sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O "orgulho branco"

Outro dia fui comprar um produto de maquiagem chamado 'pó compacto', pois o que eu tinha havia acabado. Cheguei na loja onde sou cliente e comentei com a vendedora que o pó que ela tinha me vendido antes era um pouco mais escuro que minha pele e eu precisava de uma cor mais clara. Ela então me trouxe uma cor chamada "bege nude". Vi que era o que eu precisava, fiquei satisfeita e saí da loja. Mas depois eu fiquei pensando... Quando uma pessoa branca compra um band aid, escolhe entre o band aid cheio de desenhos fofos ou entre o band aid COR DE PELE. Não é uma idéia de padronização? Como se todo mundo tivesse a mesma cor de pele. A tal maquiagem com a cor "bege nude" não reproduz a mesma ideia de padronização? O termo nude, muito usado em moda recentemete, representa cor bege. A cor do "nu", a cor da pele nua.
O icônico Christian Louboutin, designer de sapatos, recentemente criou sapatos nude de diversas cores, para todas as mulheres do mundo.

Eu usei o termo padronização, mas talvez o certo seja invisibilidade. É como se os negros fossem invisíveis para a maioria dos segmentos do mercado. É como se eles não existissem. Quando negam o racismo e dizem que todos são iguais, estão também tornando o problema invisível. Não consigo entender os argumentos de muitas pessoas manipuladas pela mídia. Parece que elas assistem o programa do Datena e repetem tudo o que é dito lá. Elas dizem que não existe racismo no país e que na verdade, existe o tal racismo reverso: negros odeiam brancos, tanto que alguns usam a camiseta 100% negro. Então vociferam furiosos, em churrascos familiares, dizendo que não podem usar a camiseta 100% branco. Logo, isso indicaria o temido racismo reverso.

Risos.

Essas pessoas não conseguem entender a disparidade histórica que existe entre negros e brancos. Os brancos exploraram e escravizaram os negros por anos. Hoje, oferecem a eles subempregos. Vá a uma universidade ou grande empresa. Executivos e docentes dificilmente serão negros. Agora olhe as senhoras que fazem o café, a limpeza e aqueles que cuidam da jardinagem. Ah, muitos nem olham. O pessoal da copa, da limpeza e da jardinagem deve permanecer invisível. Muitos recebem ordens de não conversar com os demais funcionários. Uma colega me contou isso, certa vez. Ela contou que fazia a limpeza em uma grande universidade. Seus supervisores a orientavam para não conversar com os docentes enquanto limpava a sala deles. Ou seja: ela tinha que entrar na sala daquelas pessoas todos os dias, mas não deveria conversar. Laços de amizade? Jamais! São de classes sociais diferentes (e a gente criticando as castas na Índia, aqui não temos algo parecido?). Sem mencionar os casos de assédio que essas mulheres sofrem: verbal e sexual. Muitas temem denunciar, pois tem medo de perder o emprego.

Eu não tenho orgulho de comprar um pó compacto bege nude. Não tenho orgulho de ser branca. O que não significa que não tenha orgulho de quem sou, o que é outra história. Não faz sentido ter orgulho de algo que é o padrão, é o normal, o aceitável pela sociedade. Uma negra em minha posição social, que teve que nadar velozmente contra a corrente, essa sim precisa e merece ter orgulho. 

4 comentários:

  1. Este assunto me fez lembrar que hoje eu estive numa espécie de conveniência, um local onde vende salgados e alguns pratos perto de onde eu trabalho. Pouparei o nome do local por razão óbvia. Percebi que a maioria das funcionárias que lá trabalham, são pardos ou negros. Percebo que muitos rostos são novos por lá, lugar que frequento até que bastante, o que indica que elas não tem estabilidade, pode indicar que ganham mau e por isto procuram um emprego melhor. Lembro que uma delas saiu daquele local e passou a trabalhar numa companhia aérea, coincidência ou não, era mais branca do que as demais que lá estão. Eu não posso chamar o local de subemprego, acho que não, mas o nível social e o salário, devem ser baixo, eu suspeito disto. Este meu comentário acho que acrescenta mais uma situação que mostra que os negros continuam em serviços menos valorizados.

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    1. Queria que todas as pessoas fizessem esse exercício de observação, Vlamir! Adorei seu comentário.

      Nas empresas que fazem a limpeza de prédios públicos, as terceirizadas, percebo muito isso: rostos novos o tempo todo. Indicando exatamente que não trata-se de um emprego estável. Essas pessoas são mandadas embora ou saem em busca de algo melhor.

      Abraços

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  2. Eu concordo com seu post, e eu recomendo este vídeo sobre a única situação em que as pessoas podem usar o termo "racismo reverso". É muito bom!

    http://www.buzzfeed.com/hnigatu/comedians-amazing-response-people-who-complain-reverse-racis

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    1. Vou mandar o protótipo de um Capacitor de Fluxo para todos que falarem em racismo reverso. Muito bom o vídeo, vou até procurar outros do mesmo humorista!

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