terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Estou cansada

Estou cansada:

- Desse feminismo que trata os homens como “estupradores em potencial” , “inimigos”, etc. Há homens dispostos a nos tratar com respeito e a entender o feminismo. Não, não é necessariamente roubo de protagonismo. Na maioria das vezes, os caras querem entender mesmo. Porque querem entender a gente. Porque querem ser pessoas melhores. Porque são solidários. Tem muito carinha legal, sério. 

- Desse feminismo branco de classe média, que desrespeita e desconsidera a luta de mulheres do campo e operárias que muitas vezes nem usam o termo feminismo, mas agem com muito mais sororidade e lutam muito mais do que muita preguiçosa que passa o dia todo no Facebook e nem lava o próprio banheiro. Cansada desse feminismo branco de classe média que acha que só existe uma forma de lutar e uma forma de viver.

- Dessa militância de esquerda progressista que desconsidera o conhecimento científico. Cansada de “intelectual” que acredita em astrologia e que deixa se seduzir por pseudociências em geral (aquecimento global não existe, tarô, homeopatia, etc).

- De homens que apresentam um discurso feminista e progressista, mas na intimidade reproduzem pensamentos e opiniões machistas.

- Cansada de pessoas que colocam sempre a culpa no outro ou em qualquer agente externo (Governo a alienígenas). Precisamos começar a assumir nossa parcela de culpa nas coisas. 

- Da ditadura do corpo perfeito, das mulheres se submetendo a tratamentos sem fundamento científico e que colocam a saúde em risco para ter o corpo da atriz/modelo/etc da TV

- Cansada dessa ideia idiota de que mulher não pode se interessar por ciência, ficção científica, carros, aviões e outras coisas consideradas “masculinas”. Podemos gostar do que quisermos!

- Cansada também dessas imposições idiota que deram aos homens: não pode chorar, tem que vestir calça comprida no calor de 40°C, tem que ser chefe da família, não pode gostar de cozinhar, não pode ser professor de escolinha, etc

- Cansada de tele-evangelistas que prometem milagres em troca de dinheiro. Cansada! A Reforma Protestante não foi pra isso. Não foi para que hoje as igrejas pentecostais começassem a vender areia e água de Israel ou suor de pregador. Jesus não veio a Terra para que as pessoas vivessem sob esse jugo, como se fosse impossível chegar até Deus. Como se Deus fosse o grande chefão de uma fase difícil de um videogame e várias quests precisam ser concluídas para chegar até ele.

- Por falar em Israel, cansada dessa obcessão doentia pelo país Israel. Coisa de pastor mentiroso, que confunde um povo da Antiguidade com a aberração diplomática que é a existência desse país.  Porque com essa aparente mistureba, lucram com viagens, souvenirs e todo tipo de invencionice. Além disso, esses pastores ficam usando símbolos judaicos em seus cultos, um desrespeito ao Judaismo. Quanto mais tralha para vender e apresentar, mais convincente. Infelizmente o ser humano precisa de amuletos.

- Cansada do jeitinho brasileiro e falo de corrupção diária mesmo. Porque o termo jeitinho brasileiro pode também representar algo bom, como a criatividade do povo em criar soluções para situações difíceis, normalmente para economizar dinheiro ou ganhar uma graninha extra. Como meu tio, que recentemente captou a água da chuva em tonéis com torneiras acopladas por ele. Como esse mesmo tio, que para ganhar um dinheiro extra, aprendeu a fazer trufas e hoje as comercializa.  Já a corrupção diária é parte da hipocrisia de um povo que cobra transparência e honestidade dos políticos, mas rouba sinal da TV a cabo e paga propina para um fiscal.

- Cansada da falta de infraestrutura em todo território brasileiro. As pessoas não conseguem se deslocar pelo nosso território com conforto e segurança. As mercadorias não conseguem ser escoadas através dos portos. Há uma crise hídrica que é ignorada e tratada como algo menor pelo governador do Estado mais populoso do Brasil. Há uma crise energética e uma falta de investimento em energias renováveis e em centrais locais. Falta tudo e as pessoas fingem que não veem.

- Cansada dessa história de tapar o Sol com a peneira. Na cidade de São Paulo, o prefeito simplesmente colocou ciclovias por toda cidade. Seria algo bom, se o transporte público também fosse melhorado.

- Cansada da burrice das pessoas pela internet. Todo dia tem um que critica o bolsa família ou qualquer programa assistencial do governo. E quem critica não sabe como o programa funciona e nem conhece um beneficiado. Sonho com um mundo em que as pessoas se informassem e refletissem antes de dar opinião.

- Cansada de ver que as vidas das pessoas não valem nada, principalmente se a pessoa em questão é pobre e negra. A sociedade marginaliza, o poder público não dá oportunidades e a polícia mata.


Estou cansada de tantas coisas que essa lista poderia crescer indefinidamente. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Reflexões sobre "homens feministas" e auto-estima

Já aviso que nesse post não vou dar nomes aos bois. Não quero que fofocas cheguem até aqui e como dizem em internetês: entendedoras e entendedores entenderão.

Há alguns dias eu estava lendo um blog feminista de muito sucesso. A blogueira (chamaremos de A) relatava um caso envolvendo um blogueiro/colunista famosão (chamaremos de B) e uma das leitoras desse blogueiro (chamaremos de C). O blogueiro B escreveu um post se declarando feminista e a leitora C ficou encantada, aplaudiu e decidiu mandar uma mensagem para o moço. Essa mensagem virou uma conversa. B começou a assediar C (de acordo com o relato de C, que a blogueira A fez questão de publicar). No começo, C ficou meio desconfortável com o assédio, mas por várias razões ela acabou cedendo a esse assédio.

Bom, o post-relato da blogueira A chegou em um ponto, reunindo informações, que concluía que o blogueiro famosão B curte assediar mulheres por aí. Não sei de que forma esse assédio se dá ('oi você é muito linda' ou 'oi, prazer em conhecê-la, quero te comer'), mas assédio é horrível de qualquer maneira. Também não entendi muito bem se era assédio propriamente dito. Não sei se o cara simplesmente "jogava o verde" educadamente e se ele julgasse que a moça correspondia, ele então continuava. Mas aparentemente ele mandava fotos do pênis dele e nem preciso dizer o quanto isso é de mal gosto.

Enfim, parece que o blogueiro famosão B curte assediar mulheres indiscriminadamente. E ele curte assediar mulheres casadas (ele curte saber que outro sujeito está sendo traído, aparentemente ele tem uma tara com isso). Não vou julgar, tem quem curta, tem quem tenha um relacionamento aberto, etc. Mas no final da história, C concluiu que B era um cretino. Opinião dela e que merece ser ouvida.[1]

E qual é meu ponto? Bom, com essa história toda, cheguei a duas importantes conclusões e pretendo falar sobre elas aqui.

A primeira delas é: mulheres, não acreditem em tudo o que vocês leem ou ouvem. Repetindo o óbvio: mulheres, não acreditem em tudo o que vocês leem ou ouvem. Se o sujeito se diz feminista ou escreve um texto se declarando feminista, não significa que ele realmente seja. Falar qualquer papagaio fala, como diziam os antigos. E escrever qualquer um escreve, basta ser funcionalmente alfabetizado. Acontece que as pessoas nem sempre falam e escrevem coisas com sinceridade. Mulheres, os homens estão na política há milênios. Eles aprenderam a dissimular interesses para adquirir co-religionários. Fiquem espertas!

O homem feminista não precisa falar que é feminista ou escrever um texto feminista para isso. A propósito, não é todo mundo que gosta de escrever sobre qualquer assunto. E o protagonismo não é nosso? Ué, se o protagonismo é nosso, porque se derreter toda vez que vê um cara se dizendo feminista? Que fique claro, não to dizendo que todo blogueiro que se diz feminista é um cretino mentiroso, não é isso. O que quero dizer é que há homens se dizendo feministas apenas para COMER VOCÊS. Faz algum tempo que tenho observado esse fenômeno. Numa leitura superficial, parece que isso é muito bom. Mas o que quero dizer é que há homens fingindo ser feministas, vestindo camisetas, bradando lemas feministas e na verdade eles estão apenas FINGINDO. E na verdade são muito, mas muito escrotos. São completamente o oposto do feminismo. São na verdade machistas, babacas pedantes que querem te dizer em que situação você é oprimida, manipuladores, etc. Por isso, cuidado!

Por outro lado, existem vários carinhas legais que não se declaram feministas mas seguem ideais feministas. Alguns porque não tem familiaridade com o termo. Outros porque talvez não achem relevante ficar bradando isso (porque consideram isso óbvio e/ou não querem falar da opressão dos outros). Existem carinhas que foram bem educados pelos seus pais, que tiveram mães independentes, que sabem respeitar o próximo e que estão abertos para imergir no mundo do outro. Não é isso que é um relacionamento: um parceiro entra no mundo do outro parceiro e vice-versa?

Quando conheci meu marido, ele já tinha ideais feministas mas não falava em feminismo. Acho que ainda hoje ele não chama de feminismo, talvez porque não ache relevante. E eu também nem conhecia feminismo na época em que eu o conheci, não conhecia como movimento, quero dizer. Até aí, tem vários movimentos feministas no campo, no mundo todo, que não usam o termo feminismo, mas trabalham com o empoderamento das mulheres. 

Meu marido aprendeu muita coisa comigo, ouvindo o que falo sobre o assunto. E eu aprendi várias coisas com ele também. A evolução da consciência e do conhecimento não é algo pronto. É algo construído. E nessa construção, a sociedade, a família, os amigos e os parceiros amorosos tem muita importância.

Então a primeira conclusão é: não caia de amores por um sujeito apenas porque ele se diz feminista. Ainda mais hoje, na internet, onde é possível se dizer expert ou se declarar militante de qualquer coisa. Avalie outras coisas que o cara escreveu, saiba mais sobre ele, saiba mais sobre os amigos e a família dele. Observe. Muitas vezes, observando por menos de 10min nas redes sociais a gente já sabe qual é a do sujeito. Não ignore sua intuição! 

Meu segundo ponto é: trabalhe para o crescimento de sua auto-estima. E ajude no crescimento da auto-estima de suas amigas, irmãs, colegas de trabalho, mãe, tias, etc. Cerque-se de pessoas positivas, valorize seus pontos mais fortes, leia bastante, estude, sempre busque conhecimento e auto-conhecimento. Não continue o círculo vicioso das mulheres que gostam de criticar a aparência/roupa/corpo/cabelo das colegas de trabalho. Sabe aquela sua colega de trabalho tímida, que anda com os ombros caídos e não fala com ninguém? Dê bom dia, seja gentil, se aproxime. Elogie! Realce os pontos positivos! Muitas mulheres gostam de maquiagem, combine um dia em seu condomínio ou escritório para fazer algumas horas de beleza. Várias empresas de cosméticos oferecem esse tipo de consultoria. Claro que a gente não precisa de maquiagem para nos sentirmos bonitas, mas uma maquiagem bem feita pode realçar a beleza e ajudar na auto-estima das mulheres. Outras sugestões: organize aulas de pilates, ioga, idiomas, clube de leitura, artesanato, etc. Qualquer atividade que proponha o espírito de grupo e estimule a evolução pessoal é bem vinda! 

Repetindo: corte o círculo vicioso das críticas sobre a aparência das suas amigas/colegas. Elimine isso. Se alguma colega vier fazer qualquer comentário sobre uma terceira colega, ignore-a. Deixe claro que você não acha isso legal. E tenha certeza que quem faz esse tipo de crítica sobre os outros para você, faz de você para os outros. Se não conseguir educar, tire essa gente tóxica de seu caminho.

Ame-se! E cerque-se de amor, dê amor, dê carinho para as mulheres que estão próximas. Ajude a criar e a amplificar uma onda de muita auto-estima e positividade. Isso pra mim é o máximo da sororidade. Elogie e incentive o trabalho das outras mulheres, dê sugestões boas e gentis. 

A auto-estima elevada é importante porque na minha opinião, se você se ama e está feliz na própria pele, não vai se envolver com tranqueira. Vai atrair pessoas bacanas, de mente aberta, positivas e dispostas a te ouvir, te respeitar e te amar do jeito que você é. Quando estamos com a auto-estima elevada, nosso radar fica mais ligado e nossos níveis de exigência sobem. Acredito que com a auto-estima lá em cima, a gente fica menos susceptível a se envolver com homens que não nos amam de verdade. [2]

"E lembre-se: Se você não se ama, de que jeito vai amar outra pessoa?"


A intenção desse post não é parecer um tratado de auto-ajuda. Mas do fundo do coração, se eu puder ajudar alguma mulher com esse desabafo, vou ficar imensamente feliz.

E que fique claro que não quero julgar nenhuma mulher que eventualmente tenha caído na lábia de um cara que mentiu, manipulou e enganou. Muitas mulheres (inclusive eu, já que estou escrevendo o texto) já fomos manipuladas. Um dia a gente aprende, começa a enxergar as coisas e passa a querer ajudar outras mulheres. E esse é o meu objetivo!


*****
[1] Deixei toda a primeira parte do texto marcada assim porque aparentemente não entendi a história direito. E quer saber? Acho que entendi o necessário, não quero e nem preciso me aprofundar nesse tipo de conversa. Desde o início, quando escrevi esse texto hoje pela manhã, eu sabia que eu não sabia de todos os detalhes. Por isso usei "talvez" tantas vezes. Também não quero questionar a vítima, nem sei direito o que aconteceu e a vítima merece ser ouvida sim, sempre.

O ponto principal desse texto - e talvez algumas pessoas não tenham entendido direito, pelo que me falaram - é que eu usei o que eu sabia superficialmente do ocorrido para falar sobre homens que usam o feminismo para "pegar mulher" e de como nós precisamos alimentar nossa auto-estima, todos os dias. E sobre como nós podemos aumentar a auto-estima das mulheres que nos cercam. Para mim ficou claro que essa é a mensagem principal do texto, independentemente dos detalhes do que aconteceu. Tanto que nem citei nomes, para que a mensagem do texto não ficasse em segundo plano.

E sinceramente, as pessoas ficam "endeusando" figuras da internet. Isso é horrível, não se deve colocar ninguém em um patamar. Quando o forninho cai, as decepções são terríveis.

[2] Sim, eu acredito no amor, seja ele amor romântico, platônico e etc. Também tem o amor eros, o sexo e etc. Acho que qualquer relacionamento entre duas pessoas tem que envolver amor sim. E não falo apenas de amor romântico, talvez no sentido "amplo completo e burguês da coisa rs". Para mim, respeito é uma forma de amor. E se duas pessoas vão se relacionar apenas por uma noite, curtição, tem que haver esse respeito. O tal amor ao próximo, tão falado por Jesus. É, sou clichêzona, demodê, tradicional, pode me chamar do que quiser rs. 

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Crônicas da Grávida - O Corpo.

Eu estou grávida. Aceito os parabéns e os votos positivos de todos :). Mas sem adulações.

Talvez eu não desejasse esse filho.  Talvez eu não tivesse planejado. No meu caso, eu planejei. Mas eu não sou a primeira e nem a última mulher a engravidar, minha gravidez é minha e é especial para mim. Não é especial para a humanidade.

E detesto adulações.

Como grávida de primeiro trimestre e primeira viagem, evidentemente tenho experimentado sensações e situações que não conhecia antes. A mais assustadora delas até agora é a satisfação doentia de algumas pessoas: "você vai ficar gorda, olha seu rostinho de grávida, vc já tá gorda".

Explico: sempre tive um corpo dentro dos "padrões de beleza brasileiros". Bundão, cintura fina, seios de tamanho médio. Sempre chamei a atenção por isso. E nunca gostei muito dessa atenção, para falar a verdade. Claro que gosto da atenção do meu parceiro, mas odeio chamar a atenção não-solicitada.

Infelizmente, agora tenho percebido a satisfação doentia estampada na cara de algumas pessoas. Que se deliciam em dizer que vou engordar X quilos (elas são bem precisas, dizem o número). Que se deliciam ao ver que minha cinturinha vai desaparecer. Que ficam felizes ao verem que meu rosto vai ficar redondo (já está um pouco redondo rs).

Eu fico tão triste e tão abalada com isso. E vou explicar as razões. A primeira delas é que algumas das pessoas que agiram assim comigo possuem questões relacionadas com sua imagem (sentem-se gordas, fazem ou fizeram regimes, cirurgias plásticas, etc). Eu esperava mais empatia, mas parece que eu estava enganada. A segunda razão é simples: eu realmente tenho medo e engordar. Não tenho vergonha de dizer isso.

Eu não deveria ter esse medo. Claro que não é O MEU MAIOR MEDO NA VIDA, mas é um medinho. Prefiro ter o corpo de antes da gravidez. Sei que isso pode não ser possível, sei que o corpo muda, mas sei mas não quero ser gorda.  Não vou explicar porque não quero ser gorda, mas acredito que além de razões pessoais, fui influenciada pela sociedade que é sim gordofóbica. Estou inserida nessa sociedade, então meu pensamento é moldado dessa forma.

Se eu ficar gorda vou ser infeliz? Não sei, mas acho que não. Eu me sinto muito feliz em diversos aspectos de minha vida. Mas definitivamente, não vou ficar satisfeita.

O terceiro ponto é que considero que as pessoas estão pecando nas prioridades. Poxa, eu estou grávida. Tô feliz, eu queria isso. Não sou idiota, sei dos prós e contras. Então dane-se se vou engordar ou não. Isso não é prioridade!

Quando as pessoas falam que eu vou ficar gorda - e falam com um prazer assustador -, essas razões aparecem na minha frente. E eu me sinto acuada, triste. Infelizmente, tenho percebido ao longo dos dois últimos anos que nem com todo mundo vale a pena manter uma amizade. E se você quer manter a amizade com algumas pessoas, tem que passar por cima de muita coisa, tem que engolir muito sapo. Acontece que não quero mais engolir tantos sapos. Se for uma ou outra rãzinha, até vai. Mas não quero sapos enormes.


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Nossos códigos

Cada um tem um código de conduta, chamarei assim. Esse código pode e deve ser editado ao longo da vida. É influenciado pela religião, educação formal, educação básica (aquela transmitida de pais para filhos), contexto cultural, época em que a pessoa vive, contexto político, etc.

É um código aberto. Pode ser até influenciado por outras pessoas, em maior ou menor grau.

Outro dia eu conversava com uma pessoa sobre traição. A pessoa me contava o caso de uma moça que saia com um rapaz casado e era amiga da família do rapaz. Vamos chamar a moça de Fulana (que criativa rs). Fulana conhecia a esposa do rapaz, a irmã, os sobrinhos, etc. Ela participava ativamente de festas da família, quando os olhares se cruzaram e surgiu um interesse físico.

Odeio traição de todos os tipos. Já vi de perto como pode destruir famílias e amizades. Se prometeu ficar junto e não há nenhum acordo mútuo de casamento aberto, então é traição. E traição machuca, fere, prejudica.

Também não acho que casamento precisa ser "pra sempre". As pessoas mudam, as situações mudam e uma das partes pode perder o interesse por inúmeras razões. Mas pra mim, quando as coisas são feitas com dignidade, há uma conversa madura e o relacionamento acaba. Simples assim. Ok, talvez não tão simples assim. Pode haver choro, dor, burocracias legais, etc. Mas o importante é haver respeito mútuo.

A pessoa com quem eu conversava (e que narrava a história de Fulana) disse que não admitia traição. Eu concordei com o ponto de vista dela, ainda ressaltei que Fulana não deveria ser a única vilã da história, como normalmente ocorre nessas histórias de traição. O marido traidor também estava errado, mais errado do que Fulana, porque fora ele quem rompera o acordo do casamento. Meu interlocutor concordou comigo, achou um absurdo que a culpa sempre recaia na "amante".

Por alguma razão que desconheço, a história descambou para homossexualidade. Meu interlocutor disse que preferia ter uma filha lésbica do que uma filha que fosse "amante de alguém". Nesse momento, perdi total interesse na conversa. Mas continuei ouvindo. Meu interlocutor dizia que ninguém merecia ter uma filha lésbica, que "essa  raça" é influenciada pela TV, que é pura rebeldia, que na verdade quer "atrair a atenção dos homens" etc. Todo aquele tipo de absurdo que as lésbicas ouvem todos os dias de suas vidas.

Tentei explicar que a homossexualidade é uma orientação sexual, que da mesma forma que existem pessoas heterossexuais, existem homossexuais, etc, aquela coisa toda que a gente explica para orientar as pessoas. Aquela coisa toda que DEVE ser explicada nas escolas, mas que infelizmente ainda é um tabu, graças às intervenções da bancada evangélica e de nossa querida presidenta que para manter alianças, que acata o que a bancada religiosa diz. 

Bom, eu tentei. Fiz a minha parte. Eu estava de bom humor no dia, então procurei agir de maneira professoral e amigável. Meu interlocutor até que concordou, mas ele disse que "isso só vale para alguns casos" porque "muita molecada é influenciada pelas novelas". Estamos falando de orientação sexual e não de escolha de smartphone.

Acabei mudando de assunto, mas antes disso perguntei o que meu interlocutor pensaria de uma suposta filha "amante" e homossexual. Então ele gelou, e invocou a Deus para "livrá-lo do mal".

Minha pergunta é: será que um dia, ser gay não será um problema? Será que um dia os códigos de conduta das pessoas encarará a homossexualidade e outras orientações sexuais que não a heterossexual com naturalidade? Será que um dia ser gay não vai ser sinônimo de falha de caráter? Avançamos muito nos direitos LGBT, mas ainda há muita intolerância e ignorância. Como otimista irremediável, acredito que um dia vai dar tudo certo.

Também aproveito para dissecar um pouco sobre o meu código de conduta: no meu código, traição é algo indigno e desonroso. Para algumas pessoas, que tem uma noção mais fluida sobre relacionamentos, sou conservadora. E podem me chamar como quiserem, mas eu odiaria ser traída. E se eu traísse, ficaria com um horrível peso na consciência. Para mim, é errado, simplesmente porque machuca o outro. 

Esse ponto em meu código de conduta pode ser conservador. Mas eu apoio na integralidade os direitos LGBT. Apoio a regulamentação do uso de algumas drogas (com muito foco na educação e redução de riscos), a descriminalização do aborto e outros temas considerados polêmicos. No entanto, traidores não passarão. Será que meu código de conduta será alterado nesse ponto algum dia? Acho pouquíssimo provável. 




segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Eu sonho com um mundo onde as pessoas não pensem linearmente

Eu sonho com um mundo onde as pessoas entendessem que as relações humans não são lineares. Um mundo em que as pessoas tivessem naturalmente a noção de que uma ação não provoca sempre a mesma reação. Assim essas pessoa seriam capazes de rejeitar a desonestidade intelectual que assola o mundo contemporâneo. Neste post vou falar de assuntos um pouco polêmicos. Não concorda comigo? Não precisa acreditar na minha palavra. Apenas peço que você pare de aceitar de mão beijada a palavra de comunidades nas redes sociais. Faça sua própria pesquisa. Alguns comentários deste post foram inspirados nas análises feitas por Malcolm Gladwell em seu livro “David e Golias”.

Muitas coisas na vida se comportam como uma curva na forma de “U” ou “U invertido”. Ou seja, uma mesma ação em condições diferentes pode gerar reações diferentes.

Por exemplo, imagine que você esta sentada(o) em uma mesa em seu restaurante favorito e você esteja morrendo de fome. É uma situação desconfortável (fome). Quando o garçon traz o seu prato predileto de comida e você começa a comer aquela sensação desconfortável passa a diminuir. Até o ponto em que você se sente satizfeita(o). Deveríamos parar ali, mas muitas vezes continuamos a comer e até passamos do limite. De forma que uma nova sensação de desconforto comeca a surgir. A mesma ação, comer, gera resultados diferentes dependendo se você está de barriga vazia ou de barriga cheia. O mundo não é linear.

Existe uma idéia de que no Brasil há muita impunidade e que essa falta de punição seja a causa de tanta violência que presenciamos e que algumas vezes, infelizmente, somos vítimas. Essa idéia de que a impunidade causa violência é uma idéia senso comum. E é uma idéia correta e incorreta ao mesmo tempo. Existem estudos que mostram que os seres humanos estão sempre ponderando os prós e contras de suas ações. Estamos sempre num estado de aposta. Se não há punição, a probabilidade de benefício é alta e a criminalidade aumenta. A medida que a punição aumenta, as pessoas passam a ponderar melhor as consequências de seus atos e a criminalidade diminui. Mas a criminalidade somente diminui até certo ponto. Se a punição passa a ser muito severa, a punição passa a ser percebida como injusta e a criminalidade passa a aumentar novamente. Então temos a curva “U”. Pouca punição gera o mesmo resultado de punição em demasia. O mundo não é linear.

Na minha opinião no Brasil existe impunidade e muita punição ao mesmo tempo. Um dos motivos pelo qual a polícia por vezes nem prende o batedor de carteira é porque nem tem mais lugar pra ladraozinho na cadeia. As cadeias estão super lotadas com gente que praticou crimes muito piores. Mesmo assim, todos os dias vemos notícias de policiares invadindo casas, prendendo e matando pessoas em comunidades pobres. Ao mesmo tempo, 450kg de cocaína são apreendidos em um helicópetero de um senador pouca gente parece se lembrar disso. Você sabe o que deu o processo? Você sabe se alguém foi preso? O meu ponto aqui é que esse sistema de punição só funciona para quem não é tão pobre ao ponto de perder as esperânças e nem é tão rico a ponto de ter um padrinho senador. O mundo não é linear.

Outra idéia senso comum é a idéia de que não se deve dar o peixe, mas sim ensinar a pescar. Novamente é uma ideia correta e incorreta ao mesmo tempo. Nao é a toa que grande parte das empresas que são herdadas vão a falência. Todos conhecemos os mimados que sempre tiveram tudo de mão beijada e quando precisam andar com as próprias pernas simplesmente não são capazes. Não me refiro apenas a bens materiais. Pensem também nos colagas de sala de aula ou nos colegas de trabalho que não querem se esforçar para aprender nada. Por outro lado, o programa Bolsa Família no Brasil tem mostrado resultados positivos. Não estou fazendo propaganda politica aqui. Mas o programa tem rendido bons frutos, ficou famoso internacionalmente, tem o apoio dos especialistas e provou melhorar não só a vida das famílias beneficiadas como também a vida de todos na comunidade. Ou seja, é ruim dar dinheiro para quem já tem o equipamento de pescaria (independência financeira), mas dar dinheiro para quem não tem quase nada torna as pessoas mais livres e todos se beneficiam. As pessoas precisam de um mínimo para poderem conquistar sua independência financeira. O mundo não é linear.

Quando a gente escuta ou lê que algo é diferente daquilo que a gente acreditava ser verdadeiro, é uma sensação desagradável. Mas a verdade é muitas vezes assim, inconveniente. Não é agradável admitir que estamos errados. Mas se agarrar a ideias falsas para evitar o desconforto de admitir o equívoco não traz nada de bom a você ou àqueles ao seu redor. Então antes de julgar uma informação utilizando seus próprios instintos, que provavelmente serão senso comum, tente ler bastante e se informar a respeito do assunto. Não compartilhe idéias lineares, porque o universo não é linear e você é parte dele.




quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Nivelando por baixo.

Hoje comentei que não gostaria de ser operada por esses médicos e então uma moça no twitter disse que "eu não deveria generalizar, porque em toda profissão tem gente boa e ruim...." bocejos.

Sério mesmo? Será que eu sou tão estrupícia que não sei de uma obviedade dessas? Será que sou tão idiota que não sei que em uma determinada profissão qualquer (seja ela qual for)  existem pessoas boas e pessoas ruins? Para começar, será mesmo que eu estava generalizando no que disse? E se estava, será que a generalização foi proposital, intencional ou foi apenas uma hipérbole?

O fato é que qualquer pessoa um pouco mais esclarecida (e nem precisa de muito) SABE que em um grupo qualquer de pessoas tem gente que trabalha bem e gente que não honra o que faz. É MUITO MUITO MUITO GRITANTEMENTE ÓBVIO. Então porque a moça veio chamar a minha atenção? Por que ela se sentiu ofendida? Por que ela acha que eu sou idiota? Não sei, sinceramente. Mas acho que nivelar as pessoas por baixo faz parte da nossa cultura.

Por isso que a previsão do tempo apresentada na TV é tão superficial. A previsão do tempo apresentada nos telejornais da Globo (emissora com maior audiência) é comandada por uma mulher bonita e magra (e que claro, que de preferência siga os padrões de beleza eurocêntricos, salvo uma rara exceção que me lembro) que fala por menos de 2min e muito rapidamente e sem nenhuma substância e que mal explica os fenômenos meteorológicos. A plástica perfeita e o tal "padrão globo de qualidade" que visa sobretudo a aparência são mais importantes que o conteúdo. O brasileiro, em geral, é visual. E provavelmente, dentro das redações, há discussões sobre "como vamos explicar isso para as pessoas, é muito complicado". 

 E não só a previsão do tempo. Qualquer informação científica é tratada com o mesmo descaso pelos jornalistas. A propósito, não entendo porque tem que ser um jornalista. Eu posso escrever sobre ciência no meu portal. Um astrônomo, um físico, um biólogo ou qualquer outro profissional também poderia. Basta apenas ter afinidade com a escrita e quanto mais se escreve, melhor ela fica. Mas os portais, sites de notícia e redações preferem contratar jornalistas, como se eles fossem uma espécie de profissional polivalente que pode falar sobre tudo. Acontece que nem todo jornalista tem afinidade com ciência ou economia, por exemplo. Entrevistam pessoas e muitas vezes mal sabem o que devem perguntar para elas. Simplesmente porque não tem afinidade com o assunto. Tudo é feito nivelando por baixo. 

Agora vou entrar em um terreno polêmico: doações de caridade. Vista a carapuça apenas se servir, mas já ouvi pessoas que dizem que vão montar uma cesta básica para uma família carente, mas não tem problema, compram do arroz mais baratinho mesmo, porque pobre não tem paladar exigente ou coisa do tipo. Lamentável, isso para mim não é caridade. Caridade é amor, é você comprar coisas que você consumiria em sua casa. É repartir e não dar migalhas. Sei que o assunto é polêmico e cada um deve ajudar os outros da melhor maneira possível (e cada um tem seu melhor, sua disponibilidade, sua opinião e suas condições financeiras particulares).  No entanto, não posso achar normal essa coisas de nivelar por baixo. 

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Sou boazinha, sou perfeita e meus métodos contraceptivos não falham

Outro dia travei uma discussão (não do jeito passional que as pessoas estão acostumadas a ver) no Twitter. A moça, dizia que aborto era assassinato de bebês, que jamais abortaria, que as pessoas tinham que se cuidar para não ficarem grávidas, porque os métodos contraceptivos dela sempre funcionavam, etc.

A teoria da moça perfeita. A pessoa acima do bem e do mal. É amigos, nesse mundo cão, isso não existe. A vida está longe de ser perfeita e longe de tudo dar certo.

Não vou dar detalhes, mas é fato que:

- Aborto não é assassinato: é por essa razão que se estabelece um período limite de gestação para abortar, na maioria dos países em que o aborto é regulamentado. Se um feto de 3-4 meses for um bebê viável, então somos coelhos.

- Aborto não é método contraceptivo: aborto é a última instância. A mulher que faz um aborto está desesperada. O método contraceptivo dela falhou ou ela simplesmente não usou. Isso mesmo, acontece, nem todo mundo é perfeito como a moça que discutiu comigo.

- A mulher que pensa em aborto precisa ser acolhida: precisa de apoio psicológico, carinho e atendimento médico. Se porventura ela não quiser abortar, também precisa de apoio para cuidar desse bebê ou destiná-lo para adoção.  

- As feministas e os progressistas pró-aborto não querem obrigar as pessoas a abortarem: quem pensa assim são alguns reacionários, que não querem que mulheres pobres tenham filhos. As militantes lutam para que o aborto seja uma opção presente na rede pública. Dessa forma, evita-se que mulheres morram em clínicas clandestinas de aborto.

- Guarde suas convicções pessoais para você mesma. Isso mesmo! Para a mulher desesperada, que vai fazer o aborto de qualquer jeito (amparada pela lei ou não), não importa se você é cristã e a favor da vida. Ou se você tem uma família maravilhosa que vai te ajudar. Muitas pessoas não são como você, lide com isso. Um país justo é aquele que oferece condições para as mulheres que escolherem o aborto, abortem. E claro, sejam amparadas.

Após feitas essas considerações básicas, fico pensando na incoerência da moça boazinha fofinha que jamais mataria bebês. É dessa forma que uma mulher que sofreu aborto merece ser julgada por outra mulher? Ou seja, não faz o aborto, mas não se preocupa com os sentimentos dos outros. Não 'mata bebês', mas tudo bem que 'mulheres morram' enquanto realizam o procedimento de forma clandestina.

Essa ideia de que "meu jeito é o certo" e "eu sou portadora do bastião do bem" precisa acabar. As mulheres já são diariamente massacradas e julgadas por essa sociedade patriarcal. Na política brasileira, temos pouca representatividade. Não precisamos de julgamento de mulher para mulher. Precisamos de sororidade, precisamos nos ouvir e nos respeitar.