segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

"Volta ditadura, volta"

Aposto que alguns leitores já devem ter ouvido o mantra que entitula essa postagem. É um comentário recorrente na internet e curiosamente vem da boca daqueles que nasceram bem depois do final da ditadura. Essas pessoas desconhecem os horrores da ditadura e nunca leram nada a respeito. Provavelmente ouviram o avô, o pai, o tio, o coleguinha da internet ou qualquer outro reacionário dizer que o ensino era melhor na época da ditadura e que todos eram mais felizes e viviam em segurança na época da ditadura. Falácias.  São os tais órfãos da ditadura. Hoje mesmo deparei-me com um comentário desse tipo: 



E onde estava esse comentário? Numa famosa rede social chamada Facebook onde temos a oportunidade de ver o chorume do pensamento na mais concentrada forma. Se quiser ver a pérola in loco (a pérola na Ustra de origem, risos) , clique aqui

Não sei direito o que aconteceu no dia 07 de dezembro de 2013 no Shopping Itaquera. Shoppings costumam ser bem cheios essa época do ano. Os shoppings são muito mais do que centros comerciais. São opções de lazer, em um bairro que não possui muitas opções. A atual sociedade que exalta o consumo também favorece isso. Os Shoppings tornaram-se grandes pontos de interesse. As pessoas circulam pelas vitrines mesmo que não tenham a intenção de comprar nada. Claro que pelas imagens a gente percebe que o estacionamento desse Shopping estava anormalmente cheio neste dia. 

Muito provavelmente esses jovens combinaram esse grande encontro pelo Facebook. Pelo que pesquisei na internet, "fluuxo" é alguma coisa que vem do funk e significa agrupar várias pessoas. Para dançar funk ou algo assim. Eu sou mais velha que esses jovens e estou bem por fora dessas modas. Esses jovens se encontraram no estacionamento do Shopping para "causar"? Provavelmente. Eles queriam mesmo ver a reação das pessoas e dos seguranças. Se você procurar por "fluuxo", verá aglomerações semelhantes. Ah sim, os jovens de classe média chamam aglomerações parecidas de flash mobs (daí pode, né?).

Por que esse tipo de coisa acontece? Provavelmente porque não há muitas opções de lazer para os jovens itaquerenses. Os mais espertinhos dirão Sesc Itaquera. Bem, fica distante de muitas comunidades do bairro e se não me engano, é necessário pagar para entrar. Em Itaquera não há muitas praças públicas. Não há centros de lazer suficientes, com atrativos para todos os jovens. Não há lazer e espaços públicos de convivência em quantidade suficiente. Não há muitas iniciativas de fomento cultural. Os jovens não tem um cardápio de opções gratuitas e variadas. 

É fácil dizer que existem opções, quando você pode pagar um curso de inglês, natação, ballet, judô e escolinha de futebol para seus filhos. A vida de quem não tem dinheiro não possui muitas opções. Nas comunidades, também não há muitos exemplos diferentes para serem seguidos. Por isso o sonho de ser modelo, atriz ou jogador de futebol é tão repetido por tantas crianças. 

Eu cresci em Itaquera. É um bairro bem grande e sem exageros, posso dizer que é como uma cidade. Lembro a dificuldade que era procurar uma biblioteca pública para fazer um trabalho escolar. Eu precisava pegar um ônibus para ir na Cohab José Bonifácio, onde havia uma biblioteca precária. Alguns anos depois eu já podia ir para lugares distantes e frequentava a Biblioteca da Penha. Muito maior, com mais livros e melhor infraestrutura. 

Onde quero chegar? O rapaz que ao ver as imagens dos jovens bagunçando no estacionamento do Shopping concluiu que a volta da ditadura era uma solução, preferiu repetir uma frase dita exaustivamente por reacionários do que tentar entender porque a aglomeração ocorreu. Essa é a tática dos reacionários. Eles repetem as coisas, como papagaios. Não refletem sobre o suposto problema apresentado (mtas vezes nem é problema de verdade, pois reacionários inventam problemas: para eles o programa Esquenta é um problema), sobre suas origens e possíveis soluções. Reacionários, negadores do aquecimento global, criacionistas e toda sorte de pseudocientistas: eles apenas repetem groselhas exaustivamente ditas. Aquela história de que uma mentira dita muitas vezes torna-se verdade. Não, ela não se torna verdade! Continua uma mentira, só que ao ser dita várias vezes, vira um monstro.  Eles parecem incapazes de refletir sobre o problema que está diante deles. Eles preferem um pacote de soluções, uma receitinha que consideram ser prática e eficaz, mesmo que absurda. 

Volta da ditadura, pff. Pergunta se os familiares dos desaparecidos políticos, pessoas que ainda hoje buscam respostas ao que aconteceu, gostariam que a ditadura voltasse. Pergunte às pessoas que sofreram durante o regime e sobreviveram. Ser favorável ao retorno da ditadura demonstra um total desrespeito aos direitos humanos.

3 comentários:

  1. Recomendo a leitura dessa página: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/nao-penso-logo-relincho-4941.html

    ..."um clichê repetido à exaustão, vale lembrar, não é debate. É apenas relincho."...


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  2. Aqueles que nao conhecem sua própria historia estão fadados a repeti-la. Esse povo nao tem nocao que na epoca da ditadura os meios de comunicacao eram controlados pelo governo. Os mais velhos pensam que na epoca da ditadura tinha menos violencia, mas na verdade eles nem sabem quanta violencia havia de fato. Isso sem considerar a violencia do proprio Estado. Hoje em dia o problema eh outro, ao inves de informar a midia de massa quer controlar o pensamento das massas, principalmente por omisssao. Se tem um escandalo do partido indesejado sao mostrados todos os problemas. Se tem um escandalo do partido desajado as manchetes sao sobre coelhinhos e animais fofinhos.

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  3. Apesar de eu achar a manifestação em si, ridícula (por meu total desprezo e raiva do Funk - conceito, preconceito e pós-conceito em relação ao Funk e não escondo isto), NADA, absolutamente NADA, justifica alguém exaltar a DITADURA.

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