domingo, 29 de dezembro de 2013

A Sabedoria de Homer Simpson

Minha frase favorita do Homer Simpson é: "eu sou um homem branco com idade entre 18 e 49 anos. Todo mundo presta atenção no que eu falo, não importa quão idiota são as minhas sugestões". Genial. Essa frase me marcou porque quando eu a ouvi eu ainda era menor de idade. Mas agora eu sou homem branco com idade entre 18 e 49 anos, então preste atenção em mim!

A genialidade desta frase está no fato de que em poucas palavras se tem um perfil perfeito das pessoas com o maior privilégio em nossa sociedade e em tantas outras. Perceba que o único motivo pelo qual esta frase me marcou foi por eu me sentir excluído daquele grupo. Quer dizer, se você não sente a exclusão, como poderia entendê-la?

A gente senta aonde a gente quer, de perna aberta, ocupando o máximo de espaço possível com as nossas grandes barrigas de chope e quando qualquer outra pessoa reivindica direitos iguais a gente ainda reclama que os outros querem tratamento especial. Enfim, nós somos um bando de Kikos reclamando que o Chaves tem um sanduíche de presunto.

Sabe por que existe o dia da mulher? Por causa dos homens. Sabe por que existe o dia da consciência negra e o dia do índio? Por causa dos brancos. Sabe porque existe um dia do orgulho LGBT? Por causa dos heterossexuais cis. Sabe por que não existe o dia do homem ou da consciência branca ou do orgulho heterossexual? Por que não existe dificuldade nenhuma em ser homem, branco ou heterossexual. Será que é tão difícil entender isso? Quer que eu desenhe?

Este quadrinho seria extremamente ofensivo se nós homem brancos cis não fôssemos privilegiados. Agora inverta os papeis para ver o que acontece.




Nós, homens brancos cis com idade entre 18 e 49 anos, precisamos nos conscientizar de que nós somos privilegiados e nós precisamos nos sensibilizar com os problemas dos outros ao nosso redor. Prezados compatriotas homens brancos cis de idade 18 a 49 anos, coloquem-se no lugar do outro! Cabe a nós mudar as estatísticas de violência e preconceito neste país.

domingo, 15 de dezembro de 2013

O garotinho Bil

Imagine um garotinho, digamos que ele tenha nove anos. O ano era 1989, o muro de Berlin já tinha caído e Raul Seixas acabava de morrer. Vamos chamar esse garotinho de Bil. O pequeno Bil era louco por videogames. Não seria incrível se ele pudesse ter um videogame? Bil pediu um videogame para sua mãe. Ela então lhe ofereceu uma escolha. Ele poderia ter um Master System, mas sua família não teria comida por um mês. Hummm, essa era uma escolha difícil para um garotinho. Bil foi nobre o bastante para escolher alimentar seus quatro irmãos.

Eles viviam em uma favela na periferia de uma cidade do interior de São Paulo. A favela ficava numa área estreita separada de um lado por uma rua e do outro por um corregozinho nojento. Naquela época, as casas em favelas eram chamadas de barracos, porque elas eram literalmente barracos feitos com pedaços e restos de madeira. A casa do Bil não era diferente. O banheiro era um buraco no chão do lado de fora. Mas Bil era feliz. Ele não precisava tomar banho todo dia. Ele podia ficar brincando na rua até tarde da noite. E ele era forte para sua idade. Até os meninos mais velhos tinham medo dele. Além disso, ele tinha um amigo que tinha um Sega Genesis e que o convida pra jogar nos finais de semana.

Bil foi meu amigo de infância. Era o meu Sega Genesis que ele jogava quando criança. E eu também passei muito tempo brincando no “quintal” do barraco dele. Pendurando na árvore perto do corregozinho nojento. Crescemos. Com o tempo algo foi mudando dentro dele. As decepções e frustrações do dia a dia foram se acumulando. Eu mesmo o decepcionei algumas vezes. Ele começou a ficar agressivo e fomos perdendo o contato. Às vezes eu o via conversando com alguns garotos mais velhos da minha rua. Sentados na calçada em frente da casa de um deles jogando conversa fora. Eu tinha minhas suspeitas do porquê meus vizinhos mimados de classe média baixa gostavam tanto da companhia de Bil. Pois apesar de morarmos muito próximos uns dos outros, nossas realidades eram muito diferentes da realidade de Bil.

Aos quatorze anos Bil largou os estudos. Era hora de ajudar com as contas da casa. Eu gostaria de dizer que Bil trabalhou e trabalhou e construiu uma vida melhor pra si. Mas a verdade é que eu não sei o final desta história. Até porque a esta altura era óbvio pra mim que Bil estava vendendo drogas. Nós perdemos contato definitivamente quando sua família se mudou para o Mato Grosso, onde Bil tinha o sonho de se tornar um grande traficante.

Hoje eu entendo a vida de Bil e de muitos outros como o resultado de um processo de retroalimentação positivo. Ou seja, a pobreza gera ignorância, que gera mais pobreza e que gera ainda mais ignorância e assim por diante. Eu poderia dizer que Bil é a razão pela qual hoje em dia eu sou a favor de medidas assitencialistas como o programa Bolsa Família e como as cotas para negros e para alunos da rede pública em universidades públicas. Mas a verdade é que por muito tempo eu fui contra estas medidas. Mesmo presenciando a extrema pobreza de perto, eu ainda era daqueles que repetem como papagaios:
"é melhor ensinar a pescar do que dar o peixe"
Acontece que num país onde existe tanta desigualdade social, dar o peixe já é um bom começo.

Mas eu mudei minha opinião. Eu mudei minha opinião porque eu pesquisei a respeito e ouvi os argumentos de especialistas dos dois lados da questão. Eu refleti sobre os pontos positivos e negativos e só então eu formei (ou reformulei) minha opinião. Eu não fui presunçoso a ponto de acreditar que as minhas experiências de vida (de expectador) eram suficientes para que eu pudesse formar minha opinião e julgar se um programa social é bom ou ruim. E certamente eu não formei minha opinião baseando-me em correntes de e-mail ou em compartilhamentos nas redes sociais. Hoje eu posso dizer que para bem ou para mal, a opinião é minha. Você pode dizer o mesmo?

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

"Volta ditadura, volta"

Aposto que alguns leitores já devem ter ouvido o mantra que entitula essa postagem. É um comentário recorrente na internet e curiosamente vem da boca daqueles que nasceram bem depois do final da ditadura. Essas pessoas desconhecem os horrores da ditadura e nunca leram nada a respeito. Provavelmente ouviram o avô, o pai, o tio, o coleguinha da internet ou qualquer outro reacionário dizer que o ensino era melhor na época da ditadura e que todos eram mais felizes e viviam em segurança na época da ditadura. Falácias.  São os tais órfãos da ditadura. Hoje mesmo deparei-me com um comentário desse tipo: 



E onde estava esse comentário? Numa famosa rede social chamada Facebook onde temos a oportunidade de ver o chorume do pensamento na mais concentrada forma. Se quiser ver a pérola in loco (a pérola na Ustra de origem, risos) , clique aqui

Não sei direito o que aconteceu no dia 07 de dezembro de 2013 no Shopping Itaquera. Shoppings costumam ser bem cheios essa época do ano. Os shoppings são muito mais do que centros comerciais. São opções de lazer, em um bairro que não possui muitas opções. A atual sociedade que exalta o consumo também favorece isso. Os Shoppings tornaram-se grandes pontos de interesse. As pessoas circulam pelas vitrines mesmo que não tenham a intenção de comprar nada. Claro que pelas imagens a gente percebe que o estacionamento desse Shopping estava anormalmente cheio neste dia. 

Muito provavelmente esses jovens combinaram esse grande encontro pelo Facebook. Pelo que pesquisei na internet, "fluuxo" é alguma coisa que vem do funk e significa agrupar várias pessoas. Para dançar funk ou algo assim. Eu sou mais velha que esses jovens e estou bem por fora dessas modas. Esses jovens se encontraram no estacionamento do Shopping para "causar"? Provavelmente. Eles queriam mesmo ver a reação das pessoas e dos seguranças. Se você procurar por "fluuxo", verá aglomerações semelhantes. Ah sim, os jovens de classe média chamam aglomerações parecidas de flash mobs (daí pode, né?).

Por que esse tipo de coisa acontece? Provavelmente porque não há muitas opções de lazer para os jovens itaquerenses. Os mais espertinhos dirão Sesc Itaquera. Bem, fica distante de muitas comunidades do bairro e se não me engano, é necessário pagar para entrar. Em Itaquera não há muitas praças públicas. Não há centros de lazer suficientes, com atrativos para todos os jovens. Não há lazer e espaços públicos de convivência em quantidade suficiente. Não há muitas iniciativas de fomento cultural. Os jovens não tem um cardápio de opções gratuitas e variadas. 

É fácil dizer que existem opções, quando você pode pagar um curso de inglês, natação, ballet, judô e escolinha de futebol para seus filhos. A vida de quem não tem dinheiro não possui muitas opções. Nas comunidades, também não há muitos exemplos diferentes para serem seguidos. Por isso o sonho de ser modelo, atriz ou jogador de futebol é tão repetido por tantas crianças. 

Eu cresci em Itaquera. É um bairro bem grande e sem exageros, posso dizer que é como uma cidade. Lembro a dificuldade que era procurar uma biblioteca pública para fazer um trabalho escolar. Eu precisava pegar um ônibus para ir na Cohab José Bonifácio, onde havia uma biblioteca precária. Alguns anos depois eu já podia ir para lugares distantes e frequentava a Biblioteca da Penha. Muito maior, com mais livros e melhor infraestrutura. 

Onde quero chegar? O rapaz que ao ver as imagens dos jovens bagunçando no estacionamento do Shopping concluiu que a volta da ditadura era uma solução, preferiu repetir uma frase dita exaustivamente por reacionários do que tentar entender porque a aglomeração ocorreu. Essa é a tática dos reacionários. Eles repetem as coisas, como papagaios. Não refletem sobre o suposto problema apresentado (mtas vezes nem é problema de verdade, pois reacionários inventam problemas: para eles o programa Esquenta é um problema), sobre suas origens e possíveis soluções. Reacionários, negadores do aquecimento global, criacionistas e toda sorte de pseudocientistas: eles apenas repetem groselhas exaustivamente ditas. Aquela história de que uma mentira dita muitas vezes torna-se verdade. Não, ela não se torna verdade! Continua uma mentira, só que ao ser dita várias vezes, vira um monstro.  Eles parecem incapazes de refletir sobre o problema que está diante deles. Eles preferem um pacote de soluções, uma receitinha que consideram ser prática e eficaz, mesmo que absurda. 

Volta da ditadura, pff. Pergunta se os familiares dos desaparecidos políticos, pessoas que ainda hoje buscam respostas ao que aconteceu, gostariam que a ditadura voltasse. Pergunte às pessoas que sofreram durante o regime e sobreviveram. Ser favorável ao retorno da ditadura demonstra um total desrespeito aos direitos humanos.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O "orgulho branco"

Outro dia fui comprar um produto de maquiagem chamado 'pó compacto', pois o que eu tinha havia acabado. Cheguei na loja onde sou cliente e comentei com a vendedora que o pó que ela tinha me vendido antes era um pouco mais escuro que minha pele e eu precisava de uma cor mais clara. Ela então me trouxe uma cor chamada "bege nude". Vi que era o que eu precisava, fiquei satisfeita e saí da loja. Mas depois eu fiquei pensando... Quando uma pessoa branca compra um band aid, escolhe entre o band aid cheio de desenhos fofos ou entre o band aid COR DE PELE. Não é uma idéia de padronização? Como se todo mundo tivesse a mesma cor de pele. A tal maquiagem com a cor "bege nude" não reproduz a mesma ideia de padronização? O termo nude, muito usado em moda recentemete, representa cor bege. A cor do "nu", a cor da pele nua.
O icônico Christian Louboutin, designer de sapatos, recentemente criou sapatos nude de diversas cores, para todas as mulheres do mundo.

Eu usei o termo padronização, mas talvez o certo seja invisibilidade. É como se os negros fossem invisíveis para a maioria dos segmentos do mercado. É como se eles não existissem. Quando negam o racismo e dizem que todos são iguais, estão também tornando o problema invisível. Não consigo entender os argumentos de muitas pessoas manipuladas pela mídia. Parece que elas assistem o programa do Datena e repetem tudo o que é dito lá. Elas dizem que não existe racismo no país e que na verdade, existe o tal racismo reverso: negros odeiam brancos, tanto que alguns usam a camiseta 100% negro. Então vociferam furiosos, em churrascos familiares, dizendo que não podem usar a camiseta 100% branco. Logo, isso indicaria o temido racismo reverso.

Risos.

Essas pessoas não conseguem entender a disparidade histórica que existe entre negros e brancos. Os brancos exploraram e escravizaram os negros por anos. Hoje, oferecem a eles subempregos. Vá a uma universidade ou grande empresa. Executivos e docentes dificilmente serão negros. Agora olhe as senhoras que fazem o café, a limpeza e aqueles que cuidam da jardinagem. Ah, muitos nem olham. O pessoal da copa, da limpeza e da jardinagem deve permanecer invisível. Muitos recebem ordens de não conversar com os demais funcionários. Uma colega me contou isso, certa vez. Ela contou que fazia a limpeza em uma grande universidade. Seus supervisores a orientavam para não conversar com os docentes enquanto limpava a sala deles. Ou seja: ela tinha que entrar na sala daquelas pessoas todos os dias, mas não deveria conversar. Laços de amizade? Jamais! São de classes sociais diferentes (e a gente criticando as castas na Índia, aqui não temos algo parecido?). Sem mencionar os casos de assédio que essas mulheres sofrem: verbal e sexual. Muitas temem denunciar, pois tem medo de perder o emprego.

Eu não tenho orgulho de comprar um pó compacto bege nude. Não tenho orgulho de ser branca. O que não significa que não tenha orgulho de quem sou, o que é outra história. Não faz sentido ter orgulho de algo que é o padrão, é o normal, o aceitável pela sociedade. Uma negra em minha posição social, que teve que nadar velozmente contra a corrente, essa sim precisa e merece ter orgulho. 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Estado Mínimo

Um colega uma vez me disse que ouviu de um possível 'classe média', provável 'reacionário', muito certamente de 'direta ou extrema direita', a seguinte frase: - Por que que eu tenho que pagar o SUS com meus impostos, para financiar a cirurgia do moleque pobre que precisa de cirurgia? Bom, podemos chamar este classe média de muitas coisas, muitas das quais já sugeri acima..., mas podemos também, talvez, chama-lo de fascista. Sei lá... A única certeza que tenho é que o grau de sensibilidade do cara é extremamente baixo, o egoísmo é bem alto e eu tenho pena de mim mesmo por ter que viver numa sociedade com este tipo de pessoa. No mínimo desejo que o cara precise de justiça e no fim das contas só consiga injustiças, para sentir na pele como que é viver a margem da sociedade.