domingo, 15 de dezembro de 2013

O garotinho Bil

Imagine um garotinho, digamos que ele tenha nove anos. O ano era 1989, o muro de Berlin já tinha caído e Raul Seixas acabava de morrer. Vamos chamar esse garotinho de Bil. O pequeno Bil era louco por videogames. Não seria incrível se ele pudesse ter um videogame? Bil pediu um videogame para sua mãe. Ela então lhe ofereceu uma escolha. Ele poderia ter um Master System, mas sua família não teria comida por um mês. Hummm, essa era uma escolha difícil para um garotinho. Bil foi nobre o bastante para escolher alimentar seus quatro irmãos.

Eles viviam em uma favela na periferia de uma cidade do interior de São Paulo. A favela ficava numa área estreita separada de um lado por uma rua e do outro por um corregozinho nojento. Naquela época, as casas em favelas eram chamadas de barracos, porque elas eram literalmente barracos feitos com pedaços e restos de madeira. A casa do Bil não era diferente. O banheiro era um buraco no chão do lado de fora. Mas Bil era feliz. Ele não precisava tomar banho todo dia. Ele podia ficar brincando na rua até tarde da noite. E ele era forte para sua idade. Até os meninos mais velhos tinham medo dele. Além disso, ele tinha um amigo que tinha um Sega Genesis e que o convida pra jogar nos finais de semana.

Bil foi meu amigo de infância. Era o meu Sega Genesis que ele jogava quando criança. E eu também passei muito tempo brincando no “quintal” do barraco dele. Pendurando na árvore perto do corregozinho nojento. Crescemos. Com o tempo algo foi mudando dentro dele. As decepções e frustrações do dia a dia foram se acumulando. Eu mesmo o decepcionei algumas vezes. Ele começou a ficar agressivo e fomos perdendo o contato. Às vezes eu o via conversando com alguns garotos mais velhos da minha rua. Sentados na calçada em frente da casa de um deles jogando conversa fora. Eu tinha minhas suspeitas do porquê meus vizinhos mimados de classe média baixa gostavam tanto da companhia de Bil. Pois apesar de morarmos muito próximos uns dos outros, nossas realidades eram muito diferentes da realidade de Bil.

Aos quatorze anos Bil largou os estudos. Era hora de ajudar com as contas da casa. Eu gostaria de dizer que Bil trabalhou e trabalhou e construiu uma vida melhor pra si. Mas a verdade é que eu não sei o final desta história. Até porque a esta altura era óbvio pra mim que Bil estava vendendo drogas. Nós perdemos contato definitivamente quando sua família se mudou para o Mato Grosso, onde Bil tinha o sonho de se tornar um grande traficante.

Hoje eu entendo a vida de Bil e de muitos outros como o resultado de um processo de retroalimentação positivo. Ou seja, a pobreza gera ignorância, que gera mais pobreza e que gera ainda mais ignorância e assim por diante. Eu poderia dizer que Bil é a razão pela qual hoje em dia eu sou a favor de medidas assitencialistas como o programa Bolsa Família e como as cotas para negros e para alunos da rede pública em universidades públicas. Mas a verdade é que por muito tempo eu fui contra estas medidas. Mesmo presenciando a extrema pobreza de perto, eu ainda era daqueles que repetem como papagaios:
"é melhor ensinar a pescar do que dar o peixe"
Acontece que num país onde existe tanta desigualdade social, dar o peixe já é um bom começo.

Mas eu mudei minha opinião. Eu mudei minha opinião porque eu pesquisei a respeito e ouvi os argumentos de especialistas dos dois lados da questão. Eu refleti sobre os pontos positivos e negativos e só então eu formei (ou reformulei) minha opinião. Eu não fui presunçoso a ponto de acreditar que as minhas experiências de vida (de expectador) eram suficientes para que eu pudesse formar minha opinião e julgar se um programa social é bom ou ruim. E certamente eu não formei minha opinião baseando-me em correntes de e-mail ou em compartilhamentos nas redes sociais. Hoje eu posso dizer que para bem ou para mal, a opinião é minha. Você pode dizer o mesmo?

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