de todos :). Mas sem adulações.

Talvez eu não desejasse esse filho.  Talvez eu não tivesse planejado. No meu caso, eu planejei. Mas eu não sou a primeira e nem a última mulher a engravidar, minha gravidez é minha e é especial para mim. Não é especial para a humanidade.

E detesto adulações.

Como grávida de primeiro trimestre e primeira viagem, evidentemente tenho experimentado sensações e situações que não conhecia antes. A mais assustadora delas até agora é a satisfação doentia de algumas pessoas: "você vai ficar gorda, olha seu rostinho de grávida, vc já tá gorda".

Explico: sempre tive um corpo dentro dos "padrões de beleza brasileiros". Bundão, cintura fina, seios de tamanho médio. Sempre chamei a atenção por isso. E nunca gostei muito dessa atenção, para falar a verdade. Claro que gosto da atenção do meu parceiro, mas odeio chamar a atenção não-solicitada.

Infelizmente, agora tenho percebido a satisfação doentia estampada na cara de algumas pessoas. Que se deliciam em dizer que vou engordar X quilos (elas são bem precisas, dizem o número). Que se deliciam ao ver que minha cinturinha vai desaparecer. Que ficam felizes ao verem que meu rosto vai ficar redondo (já está um pouco redondo rs).

Eu fico tão triste e tão abalada com isso. E vou explicar as razões. A primeira delas é que algumas das pessoas que agiram assim comigo possuem questões relacionadas com sua imagem (sentem-se gordas, fazem ou fizeram regimes, cirurgias plásticas, etc). Eu esperava mais empatia, mas parece que eu estava enganada. A segunda razão é simples: eu realmente tenho medo e engordar. Não tenho vergonha de dizer isso.

Eu não deveria ter esse medo. Claro que não é O MEU MAIOR MEDO NA VIDA, mas é um medinho. Prefiro ter o corpo de antes da gravidez. Sei que isso pode não ser possível, sei que o corpo muda, mas sei mas não quero ser gorda.  Não vou explicar porque não quero ser gorda, mas acredito que além de razões pessoais, fui influenciada pela sociedade que é sim gordofóbica. Estou inserida nessa sociedade, então meu pensamento é moldado dessa forma.

Se eu ficar gorda vou ser infeliz? Não sei, mas acho que não. Eu me sinto muito feliz em diversos aspectos de minha vida. Mas definitivamente, não vou ficar satisfeita.

O terceiro ponto é que considero que as pessoas estão pecando nas prioridades. Poxa, eu estou grávida. Tô feliz, eu queria isso. Não sou idiota, sei dos prós e contras. Então dane-se se vou engordar ou não. Isso não é prioridade!

Quando as pessoas falam que eu vou ficar gorda - e falam com um prazer assustador -, essas razões aparecem na minha frente. E eu me sinto acuada, triste. Infelizmente, tenho percebido ao longo dos dois últimos anos que nem com todo mundo vale a pena manter uma amizade. E se você quer manter a amizade com algumas pessoas, tem que passar por cima de muita coisa, tem que engolir muito sapo. Acontece que não quero mais engolir tantos sapos. Se for uma ou outra rãzinha, até vai. Mas não quero sapos enormes.


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Nossos códigos

Cada um tem um código de conduta, chamarei assim. Esse código pode e deve ser editado ao longo da vida. É influenciado pela religião, educação formal, educação básica (aquela transmitida de pais para filhos), contexto cultural, época em que a pessoa vive, contexto político, etc.

É um código aberto. Pode ser até influenciado por outras pessoas, em maior ou menor grau.

Outro dia eu conversava com uma pessoa sobre traição. A pessoa me contava o caso de uma moça que saia com um rapaz casado e era amiga da família do rapaz. Vamos chamar a moça de Fulana (que criativa rs). Fulana conhecia a esposa do rapaz, a irmã, os sobrinhos, etc. Ela participava ativamente de festas da família, quando os olhares se cruzaram e surgiu um interesse físico.

Odeio traição de todos os tipos. Já vi de perto como pode destruir famílias e amizades. Se prometeu ficar junto e não há nenhum acordo mútuo de casamento aberto, então é traição. E traição machuca, fere, prejudica.

Também não acho que casamento precisa ser "pra sempre". As pessoas mudam, as situações mudam e uma das partes pode perder o interesse por inúmeras razões. Mas pra mim, quando as coisas são feitas com dignidade, há uma conversa madura e o relacionamento acaba. Simples assim. Ok, talvez não tão simples assim. Pode haver choro, dor, burocracias legais, etc. Mas o importante é haver respeito mútuo.

A pessoa com quem eu conversava (e que narrava a história de Fulana) disse que não admitia traição. Eu concordei com o ponto de vista dela, ainda ressaltei que Fulana não deveria ser a única vilã da história, como normalmente ocorre nessas histórias de traição. O marido traidor também estava errado, mais errado do que Fulana, porque fora ele quem rompera o acordo do casamento. Meu interlocutor concordou comigo, achou um absurdo que a culpa sempre recaia na "amante".

Por alguma razão que desconheço, a história descambou para homossexualidade. Meu interlocutor disse que preferia ter uma filha lésbica do que uma filha que fosse "amante de alguém". Nesse momento, perdi total interesse na conversa. Mas continuei ouvindo. Meu interlocutor dizia que ninguém merecia ter uma filha lésbica, que "essa  raça" é influenciada pela TV, que é pura rebeldia, que na verdade quer "atrair a atenção dos homens" etc. Todo aquele tipo de absurdo que as lésbicas ouvem todos os dias de suas vidas.

Tentei explicar que a homossexualidade é uma orientação sexual, que da mesma forma que existem pessoas heterossexuais, existem homossexuais, etc, aquela coisa toda que a gente explica para orientar as pessoas. Aquela coisa toda que DEVE ser explicada nas escolas, mas que infelizmente ainda é um tabu, graças às intervenções da bancada evangélica e de nossa querida presidenta que para manter alianças, que acata o que a bancada religiosa diz. 

Bom, eu tentei. Fiz a minha parte. Eu estava de bom humor no dia, então procurei agir de maneira professoral e amigável. Meu interlocutor até que concordou, mas ele disse que "isso só vale para alguns casos" porque "muita molecada é influenciada pelas novelas". Estamos falando de orientação sexual e não de escolha de smartphone.

Acabei mudando de assunto, mas antes disso perguntei o que meu interlocutor pensaria de uma suposta filha "amante" e homossexual. Então ele gelou, e invocou a Deus para "livrá-lo do mal".

Minha pergunta é: será que um dia, ser gay não será um problema? Será que um dia os códigos de conduta das pessoas encarará a homossexualidade e outras orientações sexuais que não a heterossexual com naturalidade? Será que um dia ser gay não vai ser sinônimo de falha de caráter? Avançamos muito nos direitos LGBT, mas ainda há muita intolerância e ignorância. Como otimista irremediável, acredito que um dia vai dar tudo certo.

Também aproveito para dissecar um pouco sobre o meu código de conduta: no meu código, traição é algo indigno e desonroso. Para algumas pessoas, que tem uma noção mais fluida sobre relacionamentos, sou conservadora. E podem me chamar como quiserem, mas eu odiaria ser traída. E se eu traísse, ficaria com um horrível peso na consciência. Para mim, é errado, simplesmente porque machuca o outro. 

Esse ponto em meu código de conduta pode ser conservador. Mas eu apoio na integralidade os direitos LGBT. Apoio a regulamentação do uso de algumas drogas (com muito foco na educação e redução de riscos), a descriminalização do aborto e outros temas considerados polêmicos. No entanto, traidores não passarão. Será que meu código de conduta será alterado nesse ponto algum dia? Acho pouquíssimo provável. 




segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Eu sonho com um mundo onde as pessoas não pensem linearmente

Eu sonho com um mundo onde as pessoas entendessem que as relações humans não são lineares. Um mundo em que as pessoas tivessem naturalmente a noção de que uma ação não provoca sempre a mesma reação. Assim essas pessoa seriam capazes de rejeitar a desonestidade intelectual que assola o mundo contemporâneo. Neste post vou falar de assuntos um pouco polêmicos. Não concorda comigo? Não precisa acreditar na minha palavra. Apenas peço que você pare de aceitar de mão beijada a palavra de comunidades nas redes sociais. Faça sua própria pesquisa. Alguns comentários deste post foram inspirados nas análises feitas por Malcolm Gladwell em seu livro “David e Golias”.

Muitas coisas na vida se comportam como uma curva na forma de “U” ou “U invertido”. Ou seja, uma mesma ação em condições diferentes pode gerar reações diferentes.

Por exemplo, imagine que você esta sentada(o) em uma mesa em seu restaurante favorito e você esteja morrendo de fome. É uma situação desconfortável (fome). Quando o garçon traz o seu prato predileto de comida e você começa a comer aquela sensação desconfortável passa a diminuir. Até o ponto em que você se sente satizfeita(o). Deveríamos parar ali, mas muitas vezes continuamos a comer e até passamos do limite. De forma que uma nova sensação de desconforto comeca a surgir. A mesma ação, comer, gera resultados diferentes dependendo se você está de barriga vazia ou de barriga cheia. O mundo não é linear.

Existe uma idéia de que no Brasil há muita impunidade e que essa falta de punição seja a causa de tanta violência que presenciamos e que algumas vezes, infelizmente, somos vítimas. Essa idéia de que a impunidade causa violência é uma idéia senso comum. E é uma idéia correta e incorreta ao mesmo tempo. Existem estudos que mostram que os seres humanos estão sempre ponderando os prós e contras de suas ações. Estamos sempre num estado de aposta. Se não há punição, a probabilidade de benefício é alta e a criminalidade aumenta. A medida que a punição aumenta, as pessoas passam a ponderar melhor as consequências de seus atos e a criminalidade diminui. Mas a criminalidade somente diminui até certo ponto. Se a punição passa a ser muito severa, a punição passa a ser percebida como injusta e a criminalidade passa a aumentar novamente. Então temos a curva “U”. Pouca punição gera o mesmo resultado de punição em demasia. O mundo não é linear.

Na minha opinião no Brasil existe impunidade e muita punição ao mesmo tempo. Um dos motivos pelo qual a polícia por vezes nem prende o batedor de carteira é porque nem tem mais lugar pra ladraozinho na cadeia. As cadeias estão super lotadas com gente que praticou crimes muito piores. Mesmo assim, todos os dias vemos notícias de policiares invadindo casas, prendendo e matando pessoas em comunidades pobres. Ao mesmo tempo, 450kg de cocaína são apreendidos em um helicópetero de um senador pouca gente parece se lembrar disso. Você sabe o que deu o processo? Você sabe se alguém foi preso? O meu ponto aqui é que esse sistema de punição só funciona para quem não é tão pobre ao ponto de perder as esperânças e nem é tão rico a ponto de ter um padrinho senador. O mundo não é linear.

Outra idéia senso comum é a idéia de que não se deve dar o peixe, mas sim ensinar a pescar. Novamente é uma ideia correta e incorreta ao mesmo tempo. Nao é a toa que grande parte das empresas que são herdadas vão a falência. Todos conhecemos os mimados que sempre tiveram tudo de mão beijada e quando precisam andar com as próprias pernas simplesmente não são capazes. Não me refiro apenas a bens materiais. Pensem também nos colagas de sala de aula ou nos colegas de trabalho que não querem se esforçar para aprender nada. Por outro lado, o programa Bolsa Família no Brasil tem mostrado resultados positivos. Não estou fazendo propaganda politica aqui. Mas o programa tem rendido bons frutos, ficou famoso internacionalmente, tem o apoio dos especialistas e provou melhorar não só a vida das famílias beneficiadas como também a vida de todos na comunidade. Ou seja, é ruim dar dinheiro para quem já tem o equipamento de pescaria (independência financeira), mas dar dinheiro para quem não tem quase nada torna as pessoas mais livres e todos se beneficiam. As pessoas precisam de um mínimo para poderem conquistar sua independência financeira. O mundo não é linear.

Quando a gente escuta ou lê que algo é diferente daquilo que a gente acreditava ser verdadeiro, é uma sensação desagradável. Mas a verdade é muitas vezes assim, inconveniente. Não é agradável admitir que estamos errados. Mas se agarrar a ideias falsas para evitar o desconforto de admitir o equívoco não traz nada de bom a você ou àqueles ao seu redor. Então antes de julgar uma informação utilizando seus próprios instintos, que provavelmente serão senso comum, tente ler bastante e se informar a respeito do assunto. Não compartilhe idéias lineares, porque o universo não é linear e você é parte dele.




quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Nivelando por baixo.

Hoje comentei que não gostaria de ser operada por esses médicos e então uma moça no twitter disse que "eu não deveria generalizar, porque em toda profissão tem gente boa e ruim...." bocejos.

Sério mesmo? Será que eu sou tão estrupícia que não sei de uma obviedade dessas? Será que sou tão idiota que não sei que em uma determinada profissão qualquer (seja ela qual for)  existem pessoas boas e pessoas ruins? Para começar, será mesmo que eu estava generalizando no que disse? E se estava, será que a generalização foi proposital, intencional ou foi apenas uma hipérbole?

O fato é que qualquer pessoa um pouco mais esclarecida (e nem precisa de muito) SABE que em um grupo qualquer de pessoas tem gente que trabalha bem e gente que não honra o que faz. É MUITO MUITO MUITO GRITANTEMENTE ÓBVIO. Então porque a moça veio chamar a minha atenção? Por que ela se sentiu ofendida? Por que ela acha que eu sou idiota? Não sei, sinceramente. Mas acho que nivelar as pessoas por baixo faz parte da nossa cultura.

Por isso que a previsão do tempo apresentada na TV é tão superficial. A previsão do tempo apresentada nos telejornais da Globo (emissora com maior audiência) é comandada por uma mulher bonita e magra (e que claro, que de preferência siga os padrões de beleza eurocêntricos, salvo uma rara exceção que me lembro) que fala por menos de 2min e muito rapidamente e sem nenhuma substância e que mal explica os fenômenos meteorológicos. A plástica perfeita e o tal "padrão globo de qualidade" que visa sobretudo a aparência são mais importantes que o conteúdo. O brasileiro, em geral, é visual. E provavelmente, dentro das redações, há discussões sobre "como vamos explicar isso para as pessoas, é muito complicado". 

 E não só a previsão do tempo. Qualquer informação científica é tratada com o mesmo descaso pelos jornalistas. A propósito, não entendo porque tem que ser um jornalista. Eu posso escrever sobre ciência no meu portal. Um astrônomo, um físico, um biólogo ou qualquer outro profissional também poderia. Basta apenas ter afinidade com a escrita e quanto mais se escreve, melhor ela fica. Mas os portais, sites de notícia e redações preferem contratar jornalistas, como se eles fossem uma espécie de profissional polivalente que pode falar sobre tudo. Acontece que nem todo jornalista tem afinidade com ciência ou economia, por exemplo. Entrevistam pessoas e muitas vezes mal sabem o que devem perguntar para elas. Simplesmente porque não tem afinidade com o assunto. Tudo é feito nivelando por baixo. 

Agora vou entrar em um terreno polêmico: doações de caridade. Vista a carapuça apenas se servir, mas já ouvi pessoas que dizem que vão montar uma cesta básica para uma família carente, mas não tem problema, compram do arroz mais baratinho mesmo, porque pobre não tem paladar exigente ou coisa do tipo. Lamentável, isso para mim não é caridade. Caridade é amor, é você comprar coisas que você consumiria em sua casa. É repartir e não dar migalhas. Sei que o assunto é polêmico e cada um deve ajudar os outros da melhor maneira possível (e cada um tem seu melhor, sua disponibilidade, sua opinião e suas condições financeiras particulares).  No entanto, não posso achar normal essa coisas de nivelar por baixo. 

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Sou boazinha, sou perfeita e meus métodos contraceptivos não falham

Outro dia travei uma discussão (não do jeito passional que as pessoas estão acostumadas a ver) no Twitter. A moça, dizia que aborto era assassinato de bebês, que jamais abortaria, que as pessoas tinham que se cuidar para não ficarem grávidas, porque os métodos contraceptivos dela sempre funcionavam, etc.

A teoria da moça perfeita. A pessoa acima do bem e do mal. É amigos, nesse mundo cão, isso não existe. A vida está longe de ser perfeita e longe de tudo dar certo.

Não vou dar detalhes, mas é fato que:

- Aborto não é assassinato: é por essa razão que se estabelece um período limite de gestação para abortar, na maioria dos países em que o aborto é regulamentado. Se um feto de 3-4 meses for um bebê viável, então somos coelhos.

- Aborto não é método contraceptivo: aborto é a última instância. A mulher que faz um aborto está desesperada. O método contraceptivo dela falhou ou ela simplesmente não usou. Isso mesmo, acontece, nem todo mundo é perfeito como a moça que discutiu comigo.

- A mulher que pensa em aborto precisa ser acolhida: precisa de apoio psicológico, carinho e atendimento médico. Se porventura ela não quiser abortar, também precisa de apoio para cuidar desse bebê ou destiná-lo para adoção.  

- As feministas e os progressistas pró-aborto não querem obrigar as pessoas a abortarem: quem pensa assim são alguns reacionários, que não querem que mulheres pobres tenham filhos. As militantes lutam para que o aborto seja uma opção presente na rede pública. Dessa forma, evita-se que mulheres morram em clínicas clandestinas de aborto.

- Guarde suas convicções pessoais para você mesma. Isso mesmo! Para a mulher desesperada, que vai fazer o aborto de qualquer jeito (amparada pela lei ou não), não importa se você é cristã e a favor da vida. Ou se você tem uma família maravilhosa que vai te ajudar. Muitas pessoas não são como você, lide com isso. Um país justo é aquele que oferece condições para as mulheres que escolherem o aborto, abortem. E claro, sejam amparadas.

Após feitas essas considerações básicas, fico pensando na incoerência da moça boazinha fofinha que jamais mataria bebês. É dessa forma que uma mulher que sofreu aborto merece ser julgada por outra mulher? Ou seja, não faz o aborto, mas não se preocupa com os sentimentos dos outros. Não 'mata bebês', mas tudo bem que 'mulheres morram' enquanto realizam o procedimento de forma clandestina.

Essa ideia de que "meu jeito é o certo" e "eu sou portadora do bastião do bem" precisa acabar. As mulheres já são diariamente massacradas e julgadas por essa sociedade patriarcal. Na política brasileira, temos pouca representatividade. Não precisamos de julgamento de mulher para mulher. Precisamos de sororidade, precisamos nos ouvir e nos respeitar. 




quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Apelo aos evangélicos

Escrevi em meu perfil do Facebook o apelo abaixo, direcionado a muitos evangélicos que conheço e comportam-se dessa maneira. Depois que escrevi, notei que tinha tudo a ver com a proposta do Discurso Retórico.

Como o blog estava com algumas teias de aranha, resolvi que era hora de voltar a escrever para deixar esse texto registrado de forma mais organizada. No Facebook, ele vai se perder em meio a outras atualizações. Espero que gostem :)



Diante de tantos acontecimentos e coisas que tenho presenciado, comecei a refletir. Acompanhem-me. Há algum tempo atrás ouvi uma entrevista do Caio Fabio. Nem sei porque estava ouvindo a entrevista, mas lá pelas tantas ele disse que "o povo evangélico era burro". Palavras duras e generalizadoras, mas tenho percebido certa verdade e acho que compreendo o que ele quis dizer.

"Burro" é um termo pesado, raivoso, eu substituiria por ignorante (que também tem uma carga ruim). Talvez por incautos. E a ignorância não aflora a todo momento e em todas as situações. Mas independentemente da palavra utilizada e sem a intenção de ofender, pretendo expor o que penso.

Mas que palavra usar para se referir a pessoas que curtem tudo o que o irmão/pastor/presbítero/etc dizem ou postam, por mais incoerente, não cristão ou desumano que seja? Que palavra usar para descrever pessoas que facilmente endeusam a pessoa que está no banco do lado, simplesmente porque compartilham um mesmo edifício?

Vocês podem e devem discordar dos irmãos. Podem e devem buscar outras fontes de conhecimento, inclusive concordar com pessoas que não compartilham a mesma fé (ou que nem fé tenham), porém estão sendo coerentes.

E vocês devem deixar de ENDEUSAR as pessoas. Isso está errado. Ninguém é 100% bom ou 100% mal. Citei Caio Fabio no começo do texto, não porque eu concorde com tudo o que ele diz, mas sim porque UMA COISA que ele disse me fez refletir. Parem de viver nesse mundo binário, em que tudo é SIM/NÃO ou BOM/MAU. Os seres humanos são bem mais complicadas do que isso, mas acredito que todos podem buscar o BEM juntos.

Abaixo, uma foto de Jim Jones. Se não sabem quem é, pesquisem e liguem os pontinhos. O cara conseguiu convencer mais de 800 pessoas a deixarem o conforto de suas casas e juntarem-se em uma seita no meio da Floresta Amazônica. Ele conseguiu convencer todos a fazerem exatamente o que ele queria. Provavelmente essas pessoas (muitas delas), concordavam com ele e com seus auxiliares em 100% do tempo. Provavelmente porque estavam desesperadas.



quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A mulher de 50 anos

Um dia desses encontrei um antigo conhecido e sua esposa. Conversamos por alguns minutos e eles foram embora. Algumas pessoas que estavam comigo não paravam de falar o quanto a mulher havia envelhecido e engordado. Não paravam de falar sobre o quanto ela estava feia.

Na verdade, a mulher estava ótima. Cabelo bem cuidado, joias bonitas, um olhar alegre e divertido e roupas elegantes. Uma mulher de 50 e poucos anos muito linda e elegante. O que me incomodou bastante foi que ninguém falou do homem. Ele estava calvo. Os poucos fios que restaram, estavam esbranquiçados. Estava bem gordo também. Mas ninguém comentou a aparência dele. Comentaram apenas a aparência dela e exigiram dela uma aparência jovial que é impossível.

Na minha opinião, é extremamente grosseiro comentar sobre a aparência dos outros dessa forma. Além de grosseiro, é superficial: coisa de quem só enxerga o que está por cima, não procura saber por exemplo como anda a vida das pessoas, o que elas andam fazendo, quais as novidades, etc. Só que aparentemente, em nossa sociedade que supervaloriza a juventude e a 'beleza', é aceitável falar da aparência das mulheres.

Eu sou relativamente jovem e em diversos encontros familiares falam sobre meu peso. Falam que engordei ou emagreci, mesmo que o ponteiro da balança não digam nada disso. Ponteiros de balanças não dizem nada. Ninguém pergunta quantos livros li, o que ando fazendo, como está o trabalho, se ainda continuo escrevendo, sobre os artesanatos que ando fazendo, sobre minha pequena horta, sei lá, ninguém pergunta sobre outra coisa que não é relacionada a aparência. Ninguém pergunta sobre as coisas que gosto, que me esforço para fazer bem e que me fazem feliz. O ponteiro da balança acaba sendo o assunto principal, mostrando o mundo superficial que vivemos.

Outro dia li um texto de um blog de uma moça gorda. Faz muito tempo, então não lembro exatamente qual texto foi. Lembro que no texto ela dizia que acha imbecil quando alguém chega para ela e diz, como observação imbecil ou com o intuito de ofender, que ela é gorda. Ora, óbvio que ela é gorda. Todo mundo podia ver isso. E ela lamentava que as pessoas fossem tão superficiaise encarassem esse fato como algo horrível sobre ela.

Eu lamento isso também. Lamento que não viram na mulher que menciono no início do post uma mulher bonita, agradável e muito divertida. Muito orgulhosa de seus filhos e da futura netinha que está para nascer. A superficialidade faz com que as pessoas deixem de ver a verdadeira beleza, o brilho da vida. Talvez tenha muita gente que se ache infeliz, que ache que o mundo é feio e que nada está bom. Talvez essas pessoas estejam enxergando só a superfície.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

A arte de dar nome pras coisas: Feminismo Intersecional

Eu estou escrevendo isso possivelmente porque sou da área de exatas. Não tive uma formação em sociologia ou filosofia, não sei classificar as coisas e acontecimentos com os nomes que aparecem nos livros de história. Vou apenas observando, lendo algumas coisas e dando minha opinião.

É por isso que meus textos aqui são diferentes dos de outros blogs que abordam direitos humanos. Escrevo mais de acordo com o que observo, como se estivesse falando com meu leitor em um bar.

Hoje no Twitter me deparei com o termo "feminismo intersecional". Pensei: "O que é isso, meu Deus?". Foi quando cliquei no texto para ler. Um texto muito bom. E chama a atenção para algo importante: o feminismo tem que ser para todas. Minha luta como mulher moradora de uma enorme cidade, branca e de classe média é totalmente diferente da luta de outras mulheres. Fala-se tanto que o homem deve reconhecer seus privilégios, ora, não deveriam TOD@S reconhecerem seus privilégios?

Minha luta diária é mais parecida com a de mulheres com o mesmo perfil que o meu. E olhe lá, cada um tem suas lutas. MAs eu não sei qual a luta diária de uma mulher negra de classe média baixa. Posso apenas saber algumas coisas que me contam, conversando com amigas e colegas, mas eu não vivo o que elas vivem. Minha luta também é totalmente diferente da mulher que trabalha no campo. Não sei do que precisa a mulher muçulmana. Enfim, é preciso entender o básico do básico do básico: entender que as pessoas são diferentes e tem necessidades diferentes. Por isso, é importante dar a voz para as pessoas, empoderar as mulheres, dar a oportunidade de que elas falem e participem das decisões.

Como exemplo bem basicão: aqui na cidade, posso ser encoxada por um maníaco cretino em um vagão de metrô e estou sujeita a todos os outros tipos de violência urbana. No campo, esses problema não faz sentido. Talvez as trabalhadoras do campo precisem de uma cooperativa, de uma escola para deixar os seus filhos, de programas de saúde que cheguem até comunidades mais afastadas, etc. Eu nem sei elencar as necessidades dessas mulheres, justamente porque estou distante da realidade delas. Mas, repetindo, posso conhecer essas necessidades ouvindo essas mulheres e conversando com elas sem achar que sou superior.

Ah, esse ar de superioridade. É bem fácil de encontrar em muitos moradores de minha cidade, que é São Paulo. O velho jargão: a cidade que é a locomotiva do país. Muitos acham que é a cidade mais importante, com um povo mais antenado ou mais moderno. É incrível como essa ideia ainda persiste no discurso das pessoas. Mas também, um morador de classe média de São Paulo tem mais probabilidade de conhecer Nova York do que conhecer Abaíra, cidade do sertão baiano. Para muitos, é como se o restante do Brasil não tivesse importância.

Estou sendo cruel? Talvez sim. Mas é a verdade. Toda vez que vejo uma piadinha desrespeitosa contra nordestinos sei que estou correta em minha linha de pensamento. Tem muita gente tosca na minha cidade.

O tal feminismo intersecional visa pensar nessa pluralidade de necessidades, de cores de pele, de origens, de etnias, etc. Estou cansada do feminismo não-faço-as-coisas-em-casa-porque-isso-é-opressão ou marido-meu-tem-que-ajudar-no-trabalho-doméstico. Essas são questões secundárias, que não são regras.

Por exemplo, se você se gaba por 'não saber cozinhar nada', bom deve ter alguém que cozinha pra você: a empregada (que possivelmente é negra) ou a funcionária da padaria. Sinto muito, mas achar-se A FEMINISTONA porque não sabe fazer nada dentro de casa, faz de você uma imbecil. Você desconhece uma habilidade básica de sobrevivência, que é cozinhar.

E o argumento marido-meu-tem-que-ajudar-no-trabalho-doméstico talvez valha para uma mulher como eu, que trabalha fora e precisa de ajuda nas tarefas domésticas. Mas há várias mulheres que trabalham em casa e é normal que a maior parte do serviço doméstico fique por conta delas. E talvez a mulher trabalhe fora e GOSTE de fazer as coisas em casa. Qual o problema com isso? Isso faz dela mais ou menos feminista? Porque o SEU feminismo não combina com a VIDA DELA então ela não pode ser feminista?
 
Estamos aprendendo várias coisas, mas não conseguimos nos livrar do egoísmo. Sabe, vamos respeitar o estilo de vida dos outros. E temos que aprender a TROCAR mais: ouvir, ser ouvido, respeitar e oferecer/receber ajuda.




quinta-feira, 17 de julho de 2014

"Você se acha melhor que os outros"

Eu tive o desprazer de participar de uma conversa nojenta e racista. Uma pessoa que conheço começou a dizer que os jogadores da Alemanha eram admiráveis. Depois de toda aquela muito comum adulação de gringos (muito comum na nossa cultura), o conhecido então diz algo mais ou menos assim:

- Sem contar que eles (os jogadores da Alemanha) são mais apresentáveis, não tem aqueles cabelos (..) aquele aspecto sujo (...), aqueles braços cheios de tatuagem (...).

Ah, eu fiquei muito revoltada quando ouvi isso. Primeiro que pra mim há um claro racismo nessa fala e isso em si já é abominável. Depois ela fala da questão da aparência: o cabelo certo, não ter tatuagens, etc.

Eu fiquei tão indignada que na hora retruquei. Disse que os jogadores alemães podem ser admiráveis por diversas questões relacionadas a qualidade técnica  do futebol e ao espírito esportivo que apresentaram em nossos gramados. Mas que as observações com relação a aparência eram preconceito. 

É incrível como as pessoas ficam extremamente ofendidas quando são chamadas de preconceituosas. Ninguém nunca tem preconceito, é incrível. No entanto, as pessoas sofrem preconceito o tempo todo, narram histórias horríveis a todo momento. Quem então é o sujeito da ação?

Em um questionário aplicado no processo se avaliações de funcionários de uma grande Universidade, uma das questões era algo como "como você lida com a diversidade"? As respostas eram quantitativas: 1 para intolerante e 5 para super tolerante. Como tratava-se de uma auto-avaliação, fiquei surpresa ao saber que muitos colocaram 5. A maioria se auto-avaliou como "super-tolerante" ou "celebrador da diversidade", quando no dia a dia você nota que muitos mostram exatamente o oposto.

Ser chamado de preconceituoso no Brasil me parece uma maior ofensa do que sofrer o preconceito. Poucos conseguem admitir que sim, são preconceituosos. E se mais gente admitisse esse lixo em nossas vidas (e que fez parte de nossa criação, estamos imersos nisso tudo), seria mais fácil livrar-se desse lixo. É como aqueles acumuladores, dos programas de TV. Demora até eles reconhecerem que tem um problema psicológico e que precisam resolvê-lo. Eles demoram para perceber que estão acumulando lixo e precisam se livrar dele.

Quando disse a pessoa da história que ela era preconceituosa, o clima fechou. E como todo preconceituoso, ela procurou elementos banais para explicar que não era preconceituoso. Por exemplo, a pessoa em questão disse que também pinta o cabelo. Também disse que algumas tatuagens são legais (acho que nessa hora a pessoa lembrou que eu tenho tatuagens). Foi quando fiquei ainda mais indignada e disse:

- Quer dizer que só do seu jeito, apenas pintando o cabelo do seu jeito e apenas fazendo do seu jeito está certo?

Então a pessoa mudou de assunto e não quis mais continuar a discussão. Estou cansada desse tipo de argumento. Quando como confrontados diante do próprio racismo, muitos afirmam que tem amigos negros. Agora substitua racismo por homofobia e amigos negros por amigos gays. Alguns clamam inclusive por um suposto parentesco negro (ah, minha família tem o pé na cozinha, a tal emenda pior que o soneto) ou por um parentesco gay (meu primo de terceiro grau é gay, mas ele é discreto). 

A gente não pode se omitir diante do preconceito. Eu sei que não é para sair por aí fazendo barraco (quando puder, saia sim). Sei que em muitos ambientes é difícil de argumentar, no ambiente de trabalho, por exemplo. Mas você pode dizer: "Olha, acho isso preconceito". E fecha a cara e diz tchau. 

Ou então diga: Eu não entendi o que você quis dizer.

Acho que foi o Louis C.K. que deu esse último conselho. Eu pesquisei, mas não encontrei a citação em que isso é dito. Não tenho certeza se foi ele mesmo que disse isso (eu li em algum lugar, não consigo lembrar onde). De qualquer maneira, é bem genial. Quando aquele seu conhecido racista falar:

- Ah, quando não suja na entrada, suja na saída.

Você então diz:

- Cara, não entendi o que você quis dizer.

Então ele vai tentar explicar, vai se enrolar, vai expor ainda mais o preconceito, etc. É bacana para quando tem mais gente por perto, as pessoas merecem saber quem é babaca.

E porque o título desse texto é "Você se acha melhor do que os outros"? Porque uma pessoa que acha que o mundo precisa ser como ela, com o cabelo dela, com o jeito dela e com as roupas dela, se acha melhor do que os outros. Eu cresci em um ambiente evangélico/protestante e essa ideia de se achar melhor do que os outros é bem disseminada, já que "somos o povo eleito", afinal de contas. No primário, estudei em uma escola da periferia. Lembro que alguns coleguinhas diziam que "eu me achava melhor que os outros". Posso atribuir tudo isso a recalque? Não. Há uma parcela minha aí também. Havia em mim os mesmos traços da pessoa preconceituosa que mencionei anteriormente.

E muitas vezes me pego em flagrante, falando com uma propriedade e um conhecimento de causa que são incompatíveis comigo. Muitas vezes eu fico achando que o mundo deve ser como eu ou que minhas experiências pessoais refletem algum tipo de sucesso universal.

R-I-D-Í-C-U-L-A.

Como se de fato eu me achasse melhor do que os outros.


quinta-feira, 10 de julho de 2014

Panem et circenses

É incrivelmente visível como a Copa é usada para mascarar os problemas e tragédias que vemos diariamente. Muitos dos meus contatos que até pouco tempo demonstravam-se preocupados com a situação política e econômica do Brasil (mesmo que com um viés reacionário), agora torcem pela seleção brasileira.

O futebol é um esporte que contagia. É gostoso assistir um jogo, reunir-se com amigos e familiares e torcer pela seleção. Mas assuntos urgentes e discussões políticas importantes, que estavam mais presentes no dia a dia desde as manifestações de junho e julho do ano passado, parece terem tirado férias. 

Esse poder inebriador do futebol me assusta. Na última sexta-feira eu saí do trabalho mais cedo, em decorrência do jogo da seleção. Entrei no metrô e no ônibus e notei que o clima estava diferente: pessoas muito eufóricas e muito ansiosas. A preocupação era: chegar mais cedo em casa para fazer os preparativos para os jogo. Nunca vi tanta gente lendo tando: estatísticas do futebol, textos sobre momentos engraçados, bastidores nas partidas, etc. 

Infelizmente não tenho visto o mesmo engajamento e preocupação com as eleições,  com os recentes escândalos de envolvimento de construtoras em doações para partidos políticos, com o descaso para com a saúde e educação, com a violência policial, com as desocupações forçadas, com o problema da falta d'água, etc.

Ah sim, e com relação ao problema da falta d'água: aqui em São Paulo, o problema no Sistema Cantareira está muito sério. Numa recente análise, concluiu-se que nem mesmo a próxima estação chuvosa pode recuperar totalmente o Sistema. No entanto, todas as preocupações e discussões sobre o assunto parecem ter virado 'volume morto'. Tenho visto muita gente desperdiçando água impunemente, poucas matérias e informações para conscientizar a população e tenho visto pouco engajamento. A Copa eclipsou qualquer discussão séria sobre os problemas sociais. 

Neymar se machucou no último jogo. Se eu disser isso, vou criar um mal estar em qualquer grupo de pessoas que estão acompanhando a copa. Vão dizer que na verdade machucaram Neymar. Queria que essas pessoas dissessem a mesma coisa sobre os jovens pobres que são agredidos pela polícia. Queria a mesma comoção, a mesma revolta e a mesma indignação com a violência policial em geral, que remove pessoas pobres a força de suas comunidades e que invadem as residências dos moradores das favelas. Neymar vai ficar bem. Tem uma boa equipe médica e tem dinheiro. Em poucas semanas ele volta a jogar. Por isso não entendo toda euforia em torno da copa. Não entendo toda comoção em torno da fratura que Neymar sofreu. Não entendo esse problema de foco, que embaça tudo aquilo que está perto e consegue enxergar aparentemente bem aquilo que está longe.

P.S.: Escrevi esse post antes da derrota do Brasil. Não que isso faça alguma diferença. 



quinta-feira, 3 de julho de 2014

Se ela disse não, então é não.

Não sempre significa não.

Outro dia eu estava no metrô (incrível como meus posts sempre começam por algo que ouvi rs) e um rapaz comentava com seu amigo que uma moça (que não estava presente no local) sempre usava roupas provocantes. Não consegui prestar atenção na maior parte da conversa, mas parece que aconteceu alguma coisa em uma balada. Parece que alguém 'passou a mão' na moça, que ficou muito ofendida (óbvio). E a conclusão dos rapazes foi:

Também, ela provoca.

Não conheço a autoria da imagem acima, mas vi aqui.

O ser humano sempre provoca. Com ideias, com atitudes e até com roupas. A ideia de punição vexatória está muito presente na nossa cultura. Se uma criança faz escândalo na rua, se um adolescente é pego roubando ou mentindo,  parece 'natural' que os pais devam aplicar um castigo físico. 

Tenho a impressão que a mesma lógica é aplicada para moças que resolvem usar uma roupa curta, com decote ou com transparência. No último fim de semana, encontrei algumas amigas. Uma delas estava com um vestido com transparências. A outra amiga disse que aquele vestido era sexy e ela deveria estar preparada para o ônus.

O que é esse ônus? Pessoas olhando com educação, encantados pela beleza dela? Ou abutres nojentos, fazendo comentários desagradáveis? Um eventual estuprador? O primeiro ônus eu entendo e pode ser interessante. Mas nenhuma mulher quer passar pelo segundo e pelo terceiro. Isso é bastante óbvio. Quem acha que uma moça de minissaia está "querendo ser estuprada", não tem o mínimo de empatia.

E esse assunto me fez pensar em outra coisa. A maioria das mulheres já passou por situações em que foi coagida a ter relações sexuais. Não falo apenas de casos de estranhos em um beco escuro. Falo de ficantes, peguetes, namorados, maridos, etc.

Nós não temos obrigação de fazer sexo com ninguém. Há dias em que você só quer ficar quietinha no seu canto. Quer conversar, ver um filme, ler um livro, etc. Não é porque você está em um relacionamento com alguém, beijando e acariciando, que você necessariamente deve fazer sexo. Falando assim parece simples, mas tenho certeza que muitas mulheres tem histórias de parceiros que forçaram a barra. Algumas histórias envolvem violência física ou verbal por parte dos parceiros, diante de uma recusa. 

Não são incomuns os casos de: "Ah, você está me beijando desse jeito e não quer dar? Até parece?", "Você disse não mas eu sei que você quer", "Agora tô de pau duro, olha o que você fez" etc. Se a moça disse não, é não. Não existe isso de charminho. Se a moça está indecisa, é porque ela está indecisa. Todo mundo fica indeciso. E homens que respeitam, compreendem isso.

Quando os pais vão falar sobre sexo com seus filhos, falam sobre camisinha. Parece que a conversa sobre sexo com os meninos resume-se a isso. Não colocam na mesa assuntos como respeito e consentimento. A mulher precisa consentir e precisa ter condições para isso. Não pode estar psicologicamente alterada, alcoolizada ou drogada. 

Óbvio que o oposto deve ocorrer: as mulheres não podem forçar a barra com nenhum homem para fazer sexo. Mas apesar do que você pode estar pensando ("Ah, o primo da cunhada do meu vizinho foi coagido a fazer sexo pela sua colega de trabalho, acreditam?"), não quero essas aberrações estatísticas, pois o que ocorre normalmente é o oposto. Nós mulheres somos ensinadas a "se guardar", porque os homens não "conseguem se controlar". Parece que uma ereção torna-se uma necessidade de fazer sexo. Mas deixa eu contar uma novidade: não somos movidos apenas por instintos. Podemos raciocinar, tomar decisões e mudar de ideia.

Sim, mudar de ideia. Se uma pessoa disse que iria fazer sexo e chegando no motel resolve mudar de ideia, o(a) parceiro(a) deve compreender. Simples assim. 

Se não quer lidar com pessoas, não quer entender suas necessidades, seus problemas e todas as nuances, se você quiser continuar sendo um(a) indivíduo(a) mimado(a) que quer tudo agora e aqui, então recomendo que procure brinquedos sexuais que te satisfaçam. A Cherry 2000 ainda não existe.  


Se você gosta de ficção científica ruim-bizarra, assista. 

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Desafio: mudando a forma de xingar

Em um post anterior, escrevi sobre um caso absurdamente desagradável que aconteceu comigo e acontece todos os dias com todas as mulheres: um homem me assediou na rua. Olha, ouso dizer que essa situação acontece todos os segundos de todos os dias com alguma mulher desse vasto mundão.

Um comentário do post chamou minha atenção:



A internet é permeada de discursos de ironia e sarcasmo (eu mesmo me valho desse recurso algumas vezes). Não sei se há alguma ironia ai, mas gostaria de levantar uma discussão: por que é tão dificil vencer o status quo dos xingamentos?

Num mundo ideal, perfeito e lógico (que não seria a Terra, mas sim Vulcano), ninguém xingaria ninguém. Nenhum homem falaria cretinices para as mulheres. Não teríamos problemas nenhum. E querelas não seriam nem discutidas. Questões mais sérias seriam debatidas com lógica e todos sairiam satisfeitos.


Mas o mundo não é assim. Nos descontrolamos, ficamos revoltados com pessoas e com as atitudes delas. E queremos demostrar essa revolta, queremos desopilar o fígado. E nos valemos de xingamentos para isso. Mas observem as ofensas em voga:

- filho da puta
- viado
- puta
- piranha
- sua bicha

Separei apenas algumas. E observem que elas ofendem uma orientação sexual e ofendem um suposta promiscuidade da interlocutora ou da mãe do(a) interlocutor(a). Vamos pensar com muito cuidado: gostar de sexo ou ser homossexual constituem num problema? Em nossa sociedade machista, sim. Uma sociedade em que o homem DEVE ser pegador e a mulher DEVE ser sexualmente controlada (que matemática esquisita). 

E olha, nem mencionei os xingamentos com cunho racista, gordofóbico, lesbofóbico, transfóbico, classista, etc. Esse professor fez uma lista e ficou surpreso com o resultado: mais de 300 ofensas racistas.

Como estou tentando vencer esse status quo, tenho evitado usar esses termos como ofensa. Claro que eles escapam (principalmente o filho da puta), porque eles já estão enraizados. Mas depois que falo, fico reprovando minha atitude. 

Recentemente li um texto no Lugar de Mulher (ótimo blog!), que travava exatamente desse assunto. Inclusive havia uma lista de novos xingamentos, para podermos usar nesses momentos. A Polly escreveu de maneira super bem humorada, falando para usarmos xingamentos absurdos para confundir a cabeça do inimigo (tipo chamar o cara de sequóia rsrs). O objetivo é criar novos xingamentos. Mas você também pode chamar o seu interlocutor de incompetente, se o contexto for esse. Pode chamar também de superficial. Mas não use xingamentos que estejam relacionados com atividades sexuais. Também não fale da aparência da pessoa, não seja racista, limite sua imbecilidade até reduzi-la a zero.

Agora vocês entendem porque me senti mal por ter chamado o sujeito de velho nojento? Ele foi nojento, mas isso não é inerente a condição de velho. Eu quero vencer o status quo e não quero oprimir ninguém. Devemos reconhecer que muitas vezes exercemos um papel de opressor. Uma pessoa de pele negra, uma mulher, uma pessoa transexual ou um homossexual podem agir como opressores, dependendo da situação. Como exemplo, menciono mais uma vez o texto que escrevi antes, quando falo do caso da moça que foi tirar satisfação com o porteiro que falava idiotices para ela todos os dias. Quando ela fez isso, tomada pela raiva, agiu como opressora ao se referir a classe social dele.

Ou seja, somos parte do problema também! E reconhecer isso nos aproxima de uma solução. 

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Bancos confundindo pobres!

Bom, vou contar algo que presenciei e fiquei muito revoltada.

Tenho uma amiga que trabalha com jardinagem. Ela tem filhos e ganha pouco menos de R$900,00. Bom, o pai dos seus filhos mais velhos paga pensão e ela vive com o segundo marido, pai do mais novo, que também está empregado. Tudo isso para dizer que ela não vive na pobreza absoluta, mas tem que apertar bem o orçamento.

Acontece que minha amiga não sabe ler direito. Também não é boa em matemática. E os bancos aproveitam-se de pessoas com essas dificuldades, fruto da exclusão social. Ela não estava entendendo o extrato bancário e eu estava explicando. Quando vi, eram juros em cima de juros, porque o banco ofereceu a ela um limite incompatível com sua renda. Todos os meses ela estava gastando muito acima do que ganha. Acontecia o seguinte: ela não percebia que a conta dela estava R$200,00 no negativo. Ela ia lá e sacava R$900 reais, pois é o que ela ganha. Então todos os meses ela ficava no negativo e isso virou uma grande bola de neve, com juros em cima do cheque especial. Além disso, também havia uma dívida de uns R$500,00 no cartão de crédito.

Eu não consigo entender porque o banco oferece esses serviços de crédito para pessoas que não tem dinheiro e/ou conhecimento necessário para utilizá-lo. O banco oferece e sequer explica para o correntista. Quer dizer, eu consigo entender sim: lucro. Simples assim.

Bom, então a instituição bancária decidiu fazer uma "caridade" com ela, que de caridade não tem nada. Somaram a dívida dela, deu R$700,00. Mas arredondaram para R$800,00, que bonzinhos que são. Então fizeram um empréstimo, com 12 parcelas de uns R$112,00 mais ou menos. E dessa forma ela pagaria a dívida. Economistas podem dizer que isso é legal, eu não me importo, pra mim isso é agiotagem. Por que se minha amiga não conseguir pagar essas 12 parcelas ou atrasar alguma delas, terá juros acrescidos. E isso pode descontrolar ainda mais o já apertado orçamento dela.

Ah sim, e para completar ela recebia um débito de R$50,00 mensalmente de sua conta e ela não sabia o porquê. Foi quando ela descobriu que tratava-se de um seguro para sua conta. Ela não lembra de ter contratado esse seguro, mas o funcionário do banco disse que ela assinou isso quando abriu a conta. Pra mim aproveitaram-se dela. E qualquer um está sujeito a isso, porque eles dão um calhamaço de papel para assinarmos quando abrimos uma conta. E algo pode passar desapercebido. Ok, você que está lendo esse texto e eu somos plenamente alfabetizados. Agora pensem em alguém que não é, que não consegue ler um texto e precisa dos amigos para ajudar nessa tarefa... pois então. Minha amiga disse que infelizmente não foi a única. Outros colegas que trabalham com ela na empresa de jardinagem passaram pela mesma coisa.

E além disso ainda há uma taxa mensal de R$20,00 para manutenção da conta. Mas pelo amor, não existe um banco popular? Um banco com taxas menos abusivas ou livre de taxas para certas operações? Um banco com funcionários que expliquem que quando as pessoas sacam no Banco 24h, há taxas? 

Se ela fosse rica, teria uma agência prime/estilo/etc, qualquer coisa que a separasse do restante da população. Teria gerentes de relacionamento dedicados a sua conta, que levariam café e fariam até uma dancinha. Mas por ser pobre, tem funcionários sobrecarregados que precisam de cuidar de contas de outras pessoas pobres como ela.  

Bancos valem mais do que pessoas. Quando um banco enfrenta dificuldades, o Banco Central tira dinheiro não-sei-de-onde (sei sim) para ajudar. Quando um país faz diferente e deixa os bancos falirem, vira notícia e nos dá esperança. 

Estou vendo as pessoas mais pobres cada vez mais excluídas do sistema. Excluídas dos lugares, excluídas do sistema bancário, excluídas das facilidades da internet, etc. Só não percebe quem não quer, quem não tem ouvidos e empatia para entender o que acontece com o outro. 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Velho nojento.

Começo o post com um aviso bem óbvio, mas é bom lembrar: em algumas situações, não é prudente agir mediante cantadas na rua. Mas as vezes podemos agir sim e devemos!

Antes de narrar o que aconteceu comigo, gostaria de linkar esse vídeo. O que aconteceu aqui foi bem simples: a moça, chamada Yasmin, cansou de ser assediada pelo mesmo cara todos os dias. E resolveu reagir. Só que quando ela reagiu, demonstrou todo seu preconceito de classes, algo que infelizmente está bem banalizado em nossa sociedade.

Se eu aplaudo Yasmin?  Pela coragem, sim, mas ela não soube executar. Ela demonstrou uma face opressora, da mulher branca de classe média que também oprime. Ela combateu uma faceta do machismo com opressão de classes, o que foi péssimo.

Eu reagi hoje. E também demonstrei uma face minha que não gostaria de admitir.

Eu estava na rua, movimentada, quando um senhor passa do meu lado e me chama de delícia. Por senhor, entenda que ele era bem mais velho do que eu, algo em torno de uns 60 anos.

Eu parei, comecei a gritar enfurecidamente dizendo que uma hora alguém ia acabar quebrando a cara dele. Também disse que ele era nojento e repugnante. Ele me chamou de mal educada. Ameacei com mais violência e ele até recuou assustado. Além das ameaças violentas, repeti que ele era nojento. Mas então eu disse velho nojento.

O cara meio que fugiu assustado (duvido que ele esperava isso de mim, logo eu que tenho essa carinha meiga risos). Todos na rua começaram a olhar, inclusive as pessoas do outro lado da rua, numa enorme fila no ponto de ônibus. Eu segui meu caminho como se nada tivesse acontecido. Ponto positivo pra mim aqui! Eu não chorei, não me descontrolei, meu coração nem saiu do ritmo. No passado, eu gritaria chorando. Hoje não sou mais assim. Só que todos os pontos negativos do mundo quando disse velho nojento.

Sim, existe preconceito de idade e ele é muito forte. Talvez por ficar tão revoltada com homens de meia idade, devido suas atitudes normalmente machistas, eu tenha adquirido uma espécie de ódio internalizado, um asco. Só que do jeito que falei, pareceu que achei que a condição de nojento e inerente a condição de ser velho. E talvez, subconscientemente, eu pense assim. Infelizmente. Porque ainda sou relativamente jovem.

E eu já sou considerada velha, por muitos homens de 20 e poucos. Costumo dizer que para a internet já sou velha. Ora, quem não morrer envelhece. E eu quero envelhecer. E eu odiaria que me chamassem de velha nojenta.

Acabei de chegar em casa (esse acontecimento que narrei aconteceu não faz 1h). E fiquei pensando nesse preconceito de idade, do qual certamente serei vítima. Vou me lembrar do dia que chamei o cara de velho nojento. Eu me sinto um pouco mal, embora orgulhosa de minha reação. Eu preciso mudar isso dentro de mim. E preciso aprender novas ofensas.

Infelizmente pouca gente compreende klingon.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

O consumismo e minha utopia.

Eu acredito em utopias. Elas norteiam minha vida, pois me fazem acreditar que talvez valha a pena agir positivamente. Talvez o que seja uma  utopia para mim, será perfeitamente possível no tempo dos meus filhos ou dos meus netos.

Recentemente, escrevi um texto para o Atitude Terra. No texto, falo sobre 10 dicas que podemos tentar aplicar em nossas vidas para minimizar ou até elimininar o consumismo. Fiquei surpresa com o sucesso do texto e fiquei muito feliz em ver que tem tanta gente que já fez essa reflexão. Agora é hora de todos nós tentarmos eliminar o consumismo de nossas vidas!



Manifestar-se contra um modelo vigente de comportamento é muito difícil. Outro dia eu estava navegando pelo Youtube e notei uma enorme quantidade de vídeos de meninas que fazem "tours" pelos seus quartos. Muitos desses tours envolvem passeios por closets entulhados de roupas ou por penteadeiras recheadas de maquiagens. As telespectadoras, principalmente adolescentes, ficam encantadas com esse modelo de acumulação e querem reproduzi-lo em casa. É difícil falar em mudança de comportamento quando muita gente está agindo dessa maneira. Como diz o velho clichê, é como remar contra a maré.

Acontece que eu não vou desistir facilmente. Vou continuar abordando esse tema em todas as plataformas onde escrevo textos. O consumismo pressiona a indústria a produzir mais. E dessa maneira pressiona a exploração de recursos naturais. E gera mais resídulos durante a produção e no descarte feito pelo consumidor final. 

Nem preciso concluir que esse modelo enriquece poucos e empobrece muitos. E as vítimas do consumismo quase sempre são as mulheres. As grandes coorporações ganham dinheiro nos fazendo sentir-se inadequadas, feias e fora dos padrões de beleza vigentes (ou seja, padrão eurocêntrico). 

O Rodrigo e eu falamos muito sobre mudanças climáticas no contexto científico, o que é muitíssimo importante, para alertar a todos os leitores contra o discurso pseudocientífico. No entanto, eu também quero falar sobre as formas de ajudar o planeta. E quase como uma epifania, a cada dia mais percebo que minhas lutas estão relacionadas umas com as outras =).

Para alguns, esse discurso parece datado ou sem importância. Para outros, soa exagerado e apocalípitico. Eu percebo que o consumismo atingiu proporções tão grandes em nossa sociedade que as pessoas procuram desculpas para justificar esse comportamento ou para dizer que ele não causa nenhum impacto ao ambiente. Mentira! Observe o seu lixo reciclável e veja a quantidade de embalagens descartadas. De quantos daqueles produtos você realmente precisava? Vá até o seu guarda-roupa e observe: não tem um monte de coisas encostadas?

Como disse no Atitude Terra, estou me esforçando muito para cortar o consumismo de minha vida. É um esforço difícil e que certamente será ridicularizado por muita gente. Outros inclusive apontarão para mim assim que eu comprar alguma coisa que julgarem inútil. Só que eu acredito no que estou fazendo, acredito muito no meu esforço. Eu tenho certeza que um comportamento ambientalmente e financeiramente mais responsável será a norma no futuro. Eu tenho muito o que aprender sobre isso e fico imensamente feliz em poder compartilhar um pouco de minhas experiências, pois dessa forma eu aprendo cada vez mais.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Sobre a terrível tragédia na UCSB (Misoginia mata)

Na noite da última sexta-feira (23 de maio) houve uma tragédia na comunidade de Isla Vista, onde moram muitos dos alunos de graduação que frequentam a Universidade da Califórnia, Santa Barbara (UCSB). Faculdade onde estudei durante meu doutorado. Um aluno da universidade, um rapaz de 22 anos saiu pela comunidade atirando, matando seis pessoas e ferindo outras sete. O rapaz [nao vou dizer o nome porque não quero dar fama para perpetrador] trocou tiros com a polícia e tentou fugir, mas bateu o carro em um carro que estava parado e foi encontrado morto com um tiro na cabeça. Tudo indica que ele se matou.

Antes de sair atirando, o rapaz postou um vídeo na internet de quase sete minutos onde afirma ser um virgem de 22 anos. Aqui está um pedaço do depoimento:
"A faculdade é o momento em que todos experimentam as coisas como sexo, diversão e prazer. Mas naqueles anos eu tive que apodrecer na solidão. Não é justo. Você meninas nunca se sentiram atraídas por mim. Eu não sei por que as meninas não sentem atração por mim. Mas eu vou punir vocês todas por isso. Eu vou entrar na casa da irmandade mais popular da UCSB e eu vou matar todas as loiras mimadas, metidas, putas que eu vir lá dentro. Todas aquelas meninas que eu tenho desejado tanto, que teriam todas me rejeitado e me menosprezado como um homem inferior se eu tentasse dar em cima delas." Ele tambem deu um recado para os homens com quem estas meninas se relacionavam: "Vou sentir um grande prazer em massacrar todos vocês. Vocês vão finalmente ver que eu sou, na verdade, o superior. O verdadeiro macho alfa ..."

Logo após o incidente, começou a mesma discussão que sempre acontece quando uma tragédia como esta acontece nos Estados Unidos. Começaram os boatos sobre o rapaz ter uma doença mental. Sabemos que ele realmente tinha certa instabilidade mental, mas há tamb'em um outro fator. Ele foi influenciado por uma cultura onde homens se sentem no direito de possuir os corpos das mulheres.

Uma colega da UCSB, Maryam Griffin, postou em seu facebook: "Após a terrível tragédia na UCSB, eu já estou vendo muito interesse em tratamento psiquiátrico do agressor e seu possível diagnóstico como tendo tido asperger. Estas análises vão tentar dar uma explicação individualizada para este ataque terrível. Algo que vemos o tempo todo após homens brancos saírem atirando em algum lugar. Embora a motivação é fornecer algum conforto, para restaurar alguma sensação de segurança, explicando o ocorrido como um incidente isolado, eu acho que nós temos muito mais motivos para permanecer aterrorizados. Este é apenas uma expressão de uma cultura difusa do direito. O autor se sentiu tanto no direito a possuir os corpos de mulheres, e ao controle sobre os outros seres humanos, que ele não conseguia aceitar sua suposta rejeição como nada menos do que uma "injustiça", em suas palavras. O que aconteceu em Isla Vista foram tiros sobre a proa - uma declaração clara de guerra, mas não se esqueça que todo mundo que conta uma piada de estupro, todo mundo que classifica os corpos das mulheres, mesmo aqueles que param as mulheres na rua para lhes dizer para "sorrir" - . todos estes são soldados no lado errado. "

Sobre a regulamentação de armas nos Estados Unidos, sabe-se que 90% dos americanos querem leis mais rígidas em relação à posse de armas. O país teve 170 casos como este desde 2006, onde em cada caso teve pelo menos quatro pessoas mortas. Mesmo assim o assunto nunca vai para frente no congresso. O documentarista Michael Moore declarou:

"Com o devido respeito àqueles que estão me pedindo para comentar sobre tiroteio em massa trágico de ontem à noite na UCSB em Isla Vista, CA - Eu não tenho mais nada a dizer sobre o que agora faz parte da vida cotidiana americana. Tudo o que tenho a dizer sobre isso, eu disse que há 12 anos: Somos um povo facilmente manipulados pelo medo que nos leva a armar-nos com um quarto de bilhão de armas em nossas casas que muitas vezes são facilmente acessíveis aos jovens, aos assaltantes, aos mentalmente doentes e qualquer um que se encaixe momentaneamente. Somos uma nação fundada na violência, crescemos nossas fronteiras por meio da violência e permitimos aos homens no poder a usar da violência em todo o mundo para promover nossos chamados "interesses" (corporativos) Americanos. A arma, não a águia, é o nosso verdadeiro símbolo nacional. Enquanto outros países têm um passado mais violento (Alemanha, Japão), mais armas per capita em suas casas (Canadá [principalmente armas de caça] ), e as crianças na maioria dos outros países assistem aos mesmos filmes violentos e jogam os mesmos jogos de vídeo violentos que os nossos crianças jogam, ninguém chega perto de matar o maior número de seus próprios cidadãos em uma base diária, como fazemos - e ainda assim não parecemos querer nos fazer esta pergunta simples: " por que nós? O que é acontece nos EUA? "Quase todos os nossos fuzilamentos em massa são de homens brancos com raiva ou perturbados. Nenhum deles são cometidos por mulheres. Hmmm, por que isso? Mesmo quando 90% do público americano pede leis de armas mais rígidas, o Congresso se recusa - e, então, nós o povo nos recusamos a removê-los do cargo. Assim, a responsabilidade recai sobre nós, todos nós. Não vamos aprovar as leis necessárias, mas o mais importante, nós não vamos considerar por que isso acontece aqui o tempo todo. Quando a ARN (Associação Nacional dos Rifles) diz: " As armas não matam pessoas - pessoas matam pessoas", eles têm uma meia-verdade. Só que eu iria alterá-lo para o seguinte: " As armas não matam pessoas - americanos matam pessoas. " Aproveite o resto do seu dia, e tenha a certeza tudo isso vai acontecer de novo muito em breve."

quinta-feira, 22 de maio de 2014

São apenas roupas

Recentemente, uma grande rede norte-americana de lojas de roupas abriu duas unidades no Brasil: em São Paulo e no Rio de Janeiro. Nos dois casos, a inauguração foi mais do que esperada: consumidores faziam filas nas portas das lojas, esperando a abertura. 


Eram distribuídas senhas nessas filas. Até comércio de senhas rolou. Essas pessoas estavam em transe, impressionadas com a promessa de preços mais baixos do que os das outras grandes redes nacionais. Além disso, a marca norte-americana já chegou com uma propaganda pesada: blogueiras e celebridades que viajam para fora do Brasil já compravam coisas lá, deixando itens da marca cobiçados antes mesmo da loja inaugurar.

É inegável que "coisas do exterior" tem um apelo comercial muito forte no Brasil. Os Estados Unidos são nossa metrópole cultural, com mais força até que a Europa. Como já dizia Renato Russo, somos a Geração Coca-Cola. A Europa e os EUA residem no imaginário do brasileiro comum como lugares perfeitos, onde o sistema realmente funciona. Como se fosse a própria Passárgada. 

Nas notícias (como essa do Jornal Extra), foi possível saber que teve gente que gastou R$160,00 em cinco peças ou pessoas que compraram camisetas de malha por menos de R$10,00. Preços realmente abaixo dos praticados por outras lojas.

Todo esse burburinho em torno dessas inaugurações me fez pensar em muitas coisas. Por exemplo: será que essas pessoas realmente precisavam dessas roupas? Será que essas roupas são fabricadas de maneira justa, respeitando o trabalhador e o meio ambiente? Será que essas roupas são duráveis?

Ah, a durabilidade. Não convém muito mais comprar duas camisetas boas, clássicas e básicas e que vão durar várias lavagens do que 5 camisetas que se estragam lá pela quinta lavagem? O modo de vida Rei do Camarote é tão difundido que as pessoas preferem ter muita roupa, no lugar de pouca quantidade e mais qualidade. Exibir uma grife, uma etiqueta que diz que você tem dinheiro, virou necessidade por parte de muitas pessoas.

Nos esquecemos de como reformar uma roupa. De como é gostoso ver uma roupa envelhecer com você (e envelhecer bem). E de como é bom doar ou trocar roupas de qualidade, já muito usadas e em bom estado.

E são apenas roupas. O frisson em torno da abertura dessa loja só é mais um sintoma do quanto nossa sociedade está doente. Estamos consumindo demais, pressionando o planeta Terra, dando dinheiro para grandes empresas. Para mudar o mundo, para mitigar os efeitos das mudanças climáticas e para evitar mais impactos ao meio ambiente, precisamos aprender a consumir com inteligência. E eu não quero ter 21 anos pra sempre.   

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Deixem os bancos irem à falência

Tem tanta coisa legal em inglês que eu gostaria de poder tornar acessível para as pessoaas no Brasil, que eu vou simplesmente fazer uma tradução livre. Hoje eu gostaria de traduzir o discurso do precidente da Islândia (Ólafur Ragnar Grímsson) sobre a crise econômica mundial de 2008, causada por instituições de crédito dos Estados Unidos e cujos efeitos ainda estamos sentindo.

A Islândia foi um dos primeiros países que sentiram os efeitos da crise econômica. O que levou seus bancos à falência, quebrando completamente seu sistema econômico. Um ano depois, o vulcão Eyjafjallajökull entrou em erupção, cobrindo o país em cinzas. Mesmo com tudo isso, a Islândia já vem se recuperando da crise. Mas o curioso é que o país conseguiu isso com medidas que vão de encontro aos procedimentos padrão de recuperação adotados por outros países. Abaixo está o discurso do Presidente Grímsson publicado pelo blog Upworthy

"Existem, obviamente, muitas razões pelas quais a Islândia tem se recuperado mais rápido e com mais eficiência do que qualquer outra nação européia que sofreram os efeitos da crise econômica. Mas existem duas dimensões fundamentais na forma como nós agimos diferentemente em relação aos outros.

A primeira dimensão é o fato de que nós não seguimos as ortodorxias predominantes do mundo financeiro ocidental dos últimos 30 anos, chamado de Consenso de Washington. Por exemplo, nós deixamos os bancos privados irem à falência. E eu nunca entendi o porquê que os bancos são tratados como as igrejas sagradas da economia moderna e não são permitidos falir. Em segundo lugar, nós não introduzimos as mesmas medidas de austeridade que têm sido praticamente obrigatórias em vários outros países. Nós tentamos proteger o sistema de saúde, o sistema de educação e o bem-estar das pessoas com as menores rendas em nosso país. Nós introduzimos controles capitais e nós deixamos a moeda perder valor. E nós tomamos várias outras medidas que não são consideradas ortodoxas em comparação com as recomendações prevalecentes dos últimos 30 anos.

Mas a segunda dimensão se dá ao fato de que por algum motivo nós tivemos a sorte de perceber que isso não foi apenas uma crise financeira. Isso foi também, pela primeira vez na memória modena, uma intensa crise poítica, democrática, social e até mesmo uma crise de responsabilidade. E ao menos que você introduza reformas em todos estes níveis e também nas políticas econômicas certas, você nunca seria capaz de galvanizar a nação e seguir adiante. E várias pessoas tendem a esquecer que uma economia não é apenas um conjunto de associações entre instituições financeiras e empresas e assim por diante. Uma economia é fundamentalmente uma comunidade de pessoas. E ao menos que as pessoas se sintam confiantes e tenham uma visão e o desejo de seguir adiante, não importa qual o tipo de políticas você tente implementar, você nunca seria capaz de ser bem sucedido.

Na minha opinião, estas duas dimensões são a razão pela qual, apesar das dificuldades obviamente, a Islândia está hoje numa condição muito melhor que qualquer um esperaria há cinco anos atrás, incluindo nós mesmos."